Propriedades dos fluidos e a lei de Newton da viscosidade, estática dos fluidos (Stevin, Pascal, manometria, força em superfícies submersas e empuxo), cinemática e continuidade, Bernoulli e a equação da energia com máquinas, perdas de carga em condutos forçados, quantidade de movimento, análise dimensional e semelhança, e os fundamentos da transferência de calor e de massa.
01 O que é um fluido: aderência, cisalhamento e a lei de Newton da viscosidade
A ideia. Em Dinâmica você empurrava blocos: corpos com forma própria, que se deslocam inteiros. Aqui o objeto de estudo não tem forma própria e, o que é mais importante, não para de se deformar enquanto houver força tangencial sobre ele. Essa única frase é a definição de fluido, e é dela que sai toda a cadeira — inclusive a viscosidade, que é a medida de quão devagar essa deformação acontece.
Sólido para, fluido não
Aplique uma força tangencial constanteFt sobre um sólido: ele se deforma até uma posição de equilíbrio e para. As tensões internas crescem com a deformação até equilibrarem a força externa.
Aplique a mesma Ft constante sobre um fluido: ele se deforma, e continua se deformando, indefinidamente. Não existe posição de equilíbrio estático.
Aderência: a condição de contorno de toda a cadeira
Tensão de cisalhamento
A força que a placa faz no fluido se distribui pela área de contato. O que interessa é a força por unidade de área:
τ=AFt⟺Ft=τA
Dimensionalmente, [τ]=FL−2 — a mesma dimensão de pressão. A diferença é a direção: pressão age normal à superfície, cisalhamento age tangencial a ela.
A lei de Newton da viscosidade
A observação experimental que funda a cadeira: a tensão de cisalhamento é proporcional ao gradiente de velocidade.
τ=μdydv
A constante de proporcionalidade μ é a viscosidade dinâmica — a propriedade que mede a dificuldade de o fluido escoar. Ela depende do fluido e, fortemente, da temperatura.
02 Massa específica, peso específico, densidade relativa e volume específico
A ideia. Quatro grandezas que descrevem “quanto de matéria” há num volume de fluido — e que os enunciados usam de forma intercambiável, de propósito. A prova raramente dá a que você quer: ela dá a densidade relativa e cobra o peso específico, ou dá a viscosidade cinemática e cobra a dinâmica. Saber converter entre elas de cabeça vale mais que decorar as definições.
A ponte entre ρ e γ
É a única relação que precisa ser memorizada, e sai direto de G=mg:
γ=VG=Vmg⟹γ=ρg
Densidade relativa: o número sem unidade
Densidade relativa compara o fluido com uma referência — água a 4∘C para líquidos:
d=ρaˊguaρ=γaˊguaγ
As duas razões dão o mesmo número, porque o g cancela. É por isso que o enunciado pode dizer “densidade relativa” ou “peso específico relativo” e estar falando da mesma grandeza.
Compressível ou incompressível
A classificação que decide quais equações você pode usar:
incompressível — ρ não muda com a pressão. É a hipótese para líquidos e para a cadeira quase inteira;
compressível — ρ muda com a pressão. É o caso dos gases, e só entra em problemas específicos.
03 Viscosidade dinâmica e cinemática
A ideia. A viscosidade já apareceu como a constante da lei de Newton. Aqui ela ganha uma segunda versão — a cinemática —, e é essa dupla que as provas exploram: o enunciado dá ν (cinemática) e a fórmula do cisalhamento pede μ (dinâmica). Quem não souber a ponte entre as duas trava numa questão de meio ponto.
A ponte entre as duas
ν=ρμ⟺μ=νρ
O nome “cinemática” tem motivo: a unidade m2/s não traz massa nem força, só comprimento e tempo — as dimensões da cinemática. E é essa versão que aparece no número de Reynolds, mais adiante na cadeira.
Como a temperatura age — e por que líquido e gás são opostos
Esta é a pergunta conceitual mais frequente do 1º EE, e a resposta depende de de onde vem a viscosidade em cada caso:
04 Fluidos newtonianos e não newtonianos
A ideia. A lei de Newton da viscosidade diz que τ é proporcional a dv/dy. Isso é uma hipótese, não uma verdade universal: existem fluidos em que a razão τ/(dv/dy)não é constante. Classificar um fluido é dizer qual é a forma da curva τ contra dv/dy — e essa curva é o que a prova pede para desenhar ou identificar.
Newtoniano: a reta pela origem
τ=μdydvcom μ=constante
No diagrama τ contra dv/dy, é uma reta que passa pela origem, e a inclinação é μ. Água, ar e óleos lubrificantes são newtonianos — e é essa a hipótese de toda a cadeira, salvo aviso contrário.
Não newtoniano: a viscosidade aparente muda
05 Tensão superficial e capilaridade
A ideia. Uma molécula no meio do líquido é puxada igualmente em todas as direções pelas vizinhas, e a resultante é nula. Uma molécula na superfície não tem vizinhas acima: a resultante aponta para dentro. O efeito é que a superfície se comporta como uma membrana esticada — é ela que segura a gota redonda, o inseto sobre a água e a coluna que sobe sozinha num tubo fino. Tudo nesta seção é consequência desse desequilíbrio.
A tensão superficial é força por comprimento, não por área
Esta é a primeira armadilha da seção: σnão é pressão. A unidade é N/m, e o comprimento em questão é o da linha onde a superfície se prende — o perímetro do tubo, a borda da gota, o contorno da lâmina.
σ=LF
Alguns valores a 20∘C, que dão a escala do fenômeno:
líquido (em contato com ar)
tensão superficial
água
0,0728N/m
glicerina
0,063N/m
álcool etílico
0,022N/m
mercúrio
≈0,48N/m
A tensão superficial cai quando a temperatura sobe — é o mesmo motivo da viscosidade dos líquidos: aquecer enfraquece a coesão. E cai bastante com detergente, que é exatamente o que um tensoativo faz.
Molhamento: o ângulo de contato decide tudo
Na linha onde líquido, sólido e ar se encontram, duas forças disputam: a coesão (líquido com líquido) e a adesão (líquido com a parede). Quem vencer define o formato do menisco e o sinal de tudo o que vem depois.
O mesmo tubo, o mesmo diâmetro, dois líquidos. O que muda é o ângulo de contato: à esquerda ele é agudo e o menisco é côncavo, à direita é obtuso e o menisco é convexo. A altura troca de sinal junto com o cosθ.
Capilaridade: a lei de Jurin
Num tubo fino mergulhado num líquido, a membrana superficial se prende à parede ao longo de todo o perímetro 2πr e puxa a coluna, inclinada de θ. Só a componente vertical sustenta o peso:
o que a membrana seguraσ(2πr)cosθ=peso da colunaγ(πr2h)
Cortando πr dos dois lados:
h=γr2σcosθ=γd4σcosθ
A gota, a bolha e o jato
A mesma membrana comprime o que ela envolve. Equilibrando metade de uma gota — a pressão empurra a área πR2, a tensão segura o perímetro 2πR:
Δp(πR2)=σ(2πR)⟹Δp=R2σ
geometria
diferença de pressão
gota, ou bolha dentro do líquido
Δp=2σ/R
bolha de sabão (duas superfícies)
Δp=4σ/R
jato cilíndrico
Δp=σ/R
A bolha de sabão tem duas superfícies, a de dentro e a de fora, e por isso dobra. O jato tem uma curvatura só, e por isso cai pela metade. Em todos, o que importa é o 1/R: quanto menor a gota, maior a pressão interna — é por isso que gotas pequenas se juntam nas grandes, e não o contrário.
06 Pressão, escalas de medida e carga de pressão
A ideia. Estática dos fluidos é o estudo do fluido em repouso: velocidade nula em todos os pontos e, por consequência, tensão de cisalhamento nula. Sem cisalhamento sobra uma única força de superfície — a pressão, sempre normal à superfície. Toda esta unidade é a consequência disso.
Pressão só existe em fluido
O equivalente da pressão num sólido chama-se tensão normal. A palavra “pressão” reserva-se a fluidos, e a razão é a do parágrafo de abertura: num fluido em repouso, a força normal é a única que sobra.
As duas escalas, e a soma que as liga
Pressão é sempre medida em relação a alguma referência, e há duas em uso:
pabs=patm+pef
absoluta — conta do vácuo (zero absoluto) para cima. Nunca é negativa;
efetiva — conta da atmosfera local. Pode ser negativa, e aí se diz que há vácuo parcial (a pressão está abaixo da atmosférica).
Carga de pressão: pressão medida em metros
Divida uma pressão pelo peso específico e o resultado tem dimensão de comprimento:
h=γp
Esse h é a carga de pressão — a altura da coluna daquele fluido que a pressão p consegue sustentar. É por isso que existem unidades como mmHg e mca (metro de coluna de água): elas são pressões escritas como altura.
07 Lei de Stevin e lei de Pascal
A ideia. Duas leis que parecem próximas e dizem coisas diferentes — e a prova gosta exatamente dessa confusão. Stevin governa a variação da pressão na vertical; Pascal governa a transmissão da pressão para todos os pontos. Uma explica por que a pressão cresce com a profundidade; a outra, por que um macaco hidráulico levanta um carro.
Lei de Stevin
A diferença de pressão entre dois pontos de um fluido em repouso é igual ao produto do peso específico pela diferença de cotas.
pN−pM=γΔh
E, no caso mais comum — superfície livre aberta para a atmosfera, ponto a uma profundidade h:
p=γh(efetiva)p=p0+γh(com p0 na superfıˊcie)
Lei de Pascal
A pressão aplicada num ponto de um fluido em repouso transmite-se integralmente a todos os pontos do fluido.
A aplicação prática é a prensa hidráulica: dois êmbolos de áreas diferentes ligados pelo mesmo fluido. A pressão é a mesma nos dois, então
p1=p2⟹A1F1=A2F2
08 Manômetros e a equação manométrica
A ideia. Aqui a estática deixa de ser conceito e passa a valer 2 pontos de prova. A equação manométrica é uma aplicação repetida de Stevin, feita com um método mecânico: caminhar pelo tubo de um ponto ao outro, somando quando desce e subtraindo quando sobe. Quem faz isso com disciplina não erra; quem tenta “ver” a resposta erra o sinal.
Os instrumentos, e para que serve cada um
barômetro — mede a pressão atmosférica. O de mercúrio, de Torricelli (1643): ao nível do mar a coluna sobe 760mmHg;
manômetro metálico (Bourdon) — mede pela deformação de um tubo metálico. Indica pint−pext, ou seja, pressão efetiva;
piezômetro — tubo de vidro simples ligado ao reservatório; lê-se a carga de pressão direto na altura da coluna, p=γh;
manômetro em U — resolve as três limitações do piezômetro;
manômetro diferencial — em U mas com os dois ramos ligados a reservatórios; mede pA−pB quando nenhuma das duas pressões é conhecida.
A equação manométrica: o método de caminhar
09 Força em superfície plana submersa e centro de pressão
A ideia. A pressão cresce com a profundidade, então a força sobre uma comporta não está distribuída por igual: aperta mais embaixo. Essa unidade responde a duas perguntas separadas — quanto é a força resultante e onde ela age. A primeira resposta é surpreendentemente simples; a segunda é a que derruba prova, porque o ponto de aplicação não é o centro de gravidade.
Quanto: a força resultante
Integrando a pressão sobre a área e reconhecendo a definição de centroide, chega-se a um resultado curto:
F=∫pdA=γsenθ∫ydA=γsenθyˉA
E como hˉ=yˉsenθ:
F=γhˉA=pˉA
Onde: o centro de pressão
O CP é o ponto onde a resultante deveria ser aplicada para produzir o mesmo momento que a distribuição real. Igualando os momentos:
FyCP=γsenθ∫y2dA=γsenθI0⟹yCP=yˉAI0
Aplicando o teorema de Steiner, I0=ICG+yˉ2A:
yCP=yˉ+yˉAICG
10 Força em superfície curva submersa
A ideia. Numa superfície curva a pressão continua sempre normal à parede — mas a normal muda de direção ponto a ponto. Somar vetores que giram não dá para fazer com uma fórmula única, então o método é outro: decompor em duas direções e tratar cada componente com o que já se sabe. A horizontal cai na seção anterior; a vertical vira um problema de peso de volume.
A componente horizontal: projete e esqueça a curva
FH=γhˉAproj
É a mesma fórmula da superfície plana, aplicada à projeção da superfície curva num plano vertical.
A componente vertical: é peso de líquido
FV=γV
onde V é o volume de líquido entre a superfície curva e a superfície livre.
A resultante
FR=FH2+FV2tanα=FHFV
onde α é o ângulo da resultante com a horizontal.
11 Empuxo e equilíbrio de corpos submersos
A ideia. Empuxo não é uma força nova: é o resultado líquido das pressões que o fluido faz na superfície do corpo. Como a pressão cresce com a profundidade, o empurrão de baixo vence o de cima, e sobra uma força para cima. O princípio de Arquimedes é essa conta já resolvida — e ela depende só do volume deslocado, não do que há dentro do corpo.
O princípio de Arquimedes
E=γfVdes
Todo corpo imerso num fluido sofre uma força vertical para cima igual ao peso do fluido deslocado.
As três situações
Comparando empuxo com peso, para um corpo totalmente imerso:
E>G (isto é, γf>γc) → o corpo sobe e passa a flutuar;
E=G (γf=γc) → equilíbrio indiferente: fica onde for colocado;
E<G (γf<γc) → o corpo afunda.
Peso aparente
Um corpo pendurado numa balança dentro do fluido “pesa” menos:
Gap=G−E
É a leitura da balança, e é uma das formas favoritas de o enunciado dar o empuxo sem dizer o nome dele.
Estabilidade: onde agem as duas forças
O peso age no centro de gravidade (CG) do corpo; o empuxo age no centro de carena (C), que é o centroide da parte submersa. Quando o corpo inclina, a parte submersa muda de forma e Cse desloca — o CG não.
12 Tipos e regimes de escoamento; número de Reynolds
A ideia. Sai o repouso, entra o movimento. Antes de escrever qualquer equação para um fluido escoando é preciso classificar o escoamento, porque as hipóteses que você pode usar depois dependem dessa classificação. E o classificador mais importante da cadeira é um número adimensional que compara duas forças: Reynolds.
As classificações que o enunciado usa
Trajetória e linha de corrente
trajetória — o caminho percorrido por uma partícula ao longo do tempo;
linha de corrente — a linha tangente aos vetores velocidade de várias partículas, num mesmo instante.
Laminar e turbulento: o experimento de Reynolds
Injetando corante num tubo de vidro com água escoando:
em velocidade baixa, o filete de corante segue reto, sem se misturar — as partículas escoam em camadas paralelas. É o laminar;
aumentando a velocidade, o filete começa a oscilar e depois se dissolve por toda a seção. É o turbulento, com movimento errático e mistura intensa.
Re=μρvD=νvD
13 Vazão volumétrica, vazão mássica e velocidade média
A ideia. Vazão é a grandeza que amarra a cadeira inteira: ela aparece na continuidade, em Bernoulli, no cálculo de perda de carga e na potência da bomba. E a definição de velocidade média é o que permite tratar um perfil de velocidades complicado como se fosse um número só.
As três vazões
Q=vAQm=ρQ=ρvAG=γQ
Velocidade média: a definição que salva a conta
A velocidade não é a mesma em todos os pontos da seção: por causa da aderência, ela é zero na parede e máxima no centro. A velocidade média é definida para que a vazão dê certo:
v=A1∫AvlocaldA⟺Q=∫AvlocaldA=vA
14 Equação da continuidade para regime permanente
A ideia. É a conservação da massa escrita para um escoamento. A frase é banal — o que entra tem de sair —, mas a consequência não é: se o tubo estreita, o fluido acelera. É esse aumento de velocidade que, na próxima unidade, vai fazer a pressão cair (Bernoulli) e explicar o funcionamento de um Venturi.
A forma geral e a que se usa
Em regime permanente, a massa que entra por unidade de tempo iguala a que sai:
ρ1v1A1=ρ2v2A2⟺Qm1=Qm2
Para fluido incompressível (ρ1=ρ2), o ρ cancela:
v1A1=v2A2=Q=constante
15 Equação de Bernoulli, carga total e o tubo de Venturi
A ideia. Bernoulli é a conservação de energia escrita em metros. Cada termo é uma “carga” — uma altura equivalente — e a soma das três é constante ao longo do escoamento de um fluido ideal. A força da equação está em quê ela permite: sabendo a geometria (pela continuidade), você descobre a pressão sem saber nada sobre a força que empurra o fluido.
A equação
z1+γp1+2gv12=z2+γp2+2gv22=H
Por que “todos os termos em metros”
Dividir a energia pelo peso do fluido transforma joules em metros:
pesoenergia=NJ=NN⋅m=m
O tubo de Venturi
É a aplicação clássica, e cai em prova em toda variação possível. Um estrangulamento na tubulação: pela continuidade a velocidade aumenta na garganta; por Bernoulli, se a carga cinética cresce e a cota não muda, a carga de pressão tem de cair.
γp1−p2=2gv22−v12
Medindo o desnível num manômetro diferencial ligado entre (1) e (2), obtém-se a vazão — é assim que um Venturi funciona como medidor.
16 Equação da energia com máquina: bombas e turbinas
A ideia. Bernoulli puro só serve a um mundo sem atrito e sem máquinas. A equação da energia real acrescenta dois termos: o que a máquina entrega ou retira, e o que o atrito dissipa. Com esses dois termos a equação deixa de ser exercício e passa a dimensionar bomba de verdade — que é o que a prova pede quando fala em “potência requerida”.
A equação completa
z1+γp1+2gv12+HM=z2+γp2+2gv22+Hp1,2
Lê-se: a carga em (1), mais o que a máquina põe, é a carga em (2) mais o que o atrito comeu.
Potência: três versões da mesma fórmula
A potência útil, transferida ao fluido:
Nuˊtil=γQHM
Máquina real tem perdas internas, e aí entra o rendimento:
Nbomba=ηγQHBNturbina=ηγQHT
17 Perda de carga distribuída: Darcy-Weisbach e o diagrama de Moody
A ideia. O termo Hp da seção anterior apareceu como um número dado. Aqui ele é calculado. A perda de carga tem duas origens: o atrito ao longo do tubo reto (distribuída) e as singularidades como curvas e válvulas (localizada, próxima seção). A distribuída é governada por uma fórmula única, e a dificuldade toda está em achar um coeficiente: o fator de atrito.
A fórmula universal
Hf=fDL2gv2
Como achar f
A fórmula de Hazen-Williams
Em hidráulica de água a fórmula empírica de Hazen-Williams aparece com frequência (é a preferida em projeto de redes):
Hf=10,65C1,85D4,87Q1,85L
com C o coeficiente de Hazen-Williams (depende do material: ≈130 para PVC, ≈100 para ferro fundido usado). Só vale para água em regime turbulento — não é universal como Darcy.
18 Perdas de carga localizadas e comprimento equivalente
A ideia. Cada curva, válvula, registro ou mudança de seção obriga o fluido a mudar de direção ou de velocidade bruscamente, e isso gera turbilhonamento — energia que vira calor. Numa instalação curta e cheia de conexões, essas perdas “pontuais” podem passar a distribuída. Há dois métodos para contabilizá-las, e a prova pede saber os dois.
Método 1 — o coeficiente K
HL=K2gv2
Cada peça tem seu K, tabelado. Some as perdas de todas:
HL=(∑Ki)2gv2
Método 2 — o comprimento equivalente
Trocar cada peça por um trecho de tubo reto que perderia o mesmo:
Leq=KfD
Aí a perda total sai de uma única aplicação de Darcy, com o comprimento somado:
Hptotal=fDLreal+∑Leq2gv2
A perda total, e quando desprezar as localizadas
Hptotal=Hf+HL
19 Equação da quantidade de movimento para regime permanente
A ideia. Continuidade é massa, Bernoulli é energia — falta a segunda lei de Newton escrita para um escoamento. Ela responde à pergunta que as outras duas não respondem: qual força o fluido faz na estrutura? É o que dimensiona o bloco de ancoragem de uma curva, a força num jato contra uma pá e o esforço num redutor de tubulação.
A equação
Para regime permanente, uma entrada e uma saída:
FR=Qm(v2−v1)=ρQ(v2−v1)
Em componentes, que é como se usa:
FRx=ρQ(v2x−v1x)FRy=ρQ(v2y−v1y)
O que entra em FR
A resultante inclui todas as forças externas ao volume de controle:
FR=Fp1+Fp2+G+Fest
Fp=pA — forças de pressão nas seções de entrada e saída (use pressão efetiva);
G — peso do fluido no volume de controle;
Fest — a força que a estrutura faz no fluido. É a incógnita.
20 Análise dimensional, números adimensionais e o teorema dos π
A ideia. Alguns problemas de fluidos têm variáveis demais para resolver analiticamente e caro demais para testar em tamanho real. A análise dimensional é a ferramenta que reduz o número de variáveis antes de qualquer experimento: em vez de estudar sete grandezas separadas, estuda-se um punhado de grupos adimensionais. É o que permite ensaiar um modelo pequeno e extrapolar para a obra.
Dimensões das grandezas usuais
O teorema dos π de Buckingham
Um problema com n variáveis, envolvendo k dimensões primárias, pode ser reescrito com n−k grupos adimensionais independentes.
Os adimensionais que têm nome
21 Semelhança e teoria dos modelos
A ideia. Ninguém constrói uma barragem para descobrir se ela funciona. Constrói-se um modelo reduzido, ensaia-se, e transfere-se o resultado para o protótipo. A teoria dos modelos é o conjunto de regras que garante que essa transferência é legítima — e a regra central é: os adimensionais relevantes têm de ser iguais nos dois.
Os três níveis de semelhança
A condição de projeto
πi,m=πi,p
para cada adimensional relevante. Na prática, iguala-se o que domina o fenômeno:
22 Análise diferencial: Navier-Stokes e aplicações
A ideia. Até aqui a cadeira usou volumes de controle finitos: entra em (1), sai em (2), e o que acontece no meio não importa. A análise diferencial faz o oposto — escreve as leis para um elemento infinitesimal e obtém o campo de velocidades ponto a ponto. O preço é uma equação diferencial parcial não linear; o ganho é a descrição completa do escoamento.
A derivada material
A aceleração de uma partícula de fluido tem duas parcelas — e essa distinção é o coração da análise diferencial:
DtDv=local∂t∂v+convectiva(v⋅∇)v
A continuidade em forma diferencial
∂t∂ρ+∇⋅(ρv)=0incompressıˊvel∇⋅v=0
Ou seja ∂x∂u+∂y∂v+∂z∂w=0 — é este o teste que a prova pede para verificar se um campo dado é fisicamente possível.
A equação de Navier-Stokes
Para fluido newtoniano e incompressível com μ constante:
ρDtDv=−∇p+μ∇2v+ρg
A aplicação clássica: escoamento entre placas
Para escoamento laminar, permanente e unidirecional entre duas placas paralelas, quase todos os termos morrem e sobra uma equação ordinária simples:
dy2d2u=μ1dxdp
Integrando duas vezes com u=0 nas paredes (aderência), obtém-se o perfil parabólico — e, dele, o resultado de Hagen-Poiseuille que a seção de perda de carga usou:
v=2vmaxf=Re64
23 Os três modos de transferência de calor
A ideia. A cadeira muda de assunto, mas não de estrutura: transporte de calor obedece à mesma lógica do transporte de quantidade de movimento — um fluxo proporcional a um gradiente. Calor é energia em trânsito por diferença de temperatura, e há exatamente três mecanismos para ele viajar. Identificar qual está em jogo é o primeiro passo de qualquer questão desta unidade.
Condução
Transferência dentro de um sólido ou de um fluido estacionário, por contato direto — a energia passa de molécula a molécula, sem que a matéria se desloque.
qx′′=−k∂x∂Tqx=−kA∂x∂T
Esta é a lei de Fourier, e a próxima seção a desenvolve.
Convecção
Transferência entre uma superfície e um fluido em movimento. Aqui a matéria se desloca e carrega energia com ela.
q=hA(Ts−T∞)
com Ts a temperatura da superfície e T∞ a do fluido longe dela (lei do resfriamento de Newton).
Radiação
Transferência por ondas eletromagnéticas, emitidas por qualquer corpo com temperatura acima do zero absoluto. Não precisa de meio material — é assim que o calor do Sol chega à Terra.
q=εσA(Ts4−Tviz4)
24 Lei de Fourier, condutividade e resistência térmica
A ideia. A lei de Fourier é a lei de Newton da viscosidade com outros nomes: fluxo proporcional a gradiente. E há um ganho enorme escondido nela — se o regime é permanente e o perfil é linear, a condução vira um circuito elétrico, com “resistências térmicas” que se somam em série e em paralelo exatamente como resistores. Essa analogia é a ferramenta mais poderosa desta unidade.
A lei de Fourier e o caso linear
q=−kAdxdT
Em regime permanente, numa parede plana de espessura L com faces a T1 e T2, o perfil de temperatura é linear e a derivada vira razão:
q=kALT1−T2
A analogia elétrica
Reescrevendo a lei de Fourier no formato “corrente = tensão / resistência”:
q=RtΔTcomRt=kAL
A resistência de convecção
A convecção também vira resistência, e é isso que permite montar o circuito completo da parede:
q=hAΔT=RconvΔT⟹Rconv=hA1
25 Condução em paredes compostas e em tubulações
A ideia. Com o dicionário elétrico da seção anterior, resolver uma parede de três camadas é somar resistências. O caso do tubo é o único que exige cuidado extra: ali a área cresce com o raio, o perfil de temperatura deixa de ser linear e a resistência ganha um logaritmo. É a fórmula que a prova de 2º EE cobra com mais frequência nesta unidade.
26 Condução em esferas e o raio crítico de isolamento
A ideia. O tubo trouxe o logaritmo porque a área cresce com o raio. Na esfera a área cresce com o raio ao quadrado, e a resistência ganha uma forma ainda diferente. E, nos dois casos curvos, aparece um efeito que não existe na parede plana: acrescentar isolante pode aumentar a perda de calor. O limite entre uma coisa e outra é o raio crítico.
A resistência de uma casca esférica
Na esfera, A=4πr2. Integrando Fourier com essa área:
Aqui está o efeito que não existe na parede plana. Acrescentar isolante faz duas coisas opostas:
aumenta a resistência de condução (mais material a atravessar);
diminui a resistência de convecção, porque a área externa fica maior.
Enquanto o segundo efeito vence, mais isolante significa mais perda de calor. O raio em que os dois se equilibram — em que a resistência total é mínima e o fluxo é máximo — é o raio crítico. Derivando Rtotal em relação a r e igualando a zero:
rc=hekiso(cilindro)rc=he2kiso(esfera)
27 Condução com geração de calor e as condições de contorno
A ideia. Tudo até aqui supôs que o calor só atravessa o material. Se o material produz calor — resistência elétrica dissipando, reação química, decaimento nuclear —, o perfil de temperatura deixa de ser reto e vira parábola. E, para resolver a equação diferencial que aparece, é preciso dizer o que acontece nas fronteiras: são as condições de contorno, que a prova cobra pelo nome.
A equação, e por que a parábola
O balanço de energia num elemento de parede plana, em regime permanente (sem acúmulo) e com geração, é
conduc¸a˜odx2d2T+gerac¸a˜okq˙=0
Integrando duas vezes:
dxdT=−kq˙x+C1T(x)=−2kq˙x2+C1x+C2T(x)eˊ uma paraˊbola;q′′(x)=−kdxdT=q˙x−kC1eˊ uma reta
Parede simétrica: o caso resolvido
Para uma parede de semiespessura L (portanto de −L a +L), refrigerada igualmente nas duas faces, a simetria dá C1=0 e T(±L)=Ts:
Resolver a equação diferencial exige duas informações nas fronteiras. Há três tipos, e cada um tem nome próprio:
1ª — Dirichlet (primeiro tipo): temperatura prescrita.
T(0,t)=Ts
A superfície é mantida a uma temperatura conhecida. É o caso de uma face em contato com um fluido em mudança de fase (água fervendo, gelo derretendo), que impõe a sua temperatura.
2ª — Neumann (segundo tipo): fluxo prescrito.
−k∂x∂T0=qs′′
O que se conhece é a taxa de calor na superfície, não a temperatura. Caso particular importantíssimo: superfície adiabática (isolada), em que qs′′=0 e portanto ∂T/∂x=0 — a mesma condição que a simetria dá no plano central.
3ª — Robin (terceiro tipo, ou mista): convecção na superfície.
−k∂x∂T0=h[T∞−T(0,t)]
O calor que chega por condução à superfície é o que sai por convecção dela. Nem a temperatura nem o fluxo são dados: dá-se h e T∞, e a superfície encontra a própria temperatura.
28 Convecção: natural, forçada e o número de Nusselt
A ideia. A lei do resfriamento de Newton, q=hAΔT, esconde toda a dificuldade dentro do h — que não é propriedade do fluido, e sim resultado do escoamento. Achar h é o problema central da convecção, e o caminho é sempre o mesmo: calcular adimensionais e usar uma correlação. O adimensional que entrega o h é o de Nusselt.
Os dois tipos de convecção
Natural (ou livre). O movimento do fluido nasce da própria diferença de temperatura: o fluido aquecido fica menos denso e sobe, o frio desce. Não há nenhum dispositivo mecânico. É o ar subindo de um radiador, a água circulando numa panela antes de ferver.
Forçada. O fluido é impulsionado por um agente externo — ventilador, bomba, compressor, o vento. O escoamento não depende da diferença de temperatura.
O número de Nusselt
Nu=khL
O que ele compara: a troca de calor por convecção contra a troca por condução através da mesma camada de fluido.
Nu=1 → só há condução: o fluido está parado (é o limite da condução pura);
Nu≫1 → a convecção domina, e tanto mais quanto maior o Nu.
Os adimensionais que alimentam a correlação
Re=μρvDPr=αν=kμcpGr=ν2gβ(Ts−T∞)L3
Reynolds — inércia contra viscosidade; diz se o escoamento é laminar ou turbulento;
Prandtl — difusividade de quantidade de movimento contra a de calor; diz qual camada limite é mais espessa, a de velocidade ou a térmica;
Grashof — empuxo (sustentação térmica) contra viscosidade; é o “Reynolds da convecção natural”, já que ali não há velocidade imposta para se usar.
A ideia. O último assunto da cadeira fecha o círculo que o nome dela sempre anunciou: são três fenômenos de transporte com a mesma estrutura matemática. Quantidade de movimento (Newton), calor (Fourier) e agora massa (Fick) — em todos, um fluxo é proporcional a um gradiente, com uma propriedade do meio como constante. Quem enxerga a analogia aprende esta unidade em minutos.
A lei de Fick
JA=−DABdxdCA
A massa da espécie A migra da região de maior para a de menor concentração — daí o sinal negativo, exatamente como em Fourier.
Difusão e convecção mássica
Como no calor, há dois mecanismos:
difusão — migração molecular por gradiente de concentração, governada por Fick. É o análogo da condução;
convecção mássica — transporte pelo movimento do fluido:
NA=hmA(CA,s−CA,∞)
que é a lei do resfriamento de Newton com concentração no lugar de temperatura.
30 Fluxo difusivo, convectivo e absoluto
A ideia. Numa mistura que escoa, uma espécie se move por dois motivos ao mesmo tempo: porque há gradiente de concentração (difusão) e porque o fluido inteiro está indo para algum lado (convecção). A questão típica de 2º EE dá a concentração total, as frações molares nas duas pontas e a velocidade, e pede os três fluxos para as duas espécies. É contabilidade, não dificuldade — desde que a ordem dos passos seja fixa.
Os três fluxos
Difusivo — é Fick, escrito em base molar:
JA′′=−DABdxdCA
Convectivo — a espécie é simplesmente carregada pelo escoamento:
NA′′=CAv
Absoluto — a soma, porque os dois transportes acontecem ao mesmo tempo:
NA,abs′′=JA′′+CAv
Concentração a partir da pressão parcial
Quando a mistura é de gases ideais, a concentração molar sai da equação de estado, e a fração molar vale também para as pressões:
C=RTPCA=RTpA=RTxAP
E a massa que atravessa uma área A num tempo t é o fluxo molar convertido por massa molar: