Revisão de circuitos resistivos, capacitores e indutores, transitórios de primeira e de segunda ordem com excitação contínua, e circuitos ativos com amplificadores operacionais.
01 Corrente, tensão, potência e energia
A ideia. Circuitos Elétricos 1 é a primeira cadeira em que você resolve um circuito em vez de estudar o campo que existe dentro dele. O Eletromagnetismo tratava de E e B no espaço; aqui o espaço desaparece e sobra um grafo de elementos ligados por fios ideais. Toda a cadeira se apoia em quatro grandezas e numa convenção de sinal — e é o sinal, não a conta, que derruba prova.
Corrente é uma taxa; tensão é uma diferença
i(t)=dtdqq(t)=q(t0)+∫t0ti(τ)dτ
Duas leituras que valem para a cadeira inteira:
corrente passa por, tensão fica entre. Não existe “a tensão em um ponto” sem um segundo ponto de referência, e não existe “a corrente através de dois pontos”. Metade dos erros de enunciado mal lido é isto;
corrente é derivada de carga, então falar de corrente exige falar de quando. Na 3ª e na 4ª unidade, quando i e v passarem a depender do tempo, essa derivada volta como protagonista.
A convenção passiva de sinal
02 Elementos passivos e ativos; fontes independentes e controladas
A ideia. Um circuito é um grafo, e todo o vocabulário da cadeira está nos nós, nos ramos e nas malhas. Antes de escrever qualquer equação vale saber ler o desenho — e saber, olhando para cada elemento, se ele entrega ou consome energia, porque é isso que separa fonte de carga.
Passivo e ativo
Passivo é o elemento que só consome ou armazena: resistor (dissipa), capacitor e indutor (armazenam e devolvem). Nenhum deles cria energia — no balanço de um ciclo completo, a energia que sai deles nunca é maior que a que entrou.
Ativo é o que fornece: as fontes. E é aqui que a cadeira separa dois tipos que se comportam de maneira muito diferente na hora de resolver.
Fontes controladas: o que muda de verdade
Uma fonte independente vale um número. Uma fonte controlada (ou dependente) vale k vezes uma tensão ou uma corrente de outro ponto do circuito — e é isso que a torna trabalhosa: ela acopla partes do circuito que pareciam separadas.
São quatro, e o nome diz a fórmula:
FTCTFTCCFCCTFCCCv=μvx(tensa˜o controlada por tensa˜o, μ adimensional)v=rix(tensa˜o controlada por corrente, r em Ω)i=gvx(corrente controlada por tensa˜o, g em S)i=βix(corrente controlada por corrente, β adimensional)
03 Lei de Ohm e associação de resistores
A ideia. O resistor é o único elemento da cadeira em que tensão e corrente se relacionam por um número, sem derivada e sem integral. Por isso ele é o mais fácil — e por isso a “revisão de circuitos resistivos” é a primeira unidade: tudo o que vem depois (capacitor, indutor, transitório) é essa mesma análise com uma equação diferencial no lugar de R.
v=Rip=vi=Ri2=Rv2
Note que p≥0 sempre: resistor só absorve. As três formas da potência são a mesma conta — use a que já tem o dado que você conhece, sem passar pela terceira variável.
As duas associações
04 Divisor de tensão e divisor de corrente
A ideia. Os divisores não são fórmulas novas: são a Lei de Ohm aplicada a uma associação, escrita de um jeito que dispensa achar a corrente (ou a tensão) total primeiro. Bem usados, eles resolvem em uma linha o que a análise nodal resolve em um sistema — e é por isso que valem ser reconhecidos de olho.
Divisor de tensão — série
vk=vR1+R2+⋯+RnRk
A tensão se reparte proporcionalmente à resistência: o maior resistor fica com a maior fatia. Faz sentido — mesma corrente em todos, então vk=Rki.
Divisor de corrente — paralelo
ik=iG1+⋯+GnGk=iRkReq
A corrente se reparte inversamente à resistência: o menor resistor leva a maior fatia — é o caminho mais fácil. Para dois resistores, a forma que se usa na prática:
i1=iR1+R2R2i2=iR1+R2R1
05 As leis de Kirchhoff
A ideia. A Lei de Ohm descreve um elemento. As leis de Kirchhoff descrevem como os elementos conversam — e são elas, não Ohm, que sustentam todo o resto da cadeira: análise nodal, análise de malhas, Thévenin e as equações diferenciais dos transitórios saem todas daqui. São duas, e cada uma é uma lei de conservação disfarçada.
LKC — no nó, o que entra sai
k∑ik=0ou∑ientra=∑isai
Carga não se acumula num nó (um nó é um ponto, não tem capacitância). Vale para qualquer nó e também para qualquer superfície fechada que envolva parte do circuito — é essa generalização que autoriza o supernó.
LKT — no laço, a soma das quedas é zero
k∑vk=0
Percorra um laço fechado e volte ao ponto de partida: você tem de voltar ao mesmo potencial. Se não voltasse, daria para extrair energia dando voltas — e não dá.
No nó A: entra 5A, saem 3A e i1. Logo i1=5−3=2A — e se o resultado desse negativo, significaria apenas que a corrente vai no sentido oposto ao da seta.
06 Análise nodal (análise de nós)
A ideia. Kirchhoff dá as equações, mas não diz quais escrever. A análise nodal responde isso de um jeito mecânico: eleja um nó como referência, chame de incógnita o potencial de cada um dos outros, e escreva a LKC em cada um deles. As correntes dos ramos você nem nomeia — elas viram diferenças de potencial divididas por resistências. Sai um sistema (n−1)×(n−1), e é o método que a prova pede quando o circuito tem fontes de corrente.
O roteiro
Conte os nós e escolha a referência — sempre o de mais ramos, ou o terminal − da maior fonte de tensão. Uma escolha boa apaga uma incógnita de graça.
Nomeiev1,…,vn−1 nos demais.
LKC em cada nó, com todas as correntes saindo. A corrente que sai de a para b por um resistor R é
ia→b=Rva−vb
Sempre “o daqui menos o de lá, sobre a resistência”. Fonte de corrente entra como o próprio valor, com o sinal do sentido.
Resolva o sistema.
Fonte de tensão entre dois nós: o supernó
Uma fonte de tensão ideal não tem uma corrente própria que você possa escrever, então a LKC trava. Há dois casos:
Fonte ligada à referência. O potencial do outro nó já é conhecido: vk=±Vs. Uma incógnita a menos, nem se escreve a LKC ali.
Fonte flutuando entre dois nós a e b. Envolva os dois numa superfície fechada — o supernó — e escreva a LKC dessa superfície (as correntes de fora, ignorando a fonte). Isso dá uma equação; a segunda é a restrição imposta pela fonte:
va−vb=Vs
Duas incógnitas, duas equações. Nenhuma informação se perde.
A LKC do supernó ignora a fonte e conta só o que atravessa a moldura: 4v1+6v2+3v2=3. A segunda equação é a própria fonte: v1−v2=12.
07 Análise de malhas
A ideia. É a análise nodal de cabeça para baixo: em vez de potenciais nos nós, as incógnitas são correntes fictícias circulando em cada malha, e em vez da LKC você escreve a LKT. Vale só para circuitos planos (que se desenham sem cruzar fios), e é o método que a prova pede quando o circuito tem fontes de tensão — pela mesma razão que a nodal brilha com fontes de corrente.
O roteiro
Identifique as malhas e atribua a cada uma delas uma corrente, todas no mesmo sentido (adote horário e nunca mais pense nisso).
LKT em cada malha, percorrendo no sentido da própria corrente.
Num ramo compartilhado por duas malhas, a corrente real é a diferença: o resistor comum entre as malhas 1 e 2 cai R(i1−i2) quando escrito da malha 1.
Resolva e só então volte às correntes reais dos ramos.
Fonte de corrente num ramo: a supermalha
Uma fonte de corrente ideal não tem uma tensão própria que você possa escrever, então a LKT trava. Dois casos, espelhando o supernó:
Fonte só numa malha (num ramo de fronteira externa). A corrente daquela malha já está determinada: ik=±Is. Uma incógnita a menos.
Fonte compartilhada por duas malhas 1 e 2. Escreva a LKT do contorno externo das duas juntas — a supermalha —, pulando o ramo da fonte. Isso dá uma equação; a segunda é a restrição da fonte:
i1−i2=Is
A LKT da supermalha percorre o contorno externo e ignora o ramo do meio: −10+2i1+6i2+3i2=0. A segunda equação vem da fonte: i1−i2=2.
08 Princípio da superposição
A ideia. Circuito linear é circuito em que dobrar as fontes dobra todas as respostas. Disso segue algo mais forte e muito útil: a resposta a várias fontes é a soma das respostas a cada fonte agindo sozinha. Então um circuito com três fontes vira três circuitos com uma fonte cada — cada um mais simples, e cada um resolvido pelo método que for mais conveniente.
O enunciado
v=v(1)+v(2)+⋯+v(m)i=i(1)+i(2)+⋯+i(m)
onde v(k) é a resposta com a fonte kativa e todas as outras desativadas. Com m fontes independentes, m circuitos.
Duas fontes, dois subcircuitos. Note que v é a tensão sobre o resistor de 6Ω — é ela que a superposição vai montar em duas parcelas.
Os dois subcircuitos da figura
Só a fonte de tensão (a de corrente vira circuito aberto). Sobram 12V sobre 4Ω em série com 6Ω — divisor de tensão:
v(1)=12⋅4+66=7,2V
Só a fonte de corrente (a de tensão vira curto). Os 2A encontram 6Ω em paralelo com 4Ω:
v(2)=2⋅(6∥4)=2⋅2,4=4,8Vv=7,2+4,8=12V
09 Equivalentes de Thévenin e de Norton
A ideia. Escolha dois terminais quaisquer de um circuito linear. Do ponto de vista de quem se liga neles, tudo que está do outro lado — dez resistores, quatro fontes, o que for — é indistinguível de uma fonte de tensão em série com um resistor. Esse é Thévenin. E como fonte de tensão com resistor em série se converte em fonte de corrente com resistor em paralelo, existe a versão dual: Norton. É o teorema que permite resolver um circuito grande uma vez e depois trocar a carga à vontade.
Basta achar duas — a terceira sai da relação. Isso é o atalho mais útil do assunto: quando o circuito tem fonte controlada e RTh é difícil de ver, calcule VTh e IN e divida.
Os dois enxergam a mesma coisa em a–b, para qualquer carga. A conversão é direta: IN=VTh/RTh, com RN=RTh.
Como achar RTh — três casos, em ordem de preferência
Só fontes independentes. Desative todas (tensão vira fio, corrente vira buraco) e associe série/paralelo olhando de a–b para dentro. É conta de aritmética.
Há fontes controladas. Não se pode desativá-las. Aplique uma fonte de teste em a–b — injete 1A e meça vab, ou aplique 1V e meça i — com as fontes independentes desativadas:
RTh=itestevteste
O caminho preguiçoso e infalível. Calcule VTh (em aberto) e IN (em curto) com o circuito completo, e faça RTh=VTh/IN.
10 Máxima transferência de potência
A ideia. Um circuito com VTh e RTh fixos alimenta uma carga RL que você pode escolher. Carga pequena demais: a corrente é grande, mas quase toda a tensão cai dentro da fonte. Carga grande demais: a tensão na carga é quase VTh, mas quase não passa corrente. Existe um meio, e ele é exatamente no ponto em que a carga casa com a resistência interna.
Metade da tensão cai dentro, metade na carga — por isso o rendimento no ponto de máxima potência é de apenas 50%. Máxima potência e máximo rendimento são objetivos diferentes.
11 Amplificador operacional ideal
A ideia. O amp. op. é o primeiro elemento da cadeira que não é um bipolo: tem duas entradas, uma saída, e amplifica a diferença entre as entradas por um ganho enorme. Só que analisar circuito com amp. op. não exige nada disso — exige duas regras, e as duas saem de levar o ganho ao limite. Depois delas, é o mesmo Kirchhoff de sempre.
As duas regras do amp. op. ideal
v+=v−i+=i−=0
A primeira, o curto virtual: se vo=A(v+−v−) é finito e A→∞, então v+−v−→0. As entradas ficam no mesmo potencial sem estarem ligadas — daí “virtual”. Ela só vale com realimentação negativa; sem ela o amp. op. satura e a regra não se aplica.
A segunda: a impedância de entrada ideal é infinita, então nenhuma corrente entra pelos terminais de entrada. Toda a corrente que chega ao nó inversor tem de ir para a realimentação.
Os dois circuitos que caem em prova
Inversor. O nó inversor está em 0V (curto virtual com o terra) — é o terra virtual. A LKC ali: R1ve−0+R2vo−0=0, ou seja
vevo=−R1R2
Trocando a fonte de lugar — entrando pela não inversora e aterrando a ponta livre de R1 — obtém-se o não inversor, com v−=v+=ve e a mesma LKC:
vevo=1+R1R2
que nunca é menor que 1, e vale exatamente 1 quando R2=0 — o seguidor de tensão, cuja função é isolar, não amplificar.
12 Capacitores: tensão, corrente, energia e associação
A ideia. Até aqui todo elemento era resistivo: a corrente de agora dependia só da tensão de agora. O capacitor quebra isso. Ele guarda carga, e a corrente que passa por ele não depende do valor da tensão, mas da velocidade com que ela muda. É o primeiro elemento com memória da cadeira — e é de onde vêm as equações diferenciais de todo o resto.
As duas relações
iC=CdtdvCvC(t)=vC(t0)+C1∫t0tiC(τ)dτ
A primeira é a definição operacional; a segunda é ela integrada, e mostra onde mora a memória: para saber vC agora é preciso saber a história da corrente, mais a condição inicial vC(t0).
Do lado da física, para o capacitor de placas paralelas do Eletromagnetismo, C=εA/d — a capacitância é geometria, não escolha do circuito.
Energia
wC(t)=21CvC2(t)
Sempre ≥0: o capacitor armazena e devolve, nunca dissipa. Repare que a energia depende de vC, não de iC — é a tensão que é o “estado” do capacitor.
Associação
seˊrie:Ceq1=k∑Ck1paralelo:Ceq=k∑Ck
Ao contrário do resistor — e a razão é direta: em paralelo as áreas das placas se somam, então a capacitância soma; em série as separações se somam, então o inverso é que soma.
Vale a mesma leitura de sempre: em série a carga é a mesma nos dois e as tensões se dividem; em paralelo a tensão é a mesma e as cargas se somam.
13 Indutores: tensão, corrente, energia e associação
A ideia. O indutor é o dual exato do capacitor. Onde o capacitor guarda energia num campo elétrico e resiste a mudanças de tensão, o indutor guarda energia num campo magnético e resiste a mudanças de corrente. Troque v↔i e C↔L e você traduz uma fórmula na outra — inclusive as regras de associação, que voltam a ser as do resistor.
As duas relações
vL=LdtdiLiL(t)=iL(t0)+L1∫t0tvL(τ)dτ
A tensão no indutor não depende do valor da corrente, mas da velocidade com que ela muda. O sinal vem da lei de Faraday: a tensão induzida se opõe à variação do fluxo, e é por isso que o indutor “empurra de volta” quando você tenta mudar a corrente nele.
Energia
wL(t)=21LiL2(t)
De novo, sempre ≥0, e de novo, a energia depende do estado: para o indutor o estado é a corrente.
Associação — igual à do resistor
seˊrie:Leq=k∑Lkparalelo:Leq1=k∑Lk1
14 Chaveamento: o circuito em 0⁻ e em 0⁺
A ideia. Uma chave abre ou fecha em t=0 e o circuito muda de cara. O que não muda são vC e iL — e é só isso que atravessa o instante do chaveamento. Todo o resto (as outras tensões, as outras correntes, e todas as derivadas) tem de ser recalculado do zero no circuito novo. Este é o quesito 1 de praticamente toda segunda prova da cadeira, e ele é inteiramente mecânico.
O roteiro, em três circuitos
1. Desenhe o circuito de 0−. Chaves na posição anterior, e regime permanente CC:
capacitor → circuito aberto;
indutor → fio.
Resolva por Ohm/divisores e anote sóvC(0−) e iL(0−). É só isso que serve.
2. Aplique a continuidade. Sempre, e sem exceção em circuito de prova:
vC(0+)=vC(0−)iL(0+)=iL(0−)
3. Desenhe o circuito de 0+. Chaves na posição nova, e agora — este é o passo que se erra —
capacitor → fonte de tensão de valor vC(0+);
indutor → fonte de corrente de valor iL(0+).
Resolva esse circuito puramente resistivo. Ele entrega todas as outras grandezas em 0+: a corrente do capacitor, a tensão do indutor, a corrente em cada resistor.
Com a chave aberta em 0− não circula corrente nenhuma: iL(0−)=0 e vC(0−)=0. Fechando a chave, esses dois valores atravessam — e o circuito de 0+ tem o capacitor como fonte de 0V (um curto) e o indutor como fonte de 0A (um aberto).
As derivadas em 0+
Aqui a maioria erra, e o erro é sempre o mesmo: tentar derivar a resposta final. Não precisa. As derivadas saem das próprias relações do elemento, avaliadas no circuito de 0+:
dtdvC(0+)=CiC(0+)dtdiL(0+)=LvL(0+)
Ou seja: para achar dvC/dt em 0+, ache a corrente do capacitor no circuito de 0+ e divida por C. Para achar diL/dt, ache a tensão do indutor e divida por L. Duas divisões, e acabou.
15 Resposta natural: RC e RL sem excitação
A ideia. Tire todas as fontes e deixe só um resistor e um elemento armazenador carregado. O que sobra é um circuito que se descarrega sozinho — nenhuma fonte manda nele, e por isso a resposta se chama natural. Ela é sempre a mesma exponencial decrescente, e a única coisa que muda de um circuito para outro é a constante de tempo.
RC: a equação e a resposta
Com o capacitor descarregando em R, a LKC no nó de cima dá Cdtdv+Rv=0, ou
dtdv+RC1v=0⟹vC(t)=vC(0)e−t/τ,τ=ReqC
RL: a equação e a resposta
Com o indutor se descarregando em R, a LKT dá Ldtdi+Ri=0, ou
dtdi+LRi=0⟹iL(t)=iL(0)e−t/τ,τ=ReqL
Os dois circuitos são o mesmo problema. Em ambos, R é a resistência equivalente vista dos terminais do elemento — se houver uma rede de resistores, reduza-a a um Req antes de calcular τ.
16 Resposta ao degrau e a fórmula dos três valores
A ideia. Ligue uma fonte constante em t=0. A resposta agora tem duas partes: a natural, que é a exponencial da seção anterior morrendo, e a forçada, que é o que a fonte impõe depois que o transitório passa. A soma das duas é a resposta completa — e, para excitação constante, ela cabe numa fórmula de três parâmetros que resolve qualquer circuito de 1ª ordem sem escrever equação diferencial nenhuma.
Resposta natural + resposta forçada
A equação de qualquer circuito de 1ª ordem com excitação constante Xs tem a forma
dtdx+τ1x=τXs
A solução geral é a homogênea mais uma particular constante:
e A sai de impor x(0+). Fazendo isso, chega-se à forma que se usa na prática:
x(t)=x(∞)+[x(0+)−x(∞)]e−t/τ,t>0
Três valores e acabou: onde começa, onde termina, e quão rápido vai de um ao outro.
Os três valores, um a um
x(0+) — pelo roteiro da seção 14: circuito de 0−, continuidade, circuito de 0+.
x(∞) — o circuito depois do chaveamento, em regime permanente CC: capacitor aberto, indutor em curto. É um circuito resistivo.
τ — ReqC ou L/Req, com Req visto pelo elemento no circuito depois do chaveamento, fontes independentes desativadas.
vC(0+)=0 (descarregado), vC(∞)=10V (capacitor aberto, sem corrente, sem queda no resistor) e τ=(2k)(1m)=2s. Logo vC(t)=10−10e−t/2V.
17 O roteiro completo de um circuito de 1ª ordem
A ideia. As três seções anteriores dão as peças. Esta junta tudo num procedimento único, na ordem em que ele se escreve na prova. Não há nada novo aqui — há ordem, que é o que separa a questão que fecha da que se perde no meio.
Os seis passos
1. Identifique a ordem. Conte os elementos armazenadores depois de associar todos os que puderem ser associados. Um só ⇒ 1ª ordem, e este roteiro se aplica.
2. Circuito em t=0−. Chaves na posição antiga, regime permanente: capacitor aberto, indutor em curto. Extraia apenasvC(0−) ou iL(0−).
3. Continuidade.vC(0+)=vC(0−); iL(0+)=iL(0−).
4. Circuito em t→∞. Chaves na posição nova, regime permanente de novo: capacitor aberto, indutor em curto. Daí sai x(∞).
5. Constante de tempo. No circuito novo, desative as fontes independentes, remova o elemento armazenador e olhe seus terminais: isso é Req. Então τ=ReqC ou τ=L/Req.
6. Monte a resposta e só então derive o que mais o enunciado pedir:
x(t)=x(∞)+[x(0+)−x(∞)]e−(t−t0)/τ
A chave abre em t=0. Antes dela, a fonte alimenta o 10Ω em paralelo com o ramo 5Ω + indutor; depois, a fonte é desligada e o indutor se descarrega em 5+10=15Ω.
18 Vários chaveamentos, o degrau e a fonte genérica
A ideia. Nem toda questão tem uma chave só. Quando há dois chaveamentos, ou quando a fonte é uma sequência de degraus, a resposta se monta por intervalos: cada trecho é um problema de 1ª ordem completo, e o valor final de um vira o valor inicial do seguinte. Nada de novo — o roteiro da seção anterior aplicado duas ou três vezes, com o cuidado de que τ pode mudar de trecho para trecho.
O degrau unitário, e por que ele aparece
u(t)={0,1,t<0t>0u(t−a)={0,1,t<at>a
Uma fonte escrita como vs(t)=10u(t)V é a mesma coisa que “fonte de 10V com uma chave que fecha em t=0” — o enunciado só trocou o desenho por uma expressão. E vs(t)=10[u(t)−u(t−3)] é a fonte que liga em t=0 e desliga em t=3s.
O procedimento por intervalos
Marque os instantes em que algo muda: t1,t2,… Eles cortam o eixo em intervalos.
Em cada intervalo o circuito é fixo. Resolva-o como 1ª ordem, com τ próprio.
Costure: o vC (ou iL) no fim de um intervalo é a condição inicial do próximo.
Escreva a resposta por trechos, cada um com o seu e−(t−tk)/τk.
Enquanto a chave está fechada, o capacitor vê 1kΩ∥3kΩ=750Ω; depois de aberta, vê só os 3kΩ. Dois circuitos, dois τ.
19 A equação de 2ª ordem e as frequências naturais
A ideia. Com dois elementos armazenadores que não podem ser associados, a equação do circuito passa a ter segunda derivada. A resposta deixa de ser uma exponencial só: aparecem duas frequências naturais, e o comportamento — decair manso, decair no limite ou oscilar — depende de as duas serem reais ou complexas. Toda a segunda metade da cadeira é essa decisão.
Montando a equação
O caminho é sempre o mesmo: escreva LKC ou LKT, substitua as relações dos elementos, e elimine as variáveis até sobrar uma. Para o RLC série, com i como incógnita, a LKT dá
Ldtdi+Ri+C1∫idt=0d/dtdt2d2i+LRdtdi+LC1i=0
Toda equação de 2ª ordem homogênea se escreve na forma padrão:
dt2d2x+2αdtdx+ω02x=0
As frequências naturais
Substituindo x=est chega-se à equação característica e às suas raízes:
s2+2αs+ω02=0⟹s1,2=−α±α2−ω02
O sinal do radicando decide tudo, e é o assunto da próxima seção.
São os dois arranjos com fórmula fechada. Fora deles — dois indutores em posições que não se associam, ou dois capacitores separados por um resistor — monte a equação: é o que o professor chama de circuito RLL e RCC.
20 Os três amortecimentos
A ideia. A comparação entre α e ω0 decide a forma da resposta natural, e há exatamente três desfechos. Não é uma escala contínua de “mais ou menos oscilante”: são três formas de solução diferentes, com expressões diferentes, e escolher a errada estraga a questão inteira mesmo com α e ω0 corretos.
Caso 1 — superamortecido: α>ω0
Duas raízes reais e distintas, ambas negativas:
s1,2=−α±α2−ω02⟹x(t)=A1es1t+A2es2t
Duas exponenciais somadas: nenhuma oscilação, e a mais lenta (s de menor módulo) domina o fim do transitório.
Caso 2 — criticamente amortecido: α=ω0
Raiz real dupla, s1=s2=−α. A solução não é uma exponencial só (duas constantes precisam de duas funções independentes):
x(t)=(A1+A2t)e−αt
É o caso mais rápido sem oscilar — a fronteira exata.
Caso 3 — subamortecido: α<ω0
Raízes complexas conjugadas, s1,2=−α±jωd:
x(t)=e−αt(B1cosωdt+B2sinωdt)
Oscilação de frequência ωd dentro de um envelope e−αt. Repare que ωd<ω0sempre: o amortecimento não só apaga a oscilação, ele a atrasa.
As três respostas ao degrau, com o mesmo ω0 e o mesmo valor final. A subamortecida chega antes, mas passa do ponto; a superamortecida nunca ultrapassa, e é a mais lenta.
21 Condições iniciais de 2ª ordem e a derivada
A ideia. Uma solução de 2ª ordem tem duas constantes, então precisa de duas condições: o valor inicial e a derivada inicial. O valor sai da continuidade, como sempre. A derivada é a parte que decide a nota, e ela não se obtém derivando a resposta — obtém-se lendo o circuito de 0+ com as relações do capacitor e do indutor. Esta seção é o quesito 1 da segunda prova levado até o fim.
À esquerda, a continuidade. À direita, a relação do próprio elemento, avaliada no circuito de 0+ — o mesmo circuito resistivo da seção 14, com o capacitor virando fonte de tensão vC(0+) e o indutor virando fonte de corrente iL(0+).
O roteiro
Circuito de 0− em regime: capacitor aberto, indutor em curto. Anote vC(0−) e iL(0−) — os dois, porque agora há dois elementos.
Continuidade nos dois.
Circuito de 0+: capacitor → fonte de tensão vC(0+); indutor → fonte de corrente iL(0+). Resolva esse circuito resistivo e tire iC(0+) e vL(0+).
Divida: dvC/dt=iC/C e diL/dt=vL/L, em 0+.
Aplique as duas condições na resposta completa — natural mais forçada, nunca só na natural.
RLC série: α=R/2L=1,5 e ω0=1/LC=24=4,9. Subamortecido, com ωd=24−2,25=4,66rad/s.
22 Resposta completa de 2ª ordem ao degrau
A ideia. Com excitação constante, a resposta de 2ª ordem é a natural — uma das três formas — mais a forçada, que é o valor de regime permanente. Duas constantes a determinar, duas condições iniciais para determiná-las. É o quesito 3 de quase toda segunda prova da cadeira, e o único cuidado novo é que as condições entram na soma, nunca numa parcela isolada.
Imponha as duas condições na expressão completa. Para o caso subamortecido, que é o mais pedido:
x(0+)=x(∞)+B1⟹B1=x(0+)−x(∞)
Derivando x(t) e avaliando em t=0:
dtdx(0+)=−αB1+ωdB2⟹B2=ωd1[dtdx(0+)+αB1]
E para o superamortecido, o sistema 2×2:
⎩⎨⎧A1+A2=x(0+)−x(∞)s1A1+s2A2=dtdx(0+)
23 Integrador e diferenciador
A ideia. Troque um dos dois resistores do amplificador inversor por um capacitor e o circuito para de multiplicar: passa a integrar ou a derivar o sinal de entrada. É a mesma LKC do terra virtual da seção 11, só que agora um dos termos tem Cdv/dt no lugar de v/R — e a equação do circuito vira uma equação diferencial de propósito, não por acidente.
Integrador — capacitor na realimentação
Com R na entrada e C realimentando, a LKC no terra virtual (que não recebe corrente do amp. op.) diz que a corrente que entra por R é a que atravessa C:
Rve=−Cdtdvo⟹vo(t)=−RC1∫0tve(τ)dτ+vo(0)
Entrada constante ⇒ saída em rampa de inclinação −ve/RC. É o circuito que gera dente de serra a partir de nível CC, e o que satura se você o deixar integrando um erro para sempre.
Diferenciador — capacitor na entrada
Trocando os dois de lugar:
Cdtdve=−Rvo⟹vo(t)=−RCdtdve
Entrada em rampa ⇒ saída constante. Entrada em degrau ⇒ saída em pico — e é justamente por isso que o diferenciador puro é raro na prática: ele amplifica ruído, que é o que mais tem derivada grande.
24 Circuitos ativos de 1ª e 2ª ordem
A ideia. Junte o amp. op. da unidade 1 com os transitórios das unidades 3 e 4 e você tem o último assunto da cadeira. Não há teoria nova: o amp. op. entra nas equações pelas duas regras de sempre, e o que sai é a mesma equação diferencial de 1ª ou 2ª ordem, resolvida pelo mesmo roteiro. A diferença é que agora as constantes α e ω0 podem ser escolhidas pelo projetista, e o amortecimento pode até ser negativo.
1ª ordem ativa: o integrador com resistor de realimentação
Um resistor R2 em paralelo com o capacitor da realimentação transforma o integrador num circuito de 1ª ordem de verdade. A LKC no terra virtual, com o nó em 0V:
R1ve+R2vo+Cdtdvo=0
Dividindo por C:
dtdvo+R2C1vo=−R1Cve
É a equação padrão de 1ª ordem, com
τ=R2Cvo(∞)=−R1R2ve
— a constante de tempo é dada pela realimentação, e o ganho CC é o do inversor. Daí em diante, a fórmula dos três valores da seção 16, sem alteração nenhuma.
Com R2→∞ (só o capacitor) volta o integrador puro: τ→∞ e não existe regime permanente. Com C→0 volta o inversor: τ→0 e a saída acompanha a entrada na hora.
2ª ordem ativa
Com dois capacitores — um na entrada e um na realimentação, ou dois estágios em cascata — a equação sobe para 2ª ordem, e vale tudo o que está nas seções 19 a 22: monte a equação, ache α e ω0, decida o caso, imponha as duas condições iniciais na resposta completa.