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Nabla
MAT06 · 60h

Equações Diferenciais (Cálculo 4)

EDOs de 1ª ordem (lineares, separáveis, exatas, Bernoulli), 2ª ordem e ordem superior, aplicações (oscilador, RLC), sistemas lineares por autovalores, séries de potências, Cauchy-Euler e Frobenius.

01 Classificação e conceitos básicos

A ideia

Numa equação comum (x2=4x^2 = 4), a incógnita é um número. Numa equação diferencial ordinária (EDO), a incógnita é uma função inteira y(x)y(x) — e a equação relaciona essa função com suas derivadas. Por que isso importa? Porque a natureza fala em taxas de variação: “a população cresce proporcional a ela mesma”, “o corpo esfria proporcional à diferença de temperatura”. Cada frase dessas é uma EDO, e resolvê-la é descobrir a função por trás.

Exemplo de tradução: “a taxa de crescimento de yy é o dobro de yy” vira y=2yy' = 2y. Resolver significa achar qual função tem essa propriedade (spoiler: y=Ce2xy = Ce^{2x}).

As três classificações que caem em prova

Ordem — a ordem da maior derivada que aparece. y+xy=0y' + xy = 0 é de 1ª ordem; y3y+2y=e3xy'' - 3y' + 2y = e^{3x} é de 2ª ordem; y+y=secxy''' + y' = \sec x é de 3ª ordem.

Linearidade — a EDO é linear quando pode ser escrita como

Forma geral linear de ordem nan(x)y(n)+an1(x)y(n1)++a1(x)y+a0(x)y=g(x)a_n(x)\,y^{(n)} + a_{n-1}(x)\,y^{(n-1)} + \cdots + a_1(x)\,y' + a_0(x)\,y = g(x)

Ou seja: yy e suas derivadas aparecem só na 1ª potência, sem produtos entre si e sem estarem dentro de funções (nada de y2y^2, yyyy', sen(y)\operatorname{sen}(y), eye^y…).

Solução — uma função φ(x)\varphi(x) é solução num intervalo se, substituída na equação, a transforma numa identidade. A solução geral de uma EDO de ordem nn carrega nn constantes arbitrárias; um PVI (problema de valor inicial) fixa essas constantes impondo y(x0)=y0y(x_0)=y_0, y(x0)=y1y'(x_0)=y_1, etc.

Existência e unicidade (Picard) — para y=f(x,y)y' = f(x,y), y(x0)=y0y(x_0)=y_0: se ff e f/y\partial f/\partial y são contínuas num retângulo contendo (x0,y0)(x_0,y_0), existe uma única solução do PVI num intervalo em torno de x0x_0. Para a linear y+P(x)y=Q(x)y' + P(x)y = Q(x), basta PP e QQ contínuas no intervalo — e a solução vale no intervalo inteiro.

02 Equações separáveis

A ideia

É o tipo mais simples de resolver: se der para arrastar tudo que tem yy para um lado e tudo que tem xx para o outro, basta integrar os dois lados. Pense no dy/dxdy/dx como uma fração que você pode “desmontar”:

Forma separáveldydx=g(x)h(y)dyh(y)=g(x)dx+C\frac{dy}{dx} = g(x)\,h(y) \quad\Longrightarrow\quad \int \frac{dy}{h(y)} = \int g(x)\,dx + C

Receita: (1) escreva y=dy/dxy' = dy/dx; (2) separe as variáveis; (3) integre os dois lados; (4) se houver condição inicial, ache CC; (5) se possível, isole yy (solução explícita) — senão, deixe implícita.

Atenção às soluções constantes: se h(y0)=0h(y_0)=0, então yy0y \equiv y_0 é solução (de equilíbrio) e pode se perder na divisão por h(y)h(y). Sempre cheque.

03 Lineares de 1ª ordem — fator integrante

A ideia

Quando não dá para separar (o xx e o yy estão “misturados” numa soma), mas a equação é linear, existe um truque infalível: multiplicar a equação toda por uma função esperta μ(x)\mu(x) — o fator integrante — escolhida para que o lado esquerdo vire, de presente, a derivada de um produto (μy)(\mu y)'. Aí é só integrar.

Primeiro, coloque na forma padrão (coeficiente de yy' igual a 1):

Forma padrãoy+P(x)y=Q(x)y' + P(x)\,y = Q(x)
Fator integranteμ(x)=eP(x)dx(μy)=μQy=1μ[μQdx+C]\mu(x) = e^{\int P(x)\,dx} \qquad\Longrightarrow\qquad \big(\mu\,y\big)' = \mu\,Q \qquad\Longrightarrow\qquad y = \frac{1}{\mu}\left[\int \mu\,Q\,dx + C\right]

Receita: (1) coloque na forma padrão — divida pelo coeficiente de yy'; (2) calcule μ=ePdx\mu = e^{\int P dx}; (3) escreva (μy)=μQ(\mu y)' = \mu Q; (4) integre; (5) isole yy e aplique a condição inicial.

Exemplo clássico de prova: (x+1)y+2y=12(x+1)4(x+1)y' + 2y = 12(x+1)^4. Forma padrão: y+2x+1y=12(x+1)3y' + \tfrac{2}{x+1}y = 12(x+1)^3. Então μ=e2lnx+1=(x+1)2\mu = e^{2\ln|x+1|} = (x+1)^2 e [(x+1)2y]=12(x+1)5\big[(x+1)^2 y\big]' = 12(x+1)^5, logo (x+1)2y=2(x+1)6+C(x+1)^2 y = 2(x+1)^6 + C.

04 Equações exatas

A ideia

Algumas equações vêm escritas na forma diferencial Mdx+Ndy=0M\,dx + N\,dy = 0. A pergunta-chave: será que MM e NN são as derivadas parciais de uma mesma “função mãe” F(x,y)F(x,y)? Se sim (equação exata), as soluções são simplesmente as curvas de nível dessa função: F(x,y)=CF(x,y) = C — como as curvas de altitude de um mapa topográfico.

Critério de exatidãoM(x,y)dx+N(x,y)dy=0   eˊ exataMy=NxM(x,y)\,dx + N(x,y)\,dy = 0 \;\text{ é exata} \quad\Longleftrightarrow\quad \frac{\partial M}{\partial y} = \frac{\partial N}{\partial x}

Receita para achar FF: (1) verifique My=NxM_y = N_x; (2) integre F=Mdx+g(y)F = \int M\,dx + g(y) (a “constante” depende de yy!); (3) derive em relação a yy e compare com NN para achar g(y)g'(y); (4) integre gg e escreva F(x,y)=CF(x,y) = C.

Fator integrante para tornar exata: se MyNxM_y \ne N_x, procure μ\mu que dependa só de xx ou só de yy:

Fatores integrantes especiaisMyNxN=f(x)μ=efdxNxMyM=g(y)μ=egdy\frac{M_y - N_x}{N} = f(x) \Rightarrow \mu = e^{\int f\,dx} \qquad\qquad \frac{N_x - M_y}{M} = g(y) \Rightarrow \mu = e^{\int g\,dy}

05 Equação de Bernoulli

A ideia

A Bernoulli é uma equação não linear por um único motivo: um yny^n intrometido no lado direito. A jogada é uma troca de variável u=y1nu = y^{1-n} que elimina essa potência e devolve uma linear de 1ª ordem — que você já sabe resolver por fator integrante.

Bernoulli e substituiçãoy+P(x)y=Q(x)yn(n0,1)u=y1n,u+(1n)Pu=(1n)Qy' + P(x)\,y = Q(x)\,y^{\,n} \qquad (n\ne 0,1) \qquad\Longrightarrow\qquad u = y^{\,1-n},\quad u' + (1-n)P\,u = (1-n)Q

Receita: (1) identifique nn; (2) divida tudo por yny^n; (3) troque u=y1nu = y^{1-n} (note u=(1n)ynyu' = (1-n)y^{-n}y'); (4) resolva a linear em uu por fator integrante; (5) volte para yy.

06 Aplicações de 1ª ordem

A ideia

Aqui a prova testa se você sabe traduzir o enunciado em EDO e depois usar os dados numéricos para achar as constantes. São três modelos que se repetem há anos:

Crescimento/decaimento exponencial

“A taxa de variação é proporcional à quantidade presente”:

Modelo exponencialdQdt=kQQ(t)=Q0ekt\frac{dQ}{dt} = kQ \quad\Longrightarrow\quad Q(t) = Q_0\,e^{kt}

Com dois dados (ex.: “triplica em 1 hora”), você acha k=ln3k = \ln 3 e responde qualquer outra pergunta. Para achar o valor inicial dado um valor futuro, é só isolar Q0=Q(t1)ekt1Q_0 = Q(t_1)e^{-kt_1}.

Lei do arrefecimento de Newton

A temperatura de um corpo se aproxima da temperatura do ambiente, e quanto maior a diferença, mais rápido:

Arrefecimento de NewtondTdt=k(TTm)T(t)=Tm+(T0Tm)ekt\frac{dT}{dt} = k\,(T - T_m) \quad\Longrightarrow\quad T(t) = T_m + (T_0 - T_m)\,e^{kt}
tQk > 0 (cresce)k < 0 (decai)

Modelo exponencial: o sinal de kk decide o destino.

tTT_m (ambiente)T₀

Newton: o corpo quente desce assintoticamente até TmT_m, sem nunca cruzar.

Misturas (salmoura)

Tanque com volume V(t)V(t), entrada e saída de solução: o sal que entra menos o sal que sai:

Modelo de misturasdAdt=cereAV(t)rs\frac{dA}{dt} = c_e\, r_e - \frac{A}{V(t)}\,r_s

07 2ª ordem homogênea — equação característica

A ideia

Para ay+by+cy=0ay'' + by' + cy = 0 com coeficientes constantes, procuramos uma função que, derivada, continue “com a mesma cara” — e a única assim é a exponencial. O chute y=eλxy = e^{\lambda x} transforma a EDO num problema de 2º grau: substituindo, eλx(aλ2+bλ+c)=0e^{\lambda x}(a\lambda^2 + b\lambda + c) = 0, e como a exponencial nunca zera, sobra:

Equação característicaaλ2+bλ+c=0a\lambda^2 + b\lambda + c = 0

São três casos, conforme o discriminante:

Caso 1 — raízes reais distintas (Δ> 0)y=C1eλ1x+C2eλ2xy = C_1 e^{\lambda_1 x} + C_2 e^{\lambda_2 x}
Caso 2 — raiz real dupla (Δ=0)y=(C1+C2x)eλxy = (C_1 + C_2 x)\,e^{\lambda x}
Caso 3 — raízes complexas λ = α ± β i (Δ< 0)y=eαx(C1cosβx+C2senβx)y = e^{\alpha x}\big(C_1\cos\beta x + C_2\operatorname{sen}\beta x\big)

A solução geral é combinação linear de duas soluções linearmente independentes y1,y2y_1, y_2 (um conjunto fundamental). O mesmo raciocínio vale para ordem nn: cada raiz real simples dá um eλxe^{\lambda x}; raiz de multiplicidade mmeλx,xeλx,,xm1eλxe^{\lambda x}, xe^{\lambda x}, \dots, x^{m-1}e^{\lambda x}; cada par complexo dá o bloco seno/cosseno.

08 Wronskiano, fórmula de Abel e redução de ordem

A ideia

A solução geral de uma EDO de 2ª ordem precisa de duas soluções realmente diferentes (não múltiplas uma da outra). O Wronskiano é o detector disso — um determinante que zera quando as soluções são “a mesma coisa disfarçada”:

WronskianoW(y1,y2)(x)=y1y2y1y2=y1y2y2y1W(y_1,y_2)(x) = \begin{vmatrix} y_1 & y_2 \\ y_1' & y_2' \end{vmatrix} = y_1 y_2' - y_2 y_1'

Para soluções de y+p(x)y+q(x)y=0y'' + p(x)y' + q(x)y = 0, o Wronskiano ou é sempre zero, ou nunca zero — consequência da fórmula de Abel:

Fórmula de AbelW(x)=Cep(x)dxW(x) = C\,e^{-\int p(x)\,dx}

Ela permite calcular WW sem conhecer as soluções: basta ler o coeficiente p(x)p(x) da forma padrão.

Redução de ordem. Conhecida uma solução y1y_1 da homogênea, a segunda vem de y2=v(x)y1y_2 = v(x)\,y_1:

Redução de ordemy2=y1epdxy12dxy_2 = y_1 \int \frac{e^{-\int p\,dx}}{y_1^{\,2}}\,dx

Receita: coloque a equação na forma padrão (coeficiente de yy'' igual a 1!), identifique pp, aplique a fórmula.

09 Não homogêneas — coeficientes indeterminados

A ideia

Quando aparece um termo “de fora” g(x)g(x) (uma força externa, uma fonte), a solução geral se monta em duas peças:

Estrutura da soluçãoy=yh+ypy = y_h + y_p

O método dos coeficientes indeterminados encontra ypy_p quando gg é combinação de polinômios, exponenciais, senos e cossenos: chute ypy_p “com a mesma cara” de gg, com coeficientes desconhecidos, e ajuste-os substituindo na equação:

Tabela de chutesg=Pn(x)yp=Anxn++A0g=eαxyp=Aeαxg=cosβx ou senβxyp=Acosβx+Bsenβxg = P_n(x) \Rightarrow y_p = A_nx^n + \dots + A_0 \qquad g = e^{\alpha x} \Rightarrow y_p = Ae^{\alpha x} \qquad g = \cos\beta x \text{ ou } \operatorname{sen}\beta x \Rightarrow y_p = A\cos\beta x + B\operatorname{sen}\beta x

Produtos combinam os chutes: g=e3x(1+x)yp=e3x(Ax+B)g = e^{3x}(1+x) \Rightarrow y_p = e^{3x}(Ax + B). Regra da ressonância: se algum termo do chute já aparece em yhy_h, multiplique o chute por xx (por x2x^2 se ainda coincidir).

Receita: (1) resolva a homogênea; (2) monte o chute pela tabela; (3) confira ressonância com yhy_h; (4) derive, substitua e iguale coeficientes; (5) some y=yh+ypy = y_h + y_p.

10 Variação de parâmetros

A ideia

E se g(x)g(x) não estiver na tabela de chutes (secx\sec x, lnx\ln x, 1/x1/x…)? A variação de parâmetros é o método universal: pegue a homogênea yh=C1y1+C2y2y_h = C_1y_1 + C_2y_2 e deixe as “constantes” virarem funções, yp=u1(x)y1+u2(x)y2y_p = u_1(x)\,y_1 + u_2(x)\,y_2. As fórmulas para u1u_1 e u2u_2 saem prontas:

Variação de parâmetros (forma padrão y″ + p y′ + q y = f)yp=u1y1+u2y2,u1=y2fW,u2=y1fWy_p = u_1 y_1 + u_2 y_2, \qquad u_1' = \frac{-y_2\,f}{W}, \qquad u_2' = \frac{y_1\,f}{W}

Receita: (1) forma padrão (dividir pelo coeficiente de yy'' — o ff muda!); (2) ache y1,y2y_1, y_2 e WW; (3) integre u1u_1 e u2u_2; (4) monte ypy_p e some com yhy_h.

11 Aplicações: oscilador amortecido e circuito RLC

A ideia

É a 2ª ordem “na vida real”. Um bloco preso numa mola, com atrito, empurrado por uma força externa — a 2ª Lei de Newton vira exatamente uma EDO linear de 2ª ordem com coeficientes constantes:

Oscilador amortecidomx+bx+kx=F(t)mλ2+bλ+k=0m\,x'' + b\,x' + k\,x = F(t) \qquad\Longrightarrow\qquad m\lambda^2 + b\lambda + k = 0
txsubamortecido (oscila)superamortecidocrítico

Δ<0\Delta\lt 0: oscila com amplitude decaindo; Δ=0\Delta=0: volta o mais rápido possível sem oscilar; Δ>0\Delta\gt 0: volta devagar, sem oscilar.

Os três regimes: subamortecido (Δ<0\Delta\lt 0): x=eαt(C1cosβt+C2senβt)x = e^{\alpha t}(C_1\cos\beta t + C_2\operatorname{sen}\beta t); criticamente amortecido (Δ=0\Delta=0): x=(C1+C2t)eλtx = (C_1 + C_2t)e^{\lambda t}; superamortecido (Δ>0\Delta\gt 0): duas exponenciais decrescentes.

Circuito RLC em série — mesma matemática, outra roupa:

Circuito RLC (carga Q)LQ+RQ+1CQ=E(t)L\,Q'' + R\,Q' + \frac{1}{C}\,Q = E(t)

Com fonte senoidal E(t)E(t), a solução particular (coeficientes indeterminados com Acosωt+BsenωtA\cos\omega t + B\operatorname{sen}\omega t) é o regime permanente; a homogênea, que morre exponencialmente, é o transiente.

12 Ordem superior e equação de Cauchy-Euler

A ideia

Ordem superior com coeficientes constantes: tudo igual à 2ª ordem, com equação característica de grau nn. Ex.: y3y+2y=0λ(λ1)(λ2)=0y=C1+C2ex+C3e2xy''' - 3y'' + 2y' = 0 \Rightarrow \lambda(\lambda-1)(\lambda-2) = 0 \Rightarrow y = C_1 + C_2e^{x} + C_3e^{2x}.

Equação de Cauchy-Euler — o padrão a reconhecer: cada derivada y(k)y^{(k)} vem multiplicada por xkx^k. Para ela, o chute certo não é exponencial, e sim potência y=xmy = x^m:

Cauchy-Euler e equação auxiliarax2y+bxy+cy=0  y=xm  am(m1)+bm+c=0ax^2y'' + bxy' + cy = 0 \qquad\xrightarrow{\;y = x^m\;}\qquad a\,m(m-1) + b\,m + c = 0

Casos (para x>0x\gt 0): raízes reais distintas y=C1xm1+C2xm2\Rightarrow y = C_1x^{m_1} + C_2x^{m_2}; raiz dupla y=(C1+C2lnx)xm\Rightarrow y = (C_1 + C_2\ln x)\,x^{m}; complexas m=α±βiy=xα(C1cos(βlnx)+C2sen(βlnx))m = \alpha\pm\beta i \Rightarrow y = x^{\alpha}\big(C_1\cos(\beta\ln x) + C_2\operatorname{sen}(\beta\ln x)\big).

13 Sistemas de EDOs lineares — método dos autovalores

A ideia

Às vezes duas grandezas evoluem acopladas: a variação de xx depende de yy e vice-versa (dois tanques conectados, presa e predador, duas malhas de circuito). Isso é um sistema de EDOs, e a linguagem natural para ele é matricial:

Sistema linear homogêneoX=AX,X(t)=(x(t)y(t))\mathbf{X}' = A\,\mathbf{X}, \qquad \mathbf{X}(t) = \begin{pmatrix} x(t) \\ y(t) \end{pmatrix}

Mesma filosofia da 2ª ordem: chutamos X=Keλt\mathbf{X} = \mathbf{K}e^{\lambda t} (um vetor fixo vezes exponencial) e caímos no problema de autovalores da Álgebra Linear:

Autovalores e autovetoresdet(AλI)=0(acha os λ),(AλI)K=0(acha os K)\det(A - \lambda I) = 0 \quad\text{(acha os } \lambda\text{)}, \qquad (A - \lambda I)\mathbf{K} = \mathbf{0} \quad\text{(acha os } \mathbf{K}\text{)}

Caso 1 — autovalores reais e distintos: cada par (λi,Ki)(\lambda_i, \mathbf{K}_i) dá uma solução, e a geral é

Solução geral (reais distintos)X(t)=C1K1eλ1t+C2K2eλ2t\mathbf{X}(t) = C_1\mathbf{K}_1 e^{\lambda_1 t} + C_2\mathbf{K}_2 e^{\lambda_2 t}

Receita: (1) monte det(AλI)=0\det(A-\lambda I)=0 e resolva o polinômio característico; (2) para cada λ\lambda, resolva (AλI)K=0(A-\lambda I)\mathbf{K}=0 escolhendo uma componente livre (ex.: k2=1k_2=1); (3) monte a combinação. Para 3×33\times 3 o processo é idêntico, com três autopares. Num PVI, imponha X(0)=X0\mathbf{X}(0) = \mathbf{X}_0 e resolva o sistema linear nos CiC_i.

Retrato de fase — o desenho do sistema

O retrato de fase mostra as trajetórias (x(t),y(t))(x(t), y(t)) no plano. O tipo da origem depende só dos autovalores:

λ₁, λ₂ < 0

Nó estável (atrator): tudo cai na origem.

sinais opostos

Sela (instável): entra por um eixo, escapa pelo outro.

α ± βi, α ≠ 0

Espiral: complexos com parte real ≠ 0.

± βi (α = 0)

Centro: órbitas periódicas fechadas.

O traço e o determinante de AA resumem tudo: órbitas periódicas exigem trA=0\operatorname{tr} A = 0 com detA>0\det A \gt 0.

14 Sistemas: autovalores complexos, repetidos e sistemas não homogêneos

A ideia

Nem sempre os autovalores são reais e distintos — os outros dois casos têm receitas próprias, análogas aos casos 2 e 3 da equação característica de 2ª ordem.

Caso 2 — autovalores complexos λ=α±βi\lambda = \alpha \pm \beta i: ache o autovetor complexo K=B1+iB2\mathbf{K} = \mathbf{B}_1 + i\,\mathbf{B}_2 para λ=α+βi\lambda = \alpha + \beta i e separe parte real e imaginária de Keλt\mathbf{K}e^{\lambda t}:

Solução real (autovalores complexos)X=C1eαt(B1cosβtB2senβt)+C2eαt(B2cosβt+B1senβt)\mathbf{X} = C_1 e^{\alpha t}\big(\mathbf{B}_1\cos\beta t - \mathbf{B}_2\operatorname{sen}\beta t\big) + C_2 e^{\alpha t}\big(\mathbf{B}_2\cos\beta t + \mathbf{B}_1\operatorname{sen}\beta t\big)

Caso 3 — autovalor real duplo com um só autovetor K\mathbf{K}: a segunda solução usa o autovetor generalizado P\mathbf{P}:

Autovalor repetido(AλI)P=KX2=(Kt+P)eλt,X=C1Keλt+C2X2(A - \lambda I)\,\mathbf{P} = \mathbf{K} \qquad\Longrightarrow\qquad \mathbf{X}_2 = \big(\mathbf{K}\,t + \mathbf{P}\big)e^{\lambda t}, \qquad \mathbf{X} = C_1\mathbf{K}e^{\lambda t} + C_2\mathbf{X}_2

Sistemas não homogêneos X=AX+F(t)\mathbf{X}' = A\mathbf{X} + \mathbf{F}(t): a geral é X=Xh+Xp\mathbf{X} = \mathbf{X}_h + \mathbf{X}_p. Duas ferramentas:

Coeficientes indeterminados: F\mathbf{F} polinomial \Rightarrow chute vetorial polinomial. Ex.: F=(t1)Xp=at+b\mathbf{F} = \begin{pmatrix} t \\ 1\end{pmatrix} \Rightarrow \mathbf{X}_p = \mathbf{a}t + \mathbf{b}; substitua e iguale componente a componente.

Matriz fundamental / variação de parâmetros: se Φ(t)\Phi(t) tem por colunas um conjunto fundamental,

Variação de parâmetros (sistemas)Xp=Φ(t)Φ1(t)F(t)dt,X=Φ(t)C+Xp\mathbf{X}_p = \Phi(t)\int \Phi^{-1}(t)\,\mathbf{F}(t)\,dt, \qquad \mathbf{X} = \Phi(t)\,\mathbf{C} + \mathbf{X}_p

15 Séries de potências — pontos ordinários

A ideia

Quando os coeficientes variam com xx e não há truque (Cauchy-Euler etc.), apelamos para a artilharia pesada: escrever a solução como um polinômio infinito e descobrir seus coeficientes um a um. A equação, ao ser alimentada com a série, “cospe” uma regra (a relação de recorrência) que gera todos os coeficientes a partir dos dois primeiros.

Solução em sériey=n=0cn(xx0)n,y=n=1ncn(xx0)n1,y=n=2n(n1)cn(xx0)n2y = \sum_{n=0}^{\infty} c_n (x - x_0)^n, \qquad y' = \sum_{n=1}^{\infty} n\,c_n(x-x_0)^{n-1}, \qquad y'' = \sum_{n=2}^{\infty} n(n-1)\,c_n(x-x_0)^{n-2}

Para y+P(x)y+Q(x)y=0y'' + P(x)y' + Q(x)y = 0, x0x_0 é ponto ordinário se PP e QQ são analíticas em x0x_0 (para coeficientes polinomiais: o coeficiente de yy'' não zera em x0x_0). Nesse caso existem duas soluções em série, com raio de convergência pelo menos até o ponto singular mais próximo.

Receita: (1) substitua as séries na equação; (2) reindexe para deixar todas as somas com o mesmo expoente xkx^k; (3) iguale cada coeficiente a zero — surge a relação de recorrência; (4) gere os cnc_n a partir de c0c_0 e c1c_1; (5) escreva os primeiros termos das duas soluções.

16 Pontos singulares e método de Frobenius

A ideia

Se x0x_0 anula o coeficiente de yy'', a série comum pode falhar — o ponto é singular. Mas se a singularidade for “mansa” (singular regular), o método de Frobenius salva: a solução é uma série multiplicada por uma potência xrx^r possivelmente fracionária ou negativa, e o primeiro passo é descobrir os expoentes rr permitidos.

Teste de singular regularp(x)=(xx0)P(x)eq(x)=(xx0)2Q(x)analıˊticas em x0    singular regularp(x) = (x-x_0)\,P(x) \quad\text{e}\quad q(x) = (x-x_0)^2\,Q(x) \quad\text{analíticas em } x_0 \;\Rightarrow\; \text{singular regular}
Série de Frobenius e equação indicialy=n=0cn(xx0)n+r,r(r1)+p0r+q0=0y = \sum_{n=0}^{\infty} c_n\,(x-x_0)^{n+r}, \qquad r(r-1) + p_0\,r + q_0 = 0

Se r1r2r_1 - r_2 não é inteiro, há duas soluções de Frobenius independentes (uma para cada rr); se difere por inteiro ou é raiz dupla, a segunda solução pode envolver lnx\ln x. Na prática da prova: substitua a série na equação e olhe o coeficiente da MENOR potência de xx — ele fatora como c0(equac¸a˜o indicial)c_0\cdot(\text{equação indicial}).

Equações clássicas: a equação de Bessel x2y+xy+(x2ν2)y=0x^2y'' + xy' + (x^2 - \nu^2)y = 0 tem x0=0x_0=0 singular regular com indicial r2=ν2r^2 = \nu^2; a de Legendre (1x2)y2xy+α(α+1)y=0(1-x^2)y'' - 2xy' + \alpha(\alpha+1)y = 0 tem x0=0x_0 = 0 ordinário (soluções polinomiais para α\alpha inteiro — os polinômios de Legendre).