Pular para o conteúdo
Nabla
FISC0001 · 60h

Fenômenos de Transporte

Propriedades dos fluidos e a lei de Newton da viscosidade, estática dos fluidos (Stevin, Pascal, manometria, força em superfícies submersas e empuxo), cinemática e continuidade, Bernoulli e a equação da energia com máquinas, perdas de carga em condutos forçados, quantidade de movimento, análise dimensional e semelhança, e os fundamentos da transferência de calor e de massa.

01 O que é um fluido: aderência, cisalhamento e a lei de Newton da viscosidade

A ideia. Em Dinâmica você empurrava blocos: corpos com forma própria, que se deslocam inteiros. Aqui o objeto de estudo não tem forma própria e, o que é mais importante, não para de se deformar enquanto houver força tangencial sobre ele. Essa única frase é a definição de fluido, e é dela que sai toda a cadeira — inclusive a viscosidade, que é a medida de quão devagar essa deformação acontece.

Sólido para, fluido não

Aplique uma força tangencial constante FtF_t sobre um sólido: ele se deforma até uma posição de equilíbrio e para. As tensões internas crescem com a deformação até equilibrarem a força externa.

Aplique a mesma FtF_t constante sobre um fluido: ele se deforma, e continua se deformando, indefinidamente. Não existe posição de equilíbrio estático.

Aderência: a condição de contorno de toda a cadeira

Tensão de cisalhamento

A força que a placa faz no fluido se distribui pela área de contato. O que interessa é a força por unidade de área:

τ=FtA⟺Ft=τ A\tau = \frac{F_t}{A} \qquad\Longleftrightarrow\qquad F_t = \tau\,A

Dimensionalmente, [τ]=FL−2[\tau] = F L^{-2} — a mesma dimensão de pressão. A diferença é a direção: pressão age normal à superfície, cisalhamento age tangencial a ela.

A lei de Newton da viscosidade

A observação experimental que funda a cadeira: a tensão de cisalhamento é proporcional ao gradiente de velocidade.

  τ=μ dvdy  \boxed{\;\tau = \mu \,\frac{dv}{dy}\;}

A constante de proporcionalidade μ\mu é a viscosidade dinâmica — a propriedade que mede a dificuldade de o fluido escoar. Ela depende do fluido e, fortemente, da temperatura.

02 Massa específica, peso específico, densidade relativa e volume específico

A ideia. Quatro grandezas que descrevem “quanto de matéria” há num volume de fluido — e que os enunciados usam de forma intercambiável, de propósito. A prova raramente dá a que você quer: ela dá a densidade relativa e cobra o peso específico, ou dá a viscosidade cinemática e cobra a dinâmica. Saber converter entre elas de cabeça vale mais que decorar as definições.

A ponte entre ρ\rho e γ\gamma

É a única relação que precisa ser memorizada, e sai direto de G=mgG = mg:

γ=GV=m gV⟹  γ=ρ g  \gamma = \frac{G}{V} = \frac{m\,g}{V} \qquad\Longrightarrow\qquad \boxed{\;\gamma = \rho\,g\;}

Densidade relativa: o número sem unidade

Densidade relativa compara o fluido com uma referência — água a 4 ∘C4\ ^\circ\mathrm{C} para líquidos:

d=ρρaˊgua=γγaˊguad = \frac{\rho}{\rho_{\text{água}}} = \frac{\gamma}{\gamma_{\text{água}}}

As duas razões dão o mesmo número, porque o gg cancela. É por isso que o enunciado pode dizer “densidade relativa” ou “peso específico relativo” e estar falando da mesma grandeza.

Compressível ou incompressível

A classificação que decide quais equações você pode usar:

  • incompressível — ρ\rho não muda com a pressão. É a hipótese para líquidos e para a cadeira quase inteira;
  • compressível — ρ\rho muda com a pressão. É o caso dos gases, e só entra em problemas específicos.

03 Viscosidade dinâmica e cinemática

A ideia. A viscosidade já apareceu como a constante da lei de Newton. Aqui ela ganha uma segunda versão — a cinemática —, e é essa dupla que as provas exploram: o enunciado dá ν\nu (cinemática) e a fórmula do cisalhamento pede μ\mu (dinâmica). Quem não souber a ponte entre as duas trava numa questão de meio ponto.

A ponte entre as duas

  ν=μρ  ⟺μ=ν ρ\boxed{\;\nu = \frac{\mu}{\rho}\;} \qquad\Longleftrightarrow\qquad \mu = \nu\,\rho

O nome “cinemática” tem motivo: a unidade m2/s\mathrm{m^2/s} não traz massa nem força, só comprimento e tempo — as dimensões da cinemática. E é essa versão que aparece no número de Reynolds, mais adiante na cadeira.

Como a temperatura age — e por que líquido e gás são opostos

Esta é a pergunta conceitual mais frequente do 1º EE, e a resposta depende de de onde vem a viscosidade em cada caso:

04 Fluidos newtonianos e não newtonianos

A ideia. A lei de Newton da viscosidade diz que τ\tau é proporcional a dv/dydv/dy. Isso é uma hipótese, não uma verdade universal: existem fluidos em que a razão τ/(dv/dy)\tau / (dv/dy) não é constante. Classificar um fluido é dizer qual é a forma da curva τ\tau contra dv/dydv/dy — e essa curva é o que a prova pede para desenhar ou identificar.

Newtoniano: a reta pela origem

τ=μ dvdycom μ=constante\tau = \mu\,\frac{dv}{dy} \qquad \text{com } \mu = \text{constante}

No diagrama τ\tau contra dv/dydv/dy, é uma reta que passa pela origem, e a inclinação é μ\mu. Água, ar e óleos lubrificantes são newtonianos — e é essa a hipótese de toda a cadeira, salvo aviso contrário.

Não newtoniano: a viscosidade aparente muda

05 Tensão superficial e capilaridade

A ideia. Uma molécula no meio do líquido é puxada igualmente em todas as direções pelas vizinhas, e a resultante é nula. Uma molécula na superfície não tem vizinhas acima: a resultante aponta para dentro. O efeito é que a superfície se comporta como uma membrana esticada — é ela que segura a gota redonda, o inseto sobre a água e a coluna que sobe sozinha num tubo fino. Tudo nesta seção é consequência desse desequilíbrio.

A tensão superficial é força por comprimento, não por área

Esta é a primeira armadilha da seção: σ\sigma não é pressão. A unidade é N/m\mathrm{N/m}, e o comprimento em questão é o da linha onde a superfície se prende — o perímetro do tubo, a borda da gota, o contorno da lâmina.

  σ=FL  \boxed{\;\sigma = \frac{F}{L}\;}

Alguns valores a 20 ∘C20\ ^\circ\mathrm{C}, que dão a escala do fenômeno:

líquido (em contato com ar)tensão superficial
água0,0728 N/m0{,}0728\ \mathrm{N/m}
glicerina0,063 N/m0{,}063\ \mathrm{N/m}
álcool etílico0,022 N/m0{,}022\ \mathrm{N/m}
mercúrio≈0,48 N/m\approx 0{,}48\ \mathrm{N/m}

A tensão superficial cai quando a temperatura sobe — é o mesmo motivo da viscosidade dos líquidos: aquecer enfraquece a coesão. E cai bastante com detergente, que é exatamente o que um tensoativo faz.

Molhamento: o ângulo de contato decide tudo

Na linha onde líquido, sólido e ar se encontram, duas forças disputam: a coesão (líquido com líquido) e a adesão (líquido com a parede). Quem vencer define o formato do menisco e o sinal de tudo o que vem depois.

θh > 0água · molha · θ < 90°θh < 0mercúrio · não molha · θ > 90°

O mesmo tubo, o mesmo diâmetro, dois líquidos. O que muda é o ângulo de contato: à esquerda ele é agudo e o menisco é côncavo, à direita é obtuso e o menisco é convexo. A altura troca de sinal junto com o cos⁡θ\cos\theta.

Capilaridade: a lei de Jurin

Num tubo fino mergulhado num líquido, a membrana superficial se prende à parede ao longo de todo o perímetro 2πr2\pi r e puxa a coluna, inclinada de θ\theta. Só a componente vertical sustenta o peso:

σ (2πr)cos⁡θ⏟o que a membrana segura  =  γ (πr2h)⏟peso da coluna\underbrace{\sigma\,(2\pi r)\cos\theta}_{\text{o que a membrana segura}} \;=\; \underbrace{\gamma\,(\pi r^2 h)}_{\text{peso da coluna}}

Cortando πr\pi r dos dois lados:

  h=2σcos⁡θγ r=4σcos⁡θγ d  \boxed{\;h = \frac{2\sigma\cos\theta}{\gamma\,r} = \frac{4\sigma\cos\theta}{\gamma\,d}\;}

A gota, a bolha e o jato

A mesma membrana comprime o que ela envolve. Equilibrando metade de uma gota — a pressão empurra a área πR2\pi R^2, a tensão segura o perímetro 2πR2\pi R:

Δp (πR2)=σ (2πR)⟹Δp=2σR\Delta p\,(\pi R^2) = \sigma\,(2\pi R) \qquad\Longrightarrow\qquad \Delta p = \frac{2\sigma}{R}
geometriadiferença de pressão
gota, ou bolha dentro do líquidoΔp=2σ/R\Delta p = 2\sigma/R
bolha de sabão (duas superfícies)Δp=4σ/R\Delta p = 4\sigma/R
jato cilíndricoΔp=σ/R\Delta p = \sigma/R

A bolha de sabão tem duas superfícies, a de dentro e a de fora, e por isso dobra. O jato tem uma curvatura só, e por isso cai pela metade. Em todos, o que importa é o 1/R1/R: quanto menor a gota, maior a pressão interna — é por isso que gotas pequenas se juntam nas grandes, e não o contrário.

06 Pressão, escalas de medida e carga de pressão

A ideia. Estática dos fluidos é o estudo do fluido em repouso: velocidade nula em todos os pontos e, por consequência, tensão de cisalhamento nula. Sem cisalhamento sobra uma única força de superfície — a pressão, sempre normal à superfície. Toda esta unidade é a consequência disso.

Pressão só existe em fluido

O equivalente da pressão num sólido chama-se tensão normal. A palavra “pressão” reserva-se a fluidos, e a razão é a do parágrafo de abertura: num fluido em repouso, a força normal é a única que sobra.

As duas escalas, e a soma que as liga

Pressão é sempre medida em relação a alguma referência, e há duas em uso:

  pabs=patm+pef  \boxed{\;p_{abs} = p_{atm} + p_{ef}\;}
  • absoluta — conta do vácuo (zero absoluto) para cima. Nunca é negativa;
  • efetiva — conta da atmosfera local. Pode ser negativa, e aí se diz que há vácuo parcial (a pressão está abaixo da atmosférica).

Carga de pressão: pressão medida em metros

Divida uma pressão pelo peso específico e o resultado tem dimensão de comprimento:

h=pγh = \frac{p}{\gamma}

Esse hh é a carga de pressão — a altura da coluna daquele fluido que a pressão pp consegue sustentar. É por isso que existem unidades como mmHg\mathrm{mmHg} e mca\mathrm{mca} (metro de coluna de água): elas são pressões escritas como altura.

07 Lei de Stevin e lei de Pascal

A ideia. Duas leis que parecem próximas e dizem coisas diferentes — e a prova gosta exatamente dessa confusão. Stevin governa a variação da pressão na vertical; Pascal governa a transmissão da pressão para todos os pontos. Uma explica por que a pressão cresce com a profundidade; a outra, por que um macaco hidráulico levanta um carro.

Lei de Stevin

A diferença de pressão entre dois pontos de um fluido em repouso é igual ao produto do peso específico pela diferença de cotas.

  pN−pM=γ Δh  \boxed{\;p_N - p_M = \gamma\,\Delta h\;}

E, no caso mais comum — superfície livre aberta para a atmosfera, ponto a uma profundidade hh:

p=γ h(efetiva)p=p0+γ h(com p0 na superfıˊcie)p = \gamma\,h \qquad\text{(efetiva)} \qquad\qquad p = p_0 + \gamma\,h \qquad\text{(com } p_0 \text{ na superfície)}

Lei de Pascal

A pressão aplicada num ponto de um fluido em repouso transmite-se integralmente a todos os pontos do fluido.

A aplicação prática é a prensa hidráulica: dois êmbolos de áreas diferentes ligados pelo mesmo fluido. A pressão é a mesma nos dois, então

p1=p2⟹  F1A1=F2A2  p_1 = p_2 \qquad\Longrightarrow\qquad \boxed{\;\frac{F_1}{A_1} = \frac{F_2}{A_2}\;}

08 Manômetros e a equação manométrica

A ideia. Aqui a estática deixa de ser conceito e passa a valer 2 pontos de prova. A equação manométrica é uma aplicação repetida de Stevin, feita com um método mecânico: caminhar pelo tubo de um ponto ao outro, somando quando desce e subtraindo quando sobe. Quem faz isso com disciplina não erra; quem tenta “ver” a resposta erra o sinal.

Os instrumentos, e para que serve cada um

  • barômetro — mede a pressão atmosférica. O de mercúrio, de Torricelli (1643): ao nível do mar a coluna sobe 760 mmHg760\ \mathrm{mmHg};
  • manômetro metálico (Bourdon) — mede pela deformação de um tubo metálico. Indica pint−pextp_{int} - p_{ext}, ou seja, pressão efetiva;
  • piezômetro — tubo de vidro simples ligado ao reservatório; lê-se a carga de pressão direto na altura da coluna, p=γhp = \gamma h;
  • manômetro em U — resolve as três limitações do piezômetro;
  • manômetro diferencial — em U mas com os dois ramos ligados a reservatórios; mede pA−pBp_A - p_B quando nenhuma das duas pressões é conhecida.

A equação manométrica: o método de caminhar

09 Força em superfície plana submersa e centro de pressão

A ideia. A pressão cresce com a profundidade, então a força sobre uma comporta não está distribuída por igual: aperta mais embaixo. Essa unidade responde a duas perguntas separadas — quanto é a força resultante e onde ela age. A primeira resposta é surpreendentemente simples; a segunda é a que derruba prova, porque o ponto de aplicação não é o centro de gravidade.

Quanto: a força resultante

Integrando a pressão sobre a área e reconhecendo a definição de centroide, chega-se a um resultado curto:

F=∫p dA=γsen⁡θ∫y dA=γsen⁡θ yˉ AF = \int p\,dA = \gamma \operatorname{sen}\theta \int y\,dA = \gamma \operatorname{sen}\theta\,\bar{y}\,A

E como hˉ=yˉsen⁡θ\bar{h} = \bar{y}\operatorname{sen}\theta:

  F=γ hˉ A=pˉ A  \boxed{\;F = \gamma\,\bar{h}\,A = \bar{p}\,A\;}

Onde: o centro de pressão

O CP é o ponto onde a resultante deveria ser aplicada para produzir o mesmo momento que a distribuição real. Igualando os momentos:

F yCP=γsen⁡θ∫y2 dA=γsen⁡θ I0⟹yCP=I0yˉ AF\,y_{CP} = \gamma \operatorname{sen}\theta \int y^2\,dA = \gamma \operatorname{sen}\theta\,I_0 \qquad\Longrightarrow\qquad y_{CP} = \frac{I_0}{\bar{y}\,A}

Aplicando o teorema de Steiner, I0=ICG+yˉ2AI_0 = I_{CG} + \bar{y}^2 A:

  yCP=yˉ+ICGyˉ A  \boxed{\;y_{CP} = \bar{y} + \frac{I_{CG}}{\bar{y}\,A}\;}

10 Força em superfície curva submersa

A ideia. Numa superfície curva a pressão continua sempre normal à parede — mas a normal muda de direção ponto a ponto. Somar vetores que giram não dá para fazer com uma fórmula única, então o método é outro: decompor em duas direções e tratar cada componente com o que já se sabe. A horizontal cai na seção anterior; a vertical vira um problema de peso de volume.

A componente horizontal: projete e esqueça a curva

  FH=γ hˉ Aproj  \boxed{\;F_H = \gamma\,\bar{h}\,A_{proj}\;}

É a mesma fórmula da superfície plana, aplicada à projeção da superfície curva num plano vertical.

A componente vertical: é peso de líquido

  FV=γ V  \boxed{\;F_V = \gamma\,V\;}

onde VV é o volume de líquido entre a superfície curva e a superfície livre.

A resultante

FR=FH2+FV2tan⁡α=FVFHF_R = \sqrt{F_H^2 + F_V^2} \qquad\qquad \tan\alpha = \frac{F_V}{F_H}

onde α\alpha é o ângulo da resultante com a horizontal.

11 Empuxo e equilíbrio de corpos submersos

A ideia. Empuxo não é uma força nova: é o resultado líquido das pressões que o fluido faz na superfície do corpo. Como a pressão cresce com a profundidade, o empurrão de baixo vence o de cima, e sobra uma força para cima. O princípio de Arquimedes é essa conta já resolvida — e ela depende só do volume deslocado, não do que há dentro do corpo.

O princípio de Arquimedes

  E=γf Vdes  \boxed{\;E = \gamma_f\,V_{des}\;}

Todo corpo imerso num fluido sofre uma força vertical para cima igual ao peso do fluido deslocado.

As três situações

Comparando empuxo com peso, para um corpo totalmente imerso:

  • E>GE > G (isto é, γf>γc\gamma_f > \gamma_c) → o corpo sobe e passa a flutuar;
  • E=GE = G (γf=γc\gamma_f = \gamma_c) → equilíbrio indiferente: fica onde for colocado;
  • E<GE < G (γf<γc\gamma_f < \gamma_c) → o corpo afunda.

Peso aparente

Um corpo pendurado numa balança dentro do fluido “pesa” menos:

Gap=G−EG_{ap} = G - E

É a leitura da balança, e é uma das formas favoritas de o enunciado dar o empuxo sem dizer o nome dele.

Estabilidade: onde agem as duas forças

O peso age no centro de gravidade (CGCG) do corpo; o empuxo age no centro de carena (CC), que é o centroide da parte submersa. Quando o corpo inclina, a parte submersa muda de forma e CC se desloca — o CGCG não.

12 Tipos e regimes de escoamento; número de Reynolds

A ideia. Sai o repouso, entra o movimento. Antes de escrever qualquer equação para um fluido escoando é preciso classificar o escoamento, porque as hipóteses que você pode usar depois dependem dessa classificação. E o classificador mais importante da cadeira é um número adimensional que compara duas forças: Reynolds.

As classificações que o enunciado usa

Trajetória e linha de corrente

  • trajetória — o caminho percorrido por uma partícula ao longo do tempo;
  • linha de corrente — a linha tangente aos vetores velocidade de várias partículas, num mesmo instante.

Laminar e turbulento: o experimento de Reynolds

Injetando corante num tubo de vidro com água escoando:

  • em velocidade baixa, o filete de corante segue reto, sem se misturar — as partículas escoam em camadas paralelas. É o laminar;
  • aumentando a velocidade, o filete começa a oscilar e depois se dissolve por toda a seção. É o turbulento, com movimento errático e mistura intensa.
  Re=ρ v Dμ=v Dν  \boxed{\;Re = \frac{\rho\,v\,D}{\mu} = \frac{v\,D}{\nu}\;}

13 Vazão volumétrica, vazão mássica e velocidade média

A ideia. Vazão é a grandeza que amarra a cadeira inteira: ela aparece na continuidade, em Bernoulli, no cálculo de perda de carga e na potência da bomba. E a definição de velocidade média é o que permite tratar um perfil de velocidades complicado como se fosse um número só.

As três vazões

  Q=v A  Qm=ρ Q=ρ v AG=γ Q\boxed{\;Q = v\,A\;} \qquad\qquad Q_m = \rho\,Q = \rho\,v\,A \qquad\qquad G = \gamma\,Q

Velocidade média: a definição que salva a conta

A velocidade não é a mesma em todos os pontos da seção: por causa da aderência, ela é zero na parede e máxima no centro. A velocidade média é definida para que a vazão dê certo:

v=1A∫Avlocal dA⟺Q=∫Avlocal dA=v Av = \frac{1}{A}\int_A v_{\text{local}}\,dA \qquad\Longleftrightarrow\qquad Q = \int_A v_{\text{local}}\,dA = v\,A

14 Equação da continuidade para regime permanente

A ideia. É a conservação da massa escrita para um escoamento. A frase é banal — o que entra tem de sair —, mas a consequência não é: se o tubo estreita, o fluido acelera. É esse aumento de velocidade que, na próxima unidade, vai fazer a pressão cair (Bernoulli) e explicar o funcionamento de um Venturi.

A forma geral e a que se usa

Em regime permanente, a massa que entra por unidade de tempo iguala a que sai:

ρ1 v1 A1=ρ2 v2 A2⟺Qm1=Qm2\rho_1\,v_1\,A_1 = \rho_2\,v_2\,A_2 \qquad\Longleftrightarrow\qquad Q_{m1} = Q_{m2}

Para fluido incompressível (ρ1=ρ2\rho_1 = \rho_2), o ρ\rho cancela:

  v1 A1=v2 A2=Q=constante  \boxed{\;v_1\,A_1 = v_2\,A_2 = Q = \text{constante}\;}

15 Equação de Bernoulli, carga total e o tubo de Venturi

A ideia. Bernoulli é a conservação de energia escrita em metros. Cada termo é uma “carga” — uma altura equivalente — e a soma das três é constante ao longo do escoamento de um fluido ideal. A força da equação está em quê ela permite: sabendo a geometria (pela continuidade), você descobre a pressão sem saber nada sobre a força que empurra o fluido.

A equação

  z1+p1γ+v122g  =  z2+p2γ+v222g  =  H  \boxed{\;z_1 + \frac{p_1}{\gamma} + \frac{v_1^2}{2g} \;=\; z_2 + \frac{p_2}{\gamma} + \frac{v_2^2}{2g} \;=\; H\;}

Por que “todos os termos em metros”

Dividir a energia pelo peso do fluido transforma joules em metros:

energiapeso=JN=N⋅mN=m\frac{\text{energia}}{\text{peso}} = \frac{\mathrm{J}}{\mathrm{N}} = \frac{\mathrm{N \cdot m}}{\mathrm{N}} = \mathrm{m}

O tubo de Venturi

É a aplicação clássica, e cai em prova em toda variação possível. Um estrangulamento na tubulação: pela continuidade a velocidade aumenta na garganta; por Bernoulli, se a carga cinética cresce e a cota não muda, a carga de pressão tem de cair.

p1−p2γ=v22−v122g\frac{p_1 - p_2}{\gamma} = \frac{v_2^2 - v_1^2}{2g}

Medindo o desnível num manômetro diferencial ligado entre (1) e (2), obtém-se a vazão — é assim que um Venturi funciona como medidor.

16 Equação da energia com máquina: bombas e turbinas

A ideia. Bernoulli puro só serve a um mundo sem atrito e sem máquinas. A equação da energia real acrescenta dois termos: o que a máquina entrega ou retira, e o que o atrito dissipa. Com esses dois termos a equação deixa de ser exercício e passa a dimensionar bomba de verdade — que é o que a prova pede quando fala em “potência requerida”.

A equação completa

  z1+p1γ+v122g+HM  =  z2+p2γ+v222g+Hp1,2  \boxed{\;z_1 + \frac{p_1}{\gamma} + \frac{v_1^2}{2g} + H_M \;=\; z_2 + \frac{p_2}{\gamma} + \frac{v_2^2}{2g} + H_{p_{1,2}}\;}

Lê-se: a carga em (1), mais o que a máquina põe, é a carga em (2) mais o que o atrito comeu.

Potência: três versões da mesma fórmula

A potência útil, transferida ao fluido:

Nuˊtil=γ Q HMN_{\text{útil}} = \gamma\,Q\,H_M

Máquina real tem perdas internas, e aí entra o rendimento:

  Nbomba=γ Q HBη  Nturbina=η γ Q HT\boxed{\;N_{\text{bomba}} = \frac{\gamma\,Q\,H_B}{\eta}\;} \qquad\qquad N_{\text{turbina}} = \eta\,\gamma\,Q\,H_T

17 Perda de carga distribuída: Darcy-Weisbach e o diagrama de Moody

A ideia. O termo HpH_p da seção anterior apareceu como um número dado. Aqui ele é calculado. A perda de carga tem duas origens: o atrito ao longo do tubo reto (distribuída) e as singularidades como curvas e válvulas (localizada, próxima seção). A distribuída é governada por uma fórmula única, e a dificuldade toda está em achar um coeficiente: o fator de atrito.

A fórmula universal

  Hf=f LD v22g  \boxed{\;H_f = f\,\frac{L}{D}\,\frac{v^2}{2g}\;}

Como achar ff

A fórmula de Hazen-Williams

Em hidráulica de água a fórmula empírica de Hazen-Williams aparece com frequência (é a preferida em projeto de redes):

Hf=10,65 Q1,85C1,85 D4,87 LH_f = 10{,}65\,\frac{Q^{1,85}}{C^{1,85}\,D^{4,87}}\,L

com CC o coeficiente de Hazen-Williams (depende do material: ≈130\approx 130 para PVC, ≈100\approx 100 para ferro fundido usado). Só vale para água em regime turbulento — não é universal como Darcy.

18 Perdas de carga localizadas e comprimento equivalente

A ideia. Cada curva, válvula, registro ou mudança de seção obriga o fluido a mudar de direção ou de velocidade bruscamente, e isso gera turbilhonamento — energia que vira calor. Numa instalação curta e cheia de conexões, essas perdas “pontuais” podem passar a distribuída. Há dois métodos para contabilizá-las, e a prova pede saber os dois.

Método 1 — o coeficiente KK

  HL=K v22g  \boxed{\;H_L = K\,\frac{v^2}{2g}\;}

Cada peça tem seu KK, tabelado. Some as perdas de todas:

HL=(∑Ki)v22gH_L = \left(\sum K_i\right)\frac{v^2}{2g}

Método 2 — o comprimento equivalente

Trocar cada peça por um trecho de tubo reto que perderia o mesmo:

Leq=K DfL_{eq} = K\,\frac{D}{f}

Aí a perda total sai de uma única aplicação de Darcy, com o comprimento somado:

  Hptotal=f Lreal+∑LeqD v22g  \boxed{\;H_{p_{total}} = f\,\frac{L_{real} + \sum L_{eq}}{D}\,\frac{v^2}{2g}\;}

A perda total, e quando desprezar as localizadas

Hptotal=Hf+HLH_{p_{total}} = H_f + H_L

19 Equação da quantidade de movimento para regime permanente

A ideia. Continuidade é massa, Bernoulli é energia — falta a segunda lei de Newton escrita para um escoamento. Ela responde à pergunta que as outras duas não respondem: qual força o fluido faz na estrutura? É o que dimensiona o bloco de ancoragem de uma curva, a força num jato contra uma pá e o esforço num redutor de tubulação.

A equação

Para regime permanente, uma entrada e uma saída:

  F⃗R=Qm (v⃗2−v⃗1)=ρ Q (v⃗2−v⃗1)  \boxed{\;\vec{F}_R = Q_m\,(\vec{v}_2 - \vec{v}_1) = \rho\,Q\,(\vec{v}_2 - \vec{v}_1)\;}

Em componentes, que é como se usa:

FRx=ρ Q (v2x−v1x)FRy=ρ Q (v2y−v1y)F_{Rx} = \rho\,Q\,(v_{2x} - v_{1x}) \qquad\qquad F_{Ry} = \rho\,Q\,(v_{2y} - v_{1y})

O que entra em F⃗R\vec{F}_R

A resultante inclui todas as forças externas ao volume de controle:

F⃗R=F⃗p1+F⃗p2+G⃗+F⃗est\vec{F}_R = \vec{F}_{p_1} + \vec{F}_{p_2} + \vec{G} + \vec{F}_{est}
  • F⃗p=p A\vec{F}_{p} = p\,A — forças de pressão nas seções de entrada e saída (use pressão efetiva);
  • G⃗\vec{G} — peso do fluido no volume de controle;
  • F⃗est\vec{F}_{est} — a força que a estrutura faz no fluido. É a incógnita.

20 Análise dimensional, números adimensionais e o teorema dos π

A ideia. Alguns problemas de fluidos têm variáveis demais para resolver analiticamente e caro demais para testar em tamanho real. A análise dimensional é a ferramenta que reduz o número de variáveis antes de qualquer experimento: em vez de estudar sete grandezas separadas, estuda-se um punhado de grupos adimensionais. É o que permite ensaiar um modelo pequeno e extrapolar para a obra.

Dimensões das grandezas usuais

O teorema dos π\pi de Buckingham

Um problema com nn variáveis, envolvendo kk dimensões primárias, pode ser reescrito com n−kn - k grupos adimensionais independentes.

Os adimensionais que têm nome

21 Semelhança e teoria dos modelos

A ideia. Ninguém constrói uma barragem para descobrir se ela funciona. Constrói-se um modelo reduzido, ensaia-se, e transfere-se o resultado para o protótipo. A teoria dos modelos é o conjunto de regras que garante que essa transferência é legítima — e a regra central é: os adimensionais relevantes têm de ser iguais nos dois.

Os três níveis de semelhança

A condição de projeto

  πi,m=πi,p  \boxed{\;\pi_{i,m} = \pi_{i,p}\;}

para cada adimensional relevante. Na prática, iguala-se o que domina o fenômeno:

Rem=Rep(escoamento confinado, viscosidade dominante)Re_m = Re_p \qquad\text{(escoamento confinado, viscosidade dominante)}Frm=Frp(superfıˊcie livre, gravidade dominante)Fr_m = Fr_p \qquad\text{(superfície livre, gravidade dominante)}

22 Análise diferencial: Navier-Stokes e aplicações

A ideia. Até aqui a cadeira usou volumes de controle finitos: entra em (1), sai em (2), e o que acontece no meio não importa. A análise diferencial faz o oposto — escreve as leis para um elemento infinitesimal e obtém o campo de velocidades ponto a ponto. O preço é uma equação diferencial parcial não linear; o ganho é a descrição completa do escoamento.

A derivada material

A aceleração de uma partícula de fluido tem duas parcelas — e essa distinção é o coração da análise diferencial:

Dv⃗Dt=∂v⃗∂t⏟local+(v⃗⋅∇)v⃗⏟convectiva\frac{D\vec{v}}{Dt} = \underbrace{\frac{\partial \vec{v}}{\partial t}}_{\text{local}} + \underbrace{(\vec{v} \cdot \nabla)\vec{v}}_{\text{convectiva}}

A continuidade em forma diferencial

∂ρ∂t+∇⋅(ρv⃗)=0→ incompressıˊvel   ∇⋅v⃗=0  \frac{\partial \rho}{\partial t} + \nabla \cdot (\rho\vec{v}) = 0 \qquad\xrightarrow{\ \text{incompressível}\ }\qquad \boxed{\;\nabla \cdot \vec{v} = 0\;}

Ou seja ∂u∂x+∂v∂y+∂w∂z=0\dfrac{\partial u}{\partial x} + \dfrac{\partial v}{\partial y} + \dfrac{\partial w}{\partial z} = 0 — é este o teste que a prova pede para verificar se um campo dado é fisicamente possível.

A equação de Navier-Stokes

Para fluido newtoniano e incompressível com μ\mu constante:

  ρDv⃗Dt=−∇p+μ∇2v⃗+ρg⃗  \boxed{\;\rho\frac{D\vec{v}}{Dt} = -\nabla p + \mu\nabla^2\vec{v} + \rho\vec{g}\;}

A aplicação clássica: escoamento entre placas

Para escoamento laminar, permanente e unidirecional entre duas placas paralelas, quase todos os termos morrem e sobra uma equação ordinária simples:

d2udy2=1μdpdx\frac{d^2u}{dy^2} = \frac{1}{\mu}\frac{dp}{dx}

Integrando duas vezes com u=0u = 0 nas paredes (aderência), obtém-se o perfil parabólico — e, dele, o resultado de Hagen-Poiseuille que a seção de perda de carga usou:

v=vmax2f=64Rev = \frac{v_{max}}{2} \qquad\qquad f = \frac{64}{Re}

23 Os três modos de transferência de calor

A ideia. A cadeira muda de assunto, mas não de estrutura: transporte de calor obedece à mesma lógica do transporte de quantidade de movimento — um fluxo proporcional a um gradiente. Calor é energia em trânsito por diferença de temperatura, e há exatamente três mecanismos para ele viajar. Identificar qual está em jogo é o primeiro passo de qualquer questão desta unidade.

Condução

Transferência dentro de um sólido ou de um fluido estacionário, por contato direto — a energia passa de molécula a molécula, sem que a matéria se desloque.

qx′′=−k ∂T∂xqx=−k A ∂T∂xq''_x = -k\,\frac{\partial T}{\partial x} \qquad\qquad q_x = -k\,A\,\frac{\partial T}{\partial x}

Esta é a lei de Fourier, e a próxima seção a desenvolve.

Convecção

Transferência entre uma superfície e um fluido em movimento. Aqui a matéria se desloca e carrega energia com ela.

  q=h A (Ts−T∞)  \boxed{\;q = h\,A\,(T_s - T_\infty)\;}

com TsT_s a temperatura da superfície e T∞T_\infty a do fluido longe dela (lei do resfriamento de Newton).

Radiação

Transferência por ondas eletromagnéticas, emitidas por qualquer corpo com temperatura acima do zero absoluto. Não precisa de meio material — é assim que o calor do Sol chega à Terra.

q=ε σ A (Ts4−Tviz4)q = \varepsilon\,\sigma\,A\,(T_s^4 - T_{viz}^4)

24 Lei de Fourier, condutividade e resistência térmica

A ideia. A lei de Fourier é a lei de Newton da viscosidade com outros nomes: fluxo proporcional a gradiente. E há um ganho enorme escondido nela — se o regime é permanente e o perfil é linear, a condução vira um circuito elétrico, com “resistências térmicas” que se somam em série e em paralelo exatamente como resistores. Essa analogia é a ferramenta mais poderosa desta unidade.

A lei de Fourier e o caso linear

q=−k A dTdxq = -k\,A\,\frac{dT}{dx}

Em regime permanente, numa parede plana de espessura LL com faces a T1T_1 e T2T_2, o perfil de temperatura é linear e a derivada vira razão:

  q=k A T1−T2L  \boxed{\;q = k\,A\,\frac{T_1 - T_2}{L}\;}

A analogia elétrica

Reescrevendo a lei de Fourier no formato “corrente = tensão / resistência”:

q=ΔTRtcom  Rt=Lk A  q = \frac{\Delta T}{R_t} \qquad\text{com}\qquad \boxed{\;R_t = \frac{L}{k\,A}\;}

A resistência de convecção

A convecção também vira resistência, e é isso que permite montar o circuito completo da parede:

q=h A ΔT=ΔTRconv⟹  Rconv=1h A  q = h\,A\,\Delta T = \frac{\Delta T}{R_{conv}} \qquad\Longrightarrow\qquad \boxed{\;R_{conv} = \frac{1}{h\,A}\;}

25 Condução em paredes compostas e em tubulações

A ideia. Com o dicionário elétrico da seção anterior, resolver uma parede de três camadas é somar resistências. O caso do tubo é o único que exige cuidado extra: ali a área cresce com o raio, o perfil de temperatura deixa de ser linear e a resistência ganha um logaritmo. É a fórmula que a prova de 2º EE cobra com mais frequência nesta unidade.

Parede composta: resistências em série

q=T1−Tn+1∑Ri=ΔTtotalL1k1A+L2k2A+L3k3A+…q = \frac{T_1 - T_{n+1}}{\sum R_i} = \frac{\Delta T_{total}}{\dfrac{L_1}{k_1 A} + \dfrac{L_2}{k_2 A} + \dfrac{L_3}{k_3 A} + \ldots}

Tubo cilíndrico: onde entra o logaritmo

Na parede plana a área é constante; no tubo, A=2πrLA = 2\pi r L cresce com o raio. Integrando a lei de Fourier com essa área variável:

q=2πkL (T1−T2)ln⁡(r2/r1)⟺  Rtubo=ln⁡(r2/r1)2πkL  q = \frac{2\pi k L\,(T_1 - T_2)}{\ln(r_2/r_1)} \qquad\Longleftrightarrow\qquad \boxed{\;R_{tubo} = \frac{\ln(r_2/r_1)}{2\pi k L}\;}

26 Condução em esferas e o raio crítico de isolamento

A ideia. O tubo trouxe o logaritmo porque a área cresce com o raio. Na esfera a área cresce com o raio ao quadrado, e a resistência ganha uma forma ainda diferente. E, nos dois casos curvos, aparece um efeito que não existe na parede plana: acrescentar isolante pode aumentar a perda de calor. O limite entre uma coisa e outra é o raio crítico.

A resistência de uma casca esférica

Na esfera, A=4πr2A = 4\pi r^2. Integrando Fourier com essa área:

q=−k (4πr2) dTdr⟹q∫r1r2drr2=−4πk∫T1T2dTq = -k\,(4\pi r^2)\,\frac{dT}{dr} \qquad\Longrightarrow\qquad q\int_{r_1}^{r_2}\frac{dr}{r^2} = -4\pi k\int_{T_1}^{T_2} dTq(1r1−1r2)=4πk (T1−T2)q\left(\frac{1}{r_1} - \frac{1}{r_2}\right) = 4\pi k\,(T_1 - T_2)  Resfera=1r1−1r24πk  \boxed{\;R_{esfera} = \frac{\dfrac{1}{r_1} - \dfrac{1}{r_2}}{4\pi k}\;}

Convecção na face externa

A convecção sempre usa a área da face onde ela acontece:

Rconv=1he AextcomAext={2πr3L(cilindro)4πr32(esfera)R_{conv} = \frac{1}{h_e\,A_{ext}} \qquad\text{com}\qquad A_{ext} = \begin{cases} 2\pi r_3 L & \text{(cilindro)}\\[4pt] 4\pi r_3^2 & \text{(esfera)} \end{cases}

Camadas e convecção entram todas em série:

q=T1−T∞R1+R2+…+Rconvq = \frac{T_1 - T_\infty}{R_1 + R_2 + \ldots + R_{conv}}

O raio crítico de isolamento

Aqui está o efeito que não existe na parede plana. Acrescentar isolante faz duas coisas opostas:

  • aumenta a resistência de condução (mais material a atravessar);
  • diminui a resistência de convecção, porque a área externa fica maior.

Enquanto o segundo efeito vence, mais isolante significa mais perda de calor. O raio em que os dois se equilibram — em que a resistência total é mínima e o fluxo é máximo — é o raio crítico. Derivando RtotalR_{total} em relação a rr e igualando a zero:

  rc=kisohe  (cilindro)rc=2 kisohe  (esfera)  \boxed{\;r_c = \frac{k_{iso}}{h_e}\;\text{(cilindro)} \qquad\qquad r_c = \frac{2\,k_{iso}}{h_e}\;\text{(esfera)}\;}

27 Condução com geração de calor e as condições de contorno

A ideia. Tudo até aqui supôs que o calor só atravessa o material. Se o material produz calor — resistência elétrica dissipando, reação química, decaimento nuclear —, o perfil de temperatura deixa de ser reto e vira parábola. E, para resolver a equação diferencial que aparece, é preciso dizer o que acontece nas fronteiras: são as condições de contorno, que a prova cobra pelo nome.

A equação, e por que a parábola

O balanço de energia num elemento de parede plana, em regime permanente (sem acúmulo) e com geração, é

d2Tdx2⏟conduc¸a˜o+q˙k⏟gerac¸a˜o=0\underbrace{\frac{d^2T}{dx^2}}_{\text{condução}} + \underbrace{\frac{\dot q}{k}}_{\text{geração}} = 0

Integrando duas vezes:

dTdx=−q˙k x+C1T(x)=−q˙2k x2+C1x+C2\frac{dT}{dx} = -\frac{\dot q}{k}\,x + C_1 \qquad\qquad T(x) = -\frac{\dot q}{2k}\,x^2 + C_1 x + C_2  T(x) eˊ uma paraˊbola;q′′(x)=−k dTdx=q˙ x−k C1 eˊ uma reta  \boxed{\;T(x)\ \text{é uma parábola};\qquad q''(x) = -k\,\frac{dT}{dx} = \dot q\,x - k\,C_1\ \text{é uma reta}\;}

Parede simétrica: o caso resolvido

Para uma parede de semiespessura LL (portanto de −L-L a +L+L), refrigerada igualmente nas duas faces, a simetria dá C1=0C_1 = 0 e T(±L)=TsT(\pm L) = T_s:

T(x)=Ts+q˙ L22k(1−x2L2)T(x) = T_s + \frac{\dot q\,L^2}{2k}\left(1 - \frac{x^2}{L^2}\right)T0=T(0)=Ts+q˙ L22kq′′(L)=q˙ LT_0 = T(0) = T_s + \frac{\dot q\,L^2}{2k} \qquad\qquad q''(L) = \dot q\,L

As três condições de contorno

Resolver a equação diferencial exige duas informações nas fronteiras. Há três tipos, e cada um tem nome próprio:

1ª — Dirichlet (primeiro tipo): temperatura prescrita.

T(0,t)=TsT(0,t) = T_s

A superfície é mantida a uma temperatura conhecida. É o caso de uma face em contato com um fluido em mudança de fase (água fervendo, gelo derretendo), que impõe a sua temperatura.

2ª — Neumann (segundo tipo): fluxo prescrito.

−k ∂T∂x∣0=qs′′-k\,\frac{\partial T}{\partial x}\bigg|_{0} = q''_s

O que se conhece é a taxa de calor na superfície, não a temperatura. Caso particular importantíssimo: superfície adiabática (isolada), em que qs′′=0q''_s = 0 e portanto ∂T/∂x=0\partial T/\partial x = 0 — a mesma condição que a simetria dá no plano central.

3ª — Robin (terceiro tipo, ou mista): convecção na superfície.

−k ∂T∂x∣0=h [T∞−T(0,t)]-k\,\frac{\partial T}{\partial x}\bigg|_{0} = h\,\big[T_\infty - T(0,t)\big]

O calor que chega por condução à superfície é o que sai por convecção dela. Nem a temperatura nem o fluxo são dados: dá-se hh e T∞T_\infty, e a superfície encontra a própria temperatura.

28 Convecção: natural, forçada e o número de Nusselt

A ideia. A lei do resfriamento de Newton, q=hAΔTq = hA\Delta T, esconde toda a dificuldade dentro do hh — que não é propriedade do fluido, e sim resultado do escoamento. Achar hh é o problema central da convecção, e o caminho é sempre o mesmo: calcular adimensionais e usar uma correlação. O adimensional que entrega o hh é o de Nusselt.

Os dois tipos de convecção

Natural (ou livre). O movimento do fluido nasce da própria diferença de temperatura: o fluido aquecido fica menos denso e sobe, o frio desce. Não há nenhum dispositivo mecânico. É o ar subindo de um radiador, a água circulando numa panela antes de ferver.

Forçada. O fluido é impulsionado por um agente externo — ventilador, bomba, compressor, o vento. O escoamento não depende da diferença de temperatura.

O número de Nusselt

  Nu=h Lk  \boxed{\;Nu = \frac{h\,L}{k}\;}

O que ele compara: a troca de calor por convecção contra a troca por condução através da mesma camada de fluido.

  • Nu=1Nu = 1 → só há condução: o fluido está parado (é o limite da condução pura);
  • Nu≫1Nu \gg 1 → a convecção domina, e tanto mais quanto maior o NuNu.

Os adimensionais que alimentam a correlação

Re=ρ v DμPr=να=μ cpkGr=g β (Ts−T∞) L3ν2Re = \frac{\rho\,v\,D}{\mu} \qquad Pr = \frac{\nu}{\alpha} = \frac{\mu\,c_p}{k} \qquad Gr = \frac{g\,\beta\,(T_s - T_\infty)\,L^3}{\nu^2}
  • Reynolds — inércia contra viscosidade; diz se o escoamento é laminar ou turbulento;
  • Prandtl — difusividade de quantidade de movimento contra a de calor; diz qual camada limite é mais espessa, a de velocidade ou a térmica;
  • Grashof — empuxo (sustentação térmica) contra viscosidade; é o “Reynolds da convecção natural”, já que ali não há velocidade imposta para se usar.

E o roteiro é sempre este:

Nu=f(Re, Pr)⏟convecc¸a˜o forc¸adaNu=f(Gr, Pr)⏟convecc¸a˜o natural⟹h=Nu kL⟹q=h A ΔT\underbrace{Nu = f(Re,\,Pr)}_{\text{convecção forçada}} \qquad\qquad \underbrace{Nu = f(Gr,\,Pr)}_{\text{convecção natural}} \qquad\Longrightarrow\qquad h = \frac{Nu\,k}{L} \qquad\Longrightarrow\qquad q = h\,A\,\Delta T

29 Fundamentos do transporte de massa

A ideia. O último assunto da cadeira fecha o círculo que o nome dela sempre anunciou: são três fenômenos de transporte com a mesma estrutura matemática. Quantidade de movimento (Newton), calor (Fourier) e agora massa (Fick) — em todos, um fluxo é proporcional a um gradiente, com uma propriedade do meio como constante. Quem enxerga a analogia aprende esta unidade em minutos.

A lei de Fick

  JA=−DAB dCAdx  \boxed{\;J_A = -D_{AB}\,\frac{dC_A}{dx}\;}

A massa da espécie AA migra da região de maior para a de menor concentração — daí o sinal negativo, exatamente como em Fourier.

Difusão e convecção mássica

Como no calor, há dois mecanismos:

  • difusão — migração molecular por gradiente de concentração, governada por Fick. É o análogo da condução;
  • convecção mássica — transporte pelo movimento do fluido:
NA=hm A (CA,s−CA,∞)N_A = h_m\,A\,(C_{A,s} - C_{A,\infty})

que é a lei do resfriamento de Newton com concentração no lugar de temperatura.

30 Fluxo difusivo, convectivo e absoluto

A ideia. Numa mistura que escoa, uma espécie se move por dois motivos ao mesmo tempo: porque há gradiente de concentração (difusão) e porque o fluido inteiro está indo para algum lado (convecção). A questão típica de 2º EE dá a concentração total, as frações molares nas duas pontas e a velocidade, e pede os três fluxos para as duas espécies. É contabilidade, não dificuldade — desde que a ordem dos passos seja fixa.

Os três fluxos

Difusivo — é Fick, escrito em base molar:

JA′′=−DAB dCAdxJ''_A = -D_{AB}\,\frac{dC_A}{dx}

Convectivo — a espécie é simplesmente carregada pelo escoamento:

NA′′=CA vN''_A = C_A\,v

Absoluto — a soma, porque os dois transportes acontecem ao mesmo tempo:

  NA,abs′′=JA′′+CA v  \boxed{\;N''_{A,abs} = J''_A + C_A\,v\;}

Concentração a partir da pressão parcial

Quando a mistura é de gases ideais, a concentração molar sai da equação de estado, e a fração molar vale também para as pressões:

C=PR TCA=pAR T=xA PR TC = \frac{P}{R\,T} \qquad\qquad C_A = \frac{p_A}{R\,T} = \frac{x_A\,P}{R\,T}

E a massa que atravessa uma área AA num tempo tt é o fluxo molar convertido por massa molar:

m=JA′′ A t MAm = J''_A\,A\,t\,\mathcal{M}_A