EDOs de 1ª ordem (lineares, separáveis, exatas, Bernoulli), 2ª ordem e ordem superior, aplicações (oscilador, RLC), sistemas lineares por autovalores, séries de potências, Cauchy-Euler e Frobenius.
01 Classificação e conceitos básicos
A ideia
Numa equação comum (x2=4), a incógnita é um número. Numa equação diferencial ordinária (EDO), a incógnita é uma função inteiray(x) — e a equação relaciona essa função com suas derivadas. Por que isso importa? Porque a natureza fala em taxas de variação: “a população cresce proporcional a ela mesma”, “o corpo esfria proporcional à diferença de temperatura”. Cada frase dessas é uma EDO, e resolvê-la é descobrir a função por trás.
Exemplo de tradução: “a taxa de crescimento de y é o dobro de y” vira y′=2y. Resolver significa achar qual função tem essa propriedade (spoiler: y=Ce2x).
As três classificações que caem em prova
Ordem — a ordem da maior derivada que aparece. y′+xy=0 é de 1ª ordem; y′′−3y′+2y=e3x é de 2ª ordem; y′′′+y′=secx é de 3ª ordem.
Linearidade — a EDO é linear quando pode ser escrita como
Forma geral linear de ordem nan(x)y(n)+an−1(x)y(n−1)+⋯+a1(x)y′+a0(x)y=g(x)
Ou seja: y e suas derivadas aparecem só na 1ª potência, sem produtos entre si e sem estarem dentro de funções (nada de y2, yy′, sen(y), ey…).
Solução — uma função φ(x) é solução num intervalo se, substituída na equação, a transforma numa identidade. A solução geral de uma EDO de ordem n carrega n constantes arbitrárias; um PVI (problema de valor inicial) fixa essas constantes impondo y(x0)=y0, y′(x0)=y1, etc.
Existência e unicidade (Picard) — para y′=f(x,y), y(x0)=y0: se f e ∂f/∂y são contínuas num retângulo contendo (x0,y0), existe uma única solução do PVI num intervalo em torno de x0. Para a linear y′+P(x)y=Q(x), basta P e Q contínuas no intervalo — e a solução vale no intervalo inteiro.
02 Equações separáveis
A ideia
É o tipo mais simples de resolver: se der para arrastar tudo que tem y para um lado e tudo que tem x para o outro, basta integrar os dois lados. Pense no dy/dx como uma fração que você pode “desmontar”:
Forma separáveldxdy=g(x)h(y)⟹∫h(y)dy=∫g(x)dx+C
Receita: (1) escreva y′=dy/dx; (2) separe as variáveis; (3) integre os dois lados; (4) se houver condição inicial, ache C; (5) se possível, isole y (solução explícita) — senão, deixe implícita.
Atenção às soluções constantes: se h(y0)=0, então y≡y0 é solução (de equilíbrio) e pode se perder na divisão por h(y). Sempre cheque.
03 Lineares de 1ª ordem — fator integrante
A ideia
Quando não dá para separar (o x e o y estão “misturados” numa soma), mas a equação é linear, existe um truque infalível: multiplicar a equação toda por uma função esperta μ(x) — o fator integrante — escolhida para que o lado esquerdo vire, de presente, a derivada de um produto (μy)′. Aí é só integrar.
Primeiro, coloque na forma padrão (coeficiente de y′ igual a 1):
Receita: (1) coloque na forma padrão — divida pelo coeficiente de y′; (2) calcule μ=e∫Pdx; (3) escreva (μy)′=μQ; (4) integre; (5) isole y e aplique a condição inicial.
Exemplo clássico de prova:(x+1)y′+2y=12(x+1)4. Forma padrão: y′+x+12y=12(x+1)3. Então μ=e2ln∣x+1∣=(x+1)2 e [(x+1)2y]′=12(x+1)5, logo (x+1)2y=2(x+1)6+C.
04 Equações exatas
A ideia
Algumas equações vêm escritas na forma diferencial Mdx+Ndy=0. A pergunta-chave: será que M e N são as derivadas parciais de uma mesma “função mãe” F(x,y)? Se sim (equação exata), as soluções são simplesmente as curvas de nível dessa função: F(x,y)=C — como as curvas de altitude de um mapa topográfico.
Critério de exatidãoM(x,y)dx+N(x,y)dy=0eˊ exata⟺∂y∂M=∂x∂N
Receita para achar F: (1) verifique My=Nx; (2) integre F=∫Mdx+g(y) (a “constante” depende de y!); (3) derive em relação a y e compare com N para achar g′(y); (4) integre g e escreva F(x,y)=C.
Fator integrante para tornar exata: se My=Nx, procure μ que dependa só de x ou só de y:
A Bernoulli é uma equação não linear por um único motivo: um yn intrometido no lado direito. A jogada é uma troca de variávelu=y1−n que elimina essa potência e devolve uma linear de 1ª ordem — que você já sabe resolver por fator integrante.
Bernoulli e substituiçãoy′+P(x)y=Q(x)yn(n=0,1)⟹u=y1−n,u′+(1−n)Pu=(1−n)Q
Receita: (1) identifique n; (2) divida tudo por yn; (3) troque u=y1−n (note u′=(1−n)y−ny′); (4) resolva a linear em u por fator integrante; (5) volte para y.
06 Aplicações de 1ª ordem
A ideia
Aqui a prova testa se você sabe traduzir o enunciado em EDO e depois usar os dados numéricos para achar as constantes. São três modelos que se repetem há anos:
Crescimento/decaimento exponencial
“A taxa de variação é proporcional à quantidade presente”:
Modelo exponencialdtdQ=kQ⟹Q(t)=Q0ekt
Com dois dados (ex.: “triplica em 1 hora”), você acha k=ln3 e responde qualquer outra pergunta. Para achar o valor inicial dado um valor futuro, é só isolar Q0=Q(t1)e−kt1.
Lei do arrefecimento de Newton
A temperatura de um corpo se aproxima da temperatura do ambiente, e quanto maior a diferença, mais rápido:
Arrefecimento de NewtondtdT=k(T−Tm)⟹T(t)=Tm+(T0−Tm)ekt
Modelo exponencial: o sinal de k decide o destino.
Newton: o corpo quente desce assintoticamente até Tm, sem nunca cruzar.
Misturas (salmoura)
Tanque com volume V(t), entrada e saída de solução: o sal que entra menos o sal que sai:
Modelo de misturasdtdA=cere−V(t)Ars
07 2ª ordem homogênea — equação característica
A ideia
Para ay′′+by′+cy=0 com coeficientes constantes, procuramos uma função que, derivada, continue “com a mesma cara” — e a única assim é a exponencial. O chute y=eλx transforma a EDO num problema de 2º grau: substituindo, eλx(aλ2+bλ+c)=0, e como a exponencial nunca zera, sobra:
Equação característicaaλ2+bλ+c=0
São três casos, conforme o discriminante:
Caso 1 — raízes reais distintas (Δ> 0)y=C1eλ1x+C2eλ2x
Caso 2 — raiz real dupla (Δ=0)y=(C1+C2x)eλx
Caso 3 — raízes complexas λ = α ± β i (Δ< 0)y=eαx(C1cosβx+C2senβx)
A solução geral é combinação linear de duas soluções linearmente independentesy1,y2 (um conjunto fundamental). O mesmo raciocínio vale para ordem n: cada raiz real simples dá um eλx; raiz de multiplicidade m dá eλx,xeλx,…,xm−1eλx; cada par complexo dá o bloco seno/cosseno.
08 Wronskiano, fórmula de Abel e redução de ordem
A ideia
A solução geral de uma EDO de 2ª ordem precisa de duas soluções realmente diferentes (não múltiplas uma da outra). O Wronskiano é o detector disso — um determinante que zera quando as soluções são “a mesma coisa disfarçada”:
Para soluções de y′′+p(x)y′+q(x)y=0, o Wronskiano ou é sempre zero, ou nunca zero — consequência da fórmula de Abel:
Fórmula de AbelW(x)=Ce−∫p(x)dx
Ela permite calcular Wsem conhecer as soluções: basta ler o coeficiente p(x) da forma padrão.
Redução de ordem. Conhecida uma solução y1 da homogênea, a segunda vem de y2=v(x)y1:
Redução de ordemy2=y1∫y12e−∫pdxdx
Receita: coloque a equação na forma padrão (coeficiente de y′′ igual a 1!), identifique p, aplique a fórmula.
09 Não homogêneas — coeficientes indeterminados
A ideia
Quando aparece um termo “de fora” g(x) (uma força externa, uma fonte), a solução geral se monta em duas peças:
Estrutura da soluçãoy=yh+yp
O método dos coeficientes indeterminados encontra yp quando g é combinação de polinômios, exponenciais, senos e cossenos: chute yp “com a mesma cara” de g, com coeficientes desconhecidos, e ajuste-os substituindo na equação:
Tabela de chutesg=Pn(x)⇒yp=Anxn+⋯+A0g=eαx⇒yp=Aeαxg=cosβx ou senβx⇒yp=Acosβx+Bsenβx
Produtos combinam os chutes: g=e3x(1+x)⇒yp=e3x(Ax+B). Regra da ressonância: se algum termo do chute já aparece em yh, multiplique o chute por x (por x2 se ainda coincidir).
Receita: (1) resolva a homogênea; (2) monte o chute pela tabela; (3) confira ressonância com yh; (4) derive, substitua e iguale coeficientes; (5) some y=yh+yp.
10 Variação de parâmetros
A ideia
E se g(x) não estiver na tabela de chutes (secx, lnx, 1/x…)? A variação de parâmetros é o método universal: pegue a homogênea yh=C1y1+C2y2 e deixe as “constantes” virarem funções, yp=u1(x)y1+u2(x)y2. As fórmulas para u1 e u2 saem prontas:
Variação de parâmetros (forma padrão y″ + p y′ + q y = f)yp=u1y1+u2y2,u1′=W−y2f,u2′=Wy1f
Receita: (1) forma padrão (dividir pelo coeficiente de y′′ — o f muda!); (2) ache y1,y2 e W; (3) integre u1 e u2; (4) monte yp e some com yh.
11 Aplicações: oscilador amortecido e circuito RLC
A ideia
É a 2ª ordem “na vida real”. Um bloco preso numa mola, com atrito, empurrado por uma força externa — a 2ª Lei de Newton vira exatamente uma EDO linear de 2ª ordem com coeficientes constantes:
Oscilador amortecidomx′′+bx′+kx=F(t)⟹mλ2+bλ+k=0
Δ<0: oscila com amplitude decaindo; Δ=0: volta o mais rápido possível sem oscilar; Δ>0: volta devagar, sem oscilar.
Os três regimes: subamortecido (Δ<0): x=eαt(C1cosβt+C2senβt); criticamente amortecido (Δ=0): x=(C1+C2t)eλt; superamortecido (Δ>0): duas exponenciais decrescentes.
Circuito RLC em série — mesma matemática, outra roupa:
Circuito RLC (carga Q)LQ′′+RQ′+C1Q=E(t)
Com fonte senoidal E(t), a solução particular (coeficientes indeterminados com Acosωt+Bsenωt) é o regime permanente; a homogênea, que morre exponencialmente, é o transiente.
12 Ordem superior e equação de Cauchy-Euler
A ideia
Ordem superior com coeficientes constantes: tudo igual à 2ª ordem, com equação característica de grau n. Ex.: y′′′−3y′′+2y′=0⇒λ(λ−1)(λ−2)=0⇒y=C1+C2ex+C3e2x.
Equação de Cauchy-Euler — o padrão a reconhecer: cada derivada y(k) vem multiplicada por xk. Para ela, o chute certo não é exponencial, e sim potênciay=xm:
Cauchy-Euler e equação auxiliarax2y′′+bxy′+cy=0y=xmam(m−1)+bm+c=0
13 Sistemas de EDOs lineares — método dos autovalores
A ideia
Às vezes duas grandezas evoluem acopladas: a variação de x depende de y e vice-versa (dois tanques conectados, presa e predador, duas malhas de circuito). Isso é um sistema de EDOs, e a linguagem natural para ele é matricial:
Sistema linear homogêneoX′=AX,X(t)=(x(t)y(t))
Mesma filosofia da 2ª ordem: chutamos X=Keλt (um vetor fixo vezes exponencial) e caímos no problema de autovalores da Álgebra Linear:
Autovalores e autovetoresdet(A−λI)=0(acha os λ),(A−λI)K=0(acha os K)
Caso 1 — autovalores reais e distintos: cada par (λi,Ki) dá uma solução, e a geral é
Receita: (1) monte det(A−λI)=0 e resolva o polinômio característico; (2) para cada λ, resolva (A−λI)K=0 escolhendo uma componente livre (ex.: k2=1); (3) monte a combinação. Para 3×3 o processo é idêntico, com três autopares. Num PVI, imponha X(0)=X0 e resolva o sistema linear nos Ci.
Retrato de fase — o desenho do sistema
O retrato de fase mostra as trajetórias (x(t),y(t)) no plano. O tipo da origem depende só dos autovalores:
Nó estável (atrator): tudo cai na origem.
Sela (instável): entra por um eixo, escapa pelo outro.
Espiral: complexos com parte real ≠ 0.
Centro: órbitas periódicas fechadas.
O traço e o determinante de A resumem tudo: órbitas periódicas exigem trA=0 com detA>0.
14 Sistemas: autovalores complexos, repetidos e sistemas não homogêneos
A ideia
Nem sempre os autovalores são reais e distintos — os outros dois casos têm receitas próprias, análogas aos casos 2 e 3 da equação característica de 2ª ordem.
Caso 2 — autovalores complexos λ=α±βi: ache o autovetor complexo K=B1+iB2 para λ=α+βi e separe parte real e imaginária de Keλt:
Solução real (autovalores complexos)X=C1eαt(B1cosβt−B2senβt)+C2eαt(B2cosβt+B1senβt)
Caso 3 — autovalor real duplo com um só autovetor K: a segunda solução usa o autovetor generalizadoP:
Sistemas não homogêneosX′=AX+F(t): a geral é X=Xh+Xp. Duas ferramentas:
Coeficientes indeterminados:F polinomial ⇒ chute vetorial polinomial. Ex.: F=(t1)⇒Xp=at+b; substitua e iguale componente a componente.
Matriz fundamental / variação de parâmetros: se Φ(t) tem por colunas um conjunto fundamental,
Variação de parâmetros (sistemas)Xp=Φ(t)∫Φ−1(t)F(t)dt,X=Φ(t)C+Xp
15 Séries de potências — pontos ordinários
A ideia
Quando os coeficientes variam com x e não há truque (Cauchy-Euler etc.), apelamos para a artilharia pesada: escrever a solução como um polinômio infinito e descobrir seus coeficientes um a um. A equação, ao ser alimentada com a série, “cospe” uma regra (a relação de recorrência) que gera todos os coeficientes a partir dos dois primeiros.
Solução em sériey=n=0∑∞cn(x−x0)n,y′=n=1∑∞ncn(x−x0)n−1,y′′=n=2∑∞n(n−1)cn(x−x0)n−2
Para y′′+P(x)y′+Q(x)y=0, x0 é ponto ordinário se P e Q são analíticas em x0 (para coeficientes polinomiais: o coeficiente de y′′ não zera em x0). Nesse caso existem duas soluções em série, com raio de convergência pelo menos até o ponto singular mais próximo.
Receita: (1) substitua as séries na equação; (2) reindexe para deixar todas as somas com o mesmo expoente xk; (3) iguale cada coeficiente a zero — surge a relação de recorrência; (4) gere os cn a partir de c0 e c1; (5) escreva os primeiros termos das duas soluções.
16 Pontos singulares e método de Frobenius
A ideia
Se x0 anula o coeficiente de y′′, a série comum pode falhar — o ponto é singular. Mas se a singularidade for “mansa” (singular regular), o método de Frobenius salva: a solução é uma série multiplicada por uma potência xr possivelmente fracionária ou negativa, e o primeiro passo é descobrir os expoentes r permitidos.
Teste de singular regularp(x)=(x−x0)P(x)eq(x)=(x−x0)2Q(x)analıˊticas em x0⇒singular regular
Série de Frobenius e equação indicialy=n=0∑∞cn(x−x0)n+r,r(r−1)+p0r+q0=0
Se r1−r2 não é inteiro, há duas soluções de Frobenius independentes (uma para cada r); se difere por inteiro ou é raiz dupla, a segunda solução pode envolver lnx. Na prática da prova: substitua a série na equação e olhe o coeficiente da MENOR potência de x — ele fatora como c0⋅(equac¸a˜o indicial).
Equações clássicas: a equação de Besselx2y′′+xy′+(x2−ν2)y=0 tem x0=0 singular regular com indicial r2=ν2; a de Legendre(1−x2)y′′−2xy′+α(α+1)y=0 tem x0=0 ordinário (soluções polinomiais para α inteiro — os polinômios de Legendre).