Números complexos e a fórmula de Euler, funções de uma variável complexa, funções analíticas e Cauchy-Riemann, funções harmônicas, integrais complexas com o teorema e a fórmula de Cauchy, séries de Taylor e de Laurent, singularidades e resíduos, solução de EDO por séries e Frobenius, séries de Fourier, transformada de Laplace e equações diferenciais parciais por separação de variáveis.
01 Números complexos: forma algébrica, conjugado e módulo
A ideia
x2=−1 não tem solução real, e a matemática do século XVI decidiu não parar aí: chamou de i um objeto com i2=−1 e continuou calculando. O que parecia truque virou a ferramenta central da engenharia — impedância, fasor, resposta em frequência, estabilidade de sistema: tudo isso é conta com número complexo.
O ganho não é resolver x2=−1. É que, admitido o i, todo polinômio de grau n passa a ter exatamente n raízes, a exponencial passa a conter o seno e o cosseno, e integrais reais que resistem a qualquer técnica de Cálculo caem em três linhas. Esta cadeira é a colheita disso.
Forma algébricaz=x+iy,x=Re(z),y=Im(z),i2=−1
O plano de Argand-Gauss
Um complexo é um par ordenado(x,y), e é por isso que ele se desenha como ponto — ou como vetor da origem até o ponto. Some como vetor, subtraia como vetor: z1+z2 é a diagonal do paralelogramo, e ∣z1−z2∣ é a distância entre os dois pontos.
Essa última leitura é a que resolve questão de região: ∣z−z0∣=r é a circunferência de centro z0 e raio r, ∣z−z0∣<r é o disco aberto, e ∣z−i∣=1/2 — que aparece literalmente na integral 4 do 1º EE de 2025.2 — é a circunferência de centro i e raio 21.
As quatro operações
Soma e produto saem de tratar i como uma letra qualquer e trocar i2 por −1:
E a desigualdade triangular, que é o mesmo fato geométrico dos vetores:
∣z1+z2∣≤∣z1∣+∣z2∣,∣z1+z2∣≥∣z1∣−∣z2∣
02 Forma polar, fórmula de Euler, De Moivre e raízes
A ideia
Na forma algébrica, somar é fácil e multiplicar é chato. Na forma polar é o contrário — e como esta cadeira multiplica, eleva a potências e extrai raízes o tempo todo, a forma polar é a que se usa. O motivo é uma linha de trigonometria: multiplicar dois complexos multiplica os módulos e soma os argumentos. Elevar a n vira elevar um número real a n e multiplicar um ângulo por n.
Forma polar e forma exponencialz=r(cosθ+isenθ)=reiθ,r=∣z∣=x2+y2,θ=arg(z)
Achar o argumento sem cair na armadilha do quadrante
A calculadora devolve arctan(y/x) em (−π/2,π/2), isto é, sempre no 1º ou no 4º quadrante. Se o ponto está no 2º ou no 3º, some π ao resultado. O jeito seguro é sempre o mesmo: desenhe o ponto, depois escolha o ângulo.
Fórmula de De Moivrezn=rneinθ=rn(cosnθ+isennθ),n∈Z
Multiplicar por i, por exemplo, é girar 90° sem mudar o tamanho: i=eiπ/2. É por isso que i2=eiπ=−1 — dois giros de 90° dão meia volta.
As n raízes de um complexo
Aqui está a diferença que mais rende ponto: em R, 38 é um número. Em C, z3=8 tem três soluções. A regra: o módulo sai da raiz real, e o argumento se divide em n, espaçado de 2π/n.
As n raízes de índice nzk=nrexp(inθ+2kπ),k=0,1,…,n−1
Geometricamente, as n raízes são os vértices de um polígono regular de n lados, inscrito na circunferência de raio nr — o que dá uma conferência visual instantânea.
03 Exponencial, logaritmo e potências complexas
A ideia
Estender ex ao plano complexo custa uma decisão só — e ela é a fórmula de Euler. O preço vem depois: a exponencial complexa é periódica, e função periódica não tem inversa única. É daí que nasce tudo o que confunde nesta seção: o logaritmo complexo tem infinitos valores, e zα também.
eznunca é zero — ∣ez∣=ex>0 sempre. Logo ez=0 não tem solução;
ez1+z2=ez1ez2, como no caso real;
ez+2πi=ez: a exponencial complexa é periódica de período 2πi. Mostrar isso foi a Questão 01 do 1º EE de 2025.2 e reapareceu na final de 2026.1 — a prova é uma linha: ez+2πi=eze2πi=ez⋅1.
O logaritmo é multivalorado
Se ew=z, então w é um logaritmo de z. Escrevendo z=reiθ e w=u+iv: eu=r e v=θ+2kπ. Ou seja, há um logaritmo para cada volta.
Logaritmo complexo e o ramo principallogz=ln∣z∣+i(Argz+2kπ),k∈ZLogz=ln∣z∣+iArgz,−π<Argz≤π
O corte que se faz no plano para escolher um ramo (por convenção o semieixo real negativo, onde Arg salta de π para −π) é o que a ementa chama de superfície de Riemann: em vez de cortar, imagine folhas empilhadas, uma por volta, coladas ao longo do corte. Cada folha é um ramo, e subir de folha é dar uma volta em torno da origem.
Potências complexas
Com o logaritmo na mão, zα se define pela identidade que já valia nos reais, ab=eblna:
Potência de expoente complexozα=eαlogz(ramo principal: zα=eαLogz)
Resolver ez=w
É o roteiro inverso, e ele aparece em toda prova (ez=4i em 2023.2, ez=1+i na 2ª chamada). Tome logaritmo completo, não o principal, porque a questão pede todas as soluções:
ez=w⟹z=ln∣w∣+i(Argw+2kπ),k∈Z
Para ez=4i: ∣4i∣=4 e Arg(4i)=π/2, logo z=ln4+i(2π+2kπ).
04 Funções trigonométricas e hiperbólicas complexas
A ideia
Nos reais, cosx vive preso entre −1 e 1. No plano complexo essa prisão desaparece: cosz=2tem solução. O motivo é que seno e cosseno complexos não são “ondas” — são combinações de exponenciais, e a exponencial cresce sem limite na direção imaginária.
A definição vem de inverter a fórmula de Euler. De eiz=cosz+isenz e e−iz=cosz−isenz, somando e subtraindo:
Seno e cosseno complexoscosz=2eiz+e−iz,senz=2ieiz−e−iz
Seno e cosseno hiperbólicoscoshz=2ez+e−z,senhz=2ez−e−z
A ponte entre as duas famílias
Trocar z por iz leva uma família na outra — e é essa troca que faz o cosseno complexo estourar o intervalo [−1,1]:
Ou seja: seno e cosseno só têm zeros reais; seno e cosseno hiperbólicos, só zeros imaginários puros. Não há outros no plano.
05 Derivada, funções analíticas e Cauchy-Riemann
A ideia
A derivada complexa tem a mesma definição da real:
f′(z0)=Δz→0limΔzf(z0+Δz)−f(z0)
A diferença está escondida no Δz→0. Na reta há dois caminhos de aproximação; no plano há infinitos, e o limite tem de dar o mesmo valor em todos. Essa exigência é brutal — e é ela que faz a análise complexa ser tão poderosa: derivável uma vez implica derivável infinitas vezes, ser dado numa curva determina a função num domínio inteiro, e assim por diante. Nada disso vale no caso real.
As equações de Cauchy-Riemann
Escreva f(z)=u(x,y)+iv(x,y) e force o limite pelos dois caminhos mais simples: paralelo ao eixo real (Δz=Δx) e paralelo ao imaginário (Δz=iΔy). Igualar os dois resultados dá o sistema:
Equações de Cauchy-Riemann∂x∂u=∂y∂v,∂y∂u=−∂x∂v
E a derivada, quando existe, sai de qualquer uma das duas formas:
f′(z)=ux+ivx=vy−iuy
O que é condição necessária e o que é suficiente
Esta distinção vale ponto em questão teórica:
se f é derivável em z0, então as equações de Cauchy-Riemann valem ali. (necessária)
se u e v têm derivadas parciais contínuas numa vizinhança de z0e satisfazem Cauchy-Riemann ali, então f é analítica em z0. (suficiente)
Só as equações, sem a continuidade das parciais, não basta — mas em prova as funções são polinomiais, exponenciais ou racionais, e a continuidade é imediata. O que se costuma cobrar é: verifique Cauchy-Riemann e conclua.
Onde a analiticidade falha
Para função racional, o roteiro é mecânico: f é analítica em todo ponto menos onde o denominador zera. f(z)=(z−1)101z100 é analítica em C∖{1}; f(z)=(z−π)3eiz, em C∖{π}. Localizar esses pontos e comparar com a curva de integração é o movimento das questões de integral do 1º EE — e é por isso que esta seção vem antes delas.
06 Funções harmônicas e a conjugada harmônica
A ideia
Derive ux=vy em x, derive uy=−vx em y e some: as derivadas mistas de v se cancelam e sobra
Equação de Laplace∇2u=∂x2∂2u+∂y2∂2u=0
O mesmo vale para v. Isto é, parte real e parte imaginária de função analítica são harmônicas — e a recíproca também serve: dada uma harmônica, existe uma função analítica que a tem como parte real.
Por que isso importa em engenharia: a equação de Laplace é a do potencial elétrico sem carga, a do escoamento potencial, a da condução de calor em regime permanente. Toda função analítica é, de graça, um par de soluções desses problemas — e é por esse caminho que variável complexa entra em eletromagnetismo e em mecânica dos fluidos.
O roteiro da conjugada harmônica
É a questão que mais se repete no 1º EE — 2023.2, 2025.2 e 2026.1 pedem exatamente isso. Quatro passos, sempre os mesmos:
Confirme que u é harmônica. Calcule uxx e uyy e some. Se não der zero, não existe conjugada e a questão acaba aqui;
Integre vy=ux em y, tratando x como constante. Aparece uma constante de integração que é uma função de x: φ(x);
Derive o resultado em x e compare com vx=−uy. Isso determina φ′(x);
Integre φ′ e escreva f=u+iv, com uma constante real c sobrando.
07 Integral de linha complexa e parametrização
A ideia
Integrar no plano complexo é integrar ao longo de uma curva, não de um intervalo. A definição é a de integral de linha: parametrize a curva, troque z e dz pelo parâmetro, e caia numa integral real comum.
Integral ao longo de uma curva∫γf(z)dz=∫abf(z(t))z′(t)dt,z(t),t∈[a,b]
As três parametrizações que resolvem tudo
Segmento de reta de z0 a z1:
z(t)=z0+t(z1−z0),t∈[0,1],dz=(z1−z0)dt
Circunferência de centro z0 e raio R, anti-horária:
z(t)=z0+Reit,t∈[0,2π],dz=iReitdt
Arco de circunferência — a mesma coisa, com t variando só no trecho desejado.
Reconhecer a curva pela notação é meio caminho: ∣z∣=1 é a circunferência unitária, ∣z−i∣=1/2 tem centro i e raio 21, e γ(t)=i+eit, t∈[0,2π] — que aparece na integral 3 do 1º EE de 2025.2 — é a circunferência de centro i e raio 1, já escrita parametrizada.
Propriedades e a estimativa ML
Linearidade e aditividade valem como no caso real, e a curva pode ser quebrada em trechos. A propriedade específica do caso complexo é a desigualdade ML, usada para mostrar que uma integral tende a zero:
Estimativa ML∫γf(z)dz≤ML,M=z∈γmax∣f(z)∣,L=comprimento de γ
08 Teorema de Cauchy-Goursat e deformação de contorno
A ideia
O teorema que organiza a unidade inteira, e cujo enunciado é curto:
Teorema de Cauchy-Goursatf analıˊtica em D simplesmente conexo⟹∮γf(z)dz=0 para toda curva fechada γ⊂D
Traduzido para a prática de prova: se não há singularidade dentro da curva, a integral é zero. Nenhuma conta. E o recíproco em espírito: quando a integral não é zero, é porque há singularidade dentro — e o valor depende só dela, não da forma da curva.
Deformação de contorno: a consequência que se usa mais
Se duas curvas fechadas envolvem as mesmas singularidades, as integrais são iguais. A curva pode ser esticada, amassada ou trocada por uma circunferência mínima em torno do ponto — o valor não muda.
∮γ1fdz=∮γ2fdzse γ1 e γ2 envolvem as mesmas singularidades
E para uma curva que envolve várias singularidades, o teorema em domínio multiplamente conexo diz que o total é a soma das partes:
∮γfdz=k∑∮γkfdz,
com cada γk uma circunferência pequena em torno de uma singularidade. É esta fórmula que, na seção 13, vira o teorema dos resíduos.
09 Fórmula integral de Cauchy e a das derivadas
A ideia
O teorema da seção anterior diz quando a integral é zero. A fórmula de Cauchy diz quanto ela vale quando não é — e o resultado é espantoso: o valor da função dentro da curva está inteiramente determinado pelos valores dela sobre a curva.
Fórmula integral de Cauchyf(z0)=2πi1∮γz−z0f(z)dz⟺∮γz−z0f(z)dz=2πif(z0)
com f analítica dentro e sobre γ, e z0dentro de γ, percorrida no sentido anti-horário.
Derivando essa identidade em relação a z0, quantas vezes se queira, sai a versão que resolve denominador com potência — a mais cobrada das duas:
Fórmula das derivadasf(n)(z0)=2πin!∮γ(z−z0)n+1f(z)dz⟺∮γ(z−z0)n+1f(z)dz=n!2πif(n)(z0)
O roteiro
Identifique z0 e n olhando o denominador na forma (z−z0)n+1;
Chame de f tudo o que resta e confirme que essa f é analítica dentro da curva;
Derive fn vezes e avalie em z0;
Multiplique por 2πi/n!.
O erro clássico está no passo 1: contar a potência errada. Denominador (z−π)3 dá n+1=3, logo n=2 e derivada segunda.
10 Sequências, séries complexas e a série de Taylor
A ideia
Convergência de sequência complexa se reduz a duas convergências reais: zn→z se e só se Rezn→RezeImzn→Imz. O mesmo para séries. Então tudo o que se sabe de Cálculo 3 sobre séries continua valendo — testes de convergência inclusive, aplicados aos módulos.
O que é novo é o teorema de Taylor complexo, e ele é mais forte do que o real:
Série de Taylorf(z)=n=0∑∞n!f(n)(z0)(z−z0)n,∣z−z0∣<R
Toda função analítica num disco é, ali, a soma da sua série de Taylor — sem exceção, sem hipótese extra. Não existe função analítica que não seja série de potências, e é por isso que “analítica” e “holomorfa” acabam sendo a mesma coisa nesta cadeira.
O raio de convergência é geométrico
Este é o ganho mais bonito da teoria complexa, e a resposta a uma pergunta que Cálculo 3 deixa no ar. Por que a série de 1+x21 tem raio 1, se a função é lisa em toda a reta? Porque no plano ela tem singularidades em ±i, e a distância da origem até elas é 1. A obstrução estava fora da reta.
Na prática: para achar R, localize as singularidades e meça a distância até o centro.
A geométrica é a mais útil das quatro, porque ela é o motor de toda expansão de função racional: manipule o denominador até virar 1−(algo) e substitua.
11 Série de Laurent e os anéis de convergência
A ideia
Taylor exige que o centro seja um ponto de analiticidade. Mas as questões desta cadeira giram justamente em torno das singularidades — e é para elas que serve Laurent: admite potências negativas e converge num anel, não num disco.
Série de Laurentf(z)=n=−∞∑∞an(z−z0)n=parte principaln=1∑∞(z−z0)na−n+parte analıˊtican=0∑∞an(z−z0)nan=2πi1∮γ(z−z0)n+1f(z)dz,r<∣z−z0∣<R
Uma função, várias séries
O ponto que mais confunde: a série de Laurent depende do anel, não só do centro. A mesma função tem expansões diferentes em anéis diferentes, e a questão sempre diz qual quer — pelo anel, ou pela curva de integração.
Tome f(z)=z(z−1)1, com centro z0=0. Há dois anéis: 0<∣z∣<1 e ∣z∣>1.
No primeiro, expanda z−11=1−z−1=−∑zn:
f(z)=z1⋅(−n=0∑∞zn)=−z1−1−z−z2−⋯
No segundo, ∣z∣>1 obriga a fatorar o z para fora, porque é 1/z que agora é pequeno:
z−11=z1⋅1−1/z1=n=0∑∞zn+11⟹f(z)=z21+z31+⋯
Na prática das provas: não se calcula an por integral
A fórmula integral dos coeficientes é a definição, mas ninguém a usa em prova — seria integrar para achar o que se quer para integrar. O caminho é montar a série a partir das conhecidas, exatamente como em Taylor.
12 Zeros e classificação de singularidades
A ideia
Toda a máquina dos resíduos depende de uma pergunta só: que tipo de singularidade é essa? E a resposta está na parte principal da série de Laurent — quantos termos negativos ela tem.
Os três tipos, pelo teste rápido
Não é preciso montar a série inteira para classificar. Basta o limite:
tipo
teste
exemplo
removível
limz→z0f(z) existe e é finito
zsenz em z=0
polo de ordem m
limz→z0(z−z0)mf(z) existe, finito e =0
(z−1)2ez em z=1 (m=2)
essencial
nenhum m funciona; lim não existe
e1/z em z=0
Equivalentemente, para polo: ∣f(z)∣→∞ quando z→z0. Se ∣f∣ vai para infinito, é polo; se se acomoda num número, é removível; se oscila sem decidir, é essencial.
A regra que faz o trabalho: zero embaixo vira polo em cima
Para função racional ou quociente de analíticas, a ordem do polo é a ordem do zero do denominador, descontada a do numerador:
f(z)=q(z)p(z),q tem zero de ordem k em z0,p tem zero de ordem j
k>j → polo de ordem k−j;
k≤j → removível.
13 Teorema dos resíduos
A ideia
Junte a deformação de contorno da seção 08 com a série de Laurent da seção 11 e sai o resultado que fecha a unidade. Integrando a série termo a termo sobre uma circunferência em torno de z0, todos os termos dão zero — menos o de (z−z0)−1, que dá 2πi. Logo a integral só vê um coeficiente: o a−1.
Teorema dos resíduos∮γf(z)dz=2πik=1∑nRes(f,zk)
com γ fechada e anti-horária, e z1,…,zn as singularidades dentro dela.
As fórmulas de resíduo, por tipo
Polo simples:
Res(f,z0)=z→z0lim(z−z0)f(z)
Polo simples de um quociente, o caso mais comum — se f=p/q com q tendo zero simples em z0:
Res(f,z0)=q′(z0)p(z0)
Polo de ordem m:
Resíduo em polo de ordem mRes(f,z0)=(m−1)!1z→z0limdzm−1dm−1[(z−z0)mf(z)]
Singularidade essencial: não há fórmula. Expanda em Laurent e leia o a−1.
14 Integrais reais calculadas por resíduos
A ideia
Aqui a cadeira paga o que prometeu. Integrais reais que nenhuma técnica de Cálculo resolve caem em três linhas quando se sai da reta, dá uma volta pelo plano complexo e usa resíduos. É a aplicação que aparece em todo 1º EE do acervo.
Tipo 1 — integral trigonométrica em [0,2π]
A que mais cai: ∫02πR(cosθ,senθ)dθ. A ideia é reconhecer que θ percorrendo [0,2π]é a circunferência unitária. Substituindo z=eiθ:
A substituição que fecha o círculoz=eiθ,dθ=izdz,cosθ=2z+z−1,senθ=2iz−z−1
A integral real vira ∮∣z∣=1 de uma função racional, e resíduos resolvem.
Tipo 2 — integral imprópria na reta toda
Para ∫−∞∞q(x)p(x)dx com degq≥degp+2 e q sem raiz real: feche o contorno com um semicírculo grande no semiplano superior. A contribuição do arco vai a zero pela estimativa ML, e sobra
∫−∞∞q(x)p(x)dx=2πi∑Resnos polos do semiplano SUPERIOR
Com eiax no integrando (lema de Jordan), o mesmo vale para a>0, e é assim que se calculam as integrais de Fourier que voltam na 2ª unidade.
15 EDO: solução geral, wronskiano e as de 1ª ordem que caem
A ideia
A 2ª unidade começa retomando equações diferenciais, e a razão é prática: as três ferramentas que vêm depois — séries de potências, Fourier e Laplace — existem para resolver EDO e EDP. Esta seção fixa o vocabulário e cobre as equações de 1ª ordem que o acervo cobra de entrada.
Boa parte do conteúdo é o de Equações Diferenciais (Cálculo 4), e nas seções daquela cadeira está o tratamento completo. Aqui fica o que Complementos usa e o que as provas desta disciplina pedem.
O wronskiano
Wronskiano de duas soluçõesW(y1,y2)(x)=y1y1′y2y2′=y1y2′−y2y1′
Para soluções de uma EDO linear homogênea num intervalo, vale o dado que resolve a questão teórica: W é identicamente zero ou nunca zero no intervalo — não há meio caminho. Então basta testar em um ponto.
W=0⟹y1,y2 linearmente independentes⟹y=c1y1+c2y2eˊ a soluc¸a˜o geral
As duas de 1ª ordem que o acervo cobra
A questão 01 do 2º EE de 2023.2 deixa escolher entre uma homogênea de grau zero e uma de Bernoulli — e dá a substituição no enunciado, o que revela o que se espera: reconhecer o tipo e aplicar a troca.
Homogênea de grau zero — quando y′=F(y/x). Substitua y=xv, logo y′=v+xv′, e a equação separa em v e x.
xyy′=4x2+y2⟹y′=y4x+xy(depende soˊ de y/x)
Com y=xv: v+xv′=v4+v, isto é xv′=v4, que separa em vdv=x4dx e dá v2=8ln∣x∣+C, ou seja
y2=x2(8ln∣x∣+C)
Bernoulli — quando y′+P(x)y=Q(x)yn com n=0,1. Substitua v=y1−n e a equação vira linear em v.
y′−y=xy4⟹n=4,v=y−3⟹v′+3v=−3x
que é linear, resolve por fator integrante e3x e dá v=−x+31+Ce−3x, donde y−3=−x+31+Ce−3x.
16 Funções Gama e Beta: as integrais que a prova exige
A ideia
Esta seção não está entre os 18 itens do programa. Ela está aqui porque as provas a cobram sem aviso: o 2º EE de 2023.2 pede ∫0∞(2+3x)e−x2dx e ∫01(1−x)/xdx, a 2ª chamada pede ∫0∞x3e−x3dx, e a transformada de Laplace de xn com nnão inteiro só se escreve com Gama. Quem não conhece a função perde essas questões inteiras.
A ideia é uma só: estender o fatorial a valores não inteiros, por uma integral.
Função GamaΓ(z)=∫0∞tz−1e−tdt,Re(z)>0
O roteiro: toda integral desse tipo vira Gama por uma substituição
O padrão é sempre reconhecer ∫0∞tz−1e−tdt depois de trocar o expoente do e por −u.
A função Beta, para integrais em [0,1]
Função Beta e sua relação com GamaB(p,q)=∫01xp−1(1−x)q−1dx=Γ(p+q)Γ(p)Γ(q)
17 Solução de EDO por séries de potências
A ideia
Equação como y′′+xy=0 não tem solução em funções elementares. Mas se a solução é analítica, ela é uma série de potências — e os coeficientes se descobrem substituindo a série na equação e igualando potência por potência. O método troca “resolver uma equação diferencial” por “resolver uma recorrência entre números”, e isso quase sempre dá.
A tentativa e suas derivadasy=n=0∑∞an(x−x0)n,y′=n=1∑∞nan(x−x0)n−1,y′′=n=2∑∞n(n−1)an(x−x0)n−2
Ponto ordinário e ponto singular
Escreva a equação na forma padrão, com o coeficiente de y′′ igual a 1:
y′′+P(x)y′+Q(x)y=0
x0 é ordinário se P e Q são analíticas em x0;
é singular caso contrário — e aí o método desta seção não se aplica direto: usa-se Frobenius (seção 18).
O passo que decide é dividir pelo coeficiente de y′′antes de julgar. Em 2xy′′+y′+xy=0, a forma padrão tem P=2x1 e Q=21: x=0 é singular por causa do P.
O roteiro
Substitua a série e suas derivadas na equação;
Alinhe as potências — mude o índice de cada soma para que todas fiquem em xn;
Iguale a zero o coeficiente de cada potência: sai a recorrência;
Itere a recorrência a partir de a0 e a1;
Separe a solução em duas séries, uma multiplicando a0 e outra a1.
18 Método de Frobenius e a equação indicial
A ideia
Quando x0 é singular, a solução pode não ser série de potências — ela pode começar numa potência fracionária ou negativa, ou envolver logaritmo. Frobenius trata disso com uma tentativa mais larga: multiplica a série por xs e deixa o próprio método descobrir o s.
A tentativa de Frobeniusy=xsj=0∑∞ajxj=j=0∑∞ajxj+s,a0=0
Ponto singular regular
O método só funciona se a singularidade for mansa. O teste, na forma padrão y′′+Py′+Qy=0:
Teste do ponto singular regularx→x0lim(x−x0)P(x)ex→x0lim(x−x0)2Q(x)
Se os dois limites existem e são finitos, x0 é singular regular e Frobenius se aplica. Se algum estoura, é singular irregular e não há método elementar.
A equação indicial
Substituindo a tentativa e olhando a menor potência de x, o coeficiente de xs−2 (ou xs−1, conforme a equação) tem de anular. Como a0=0, sobra uma equação de segundo grau em s: a indicial. Com p0=lim(x−x0)P e q0=lim(x−x0)2Q:
Equação indicials(s−1)+p0s+q0=0
As raízes s1≥s2 decidem o formato das duas soluções:
s1−s2não inteiro → duas séries de Frobenius independentes;
s1=s2 → a segunda solução carrega um lnx;
s1−s2inteiro positivo → a segunda pode ou não carregar lnx; garante-se só a de s1.
19 Funções periódicas, paridade e ortogonalidade
A ideia
A série de Fourier funciona porque senos e cossenos formam uma base ortogonal — e “ortogonal” aqui é literalmente o mesmo conceito de vetores perpendiculares, com a integral no papel do produto escalar. Entendida a ortogonalidade, a fórmula dos coeficientes deixa de ser mágica: ela é a projeção de f em cada elemento da base.
Produto interno de funções⟨f,g⟩=∫abf(x)g(x)dx
Duas funções são ortogonais em [a,b] quando ⟨f,g⟩=0.
As relações de ortogonalidade
São elas que fazem tudo funcionar. Em [−π,π], com m,n inteiros positivos:
Ou seja: seno é ortogonal a cosseno sempre, e seno com seno (ou cosseno com cosseno) só sobrevive quando os índices coincidem. Multiplicar a série por cos(mx) e integrar mata todos os termos menos um — e é dessa faxina que sai a fórmula do coeficiente na seção 20.
Paridade, e por que ela poupa metade da conta
Três fatos que a questão 02 do 2º EE de 2025.2 cobra explicitamente:
par × par = par, ímpar × ímpar = par, par × ímpar = ímpar;
a integral de função ímpar em intervalo simétrico é zero;
a integral de função par em intervalo simétrico é o dobro da metade: ∫−LL=2∫0L.
20 Série de Fourier: os coeficientes e os casos par e ímpar
A ideia
Taylor aproxima uma função perto de um ponto, usando potências. Fourier representa uma função periódica no intervalo inteiro, usando senos e cossenos. A troca de base tem um efeito prático enorme: funções com bico ou salto — onda quadrada, dente de serra, pulso — que Taylor não alcança, Fourier representa sem esforço. É por isso que é a ferramenta de sinal, de vibração e de condução de calor.
Série de Fourier em período 2Lf(x)=2a0+n=1∑∞[ancosLnπx+bnsenLnπx]an=L1∫−LLf(x)cosLnπxdx,bn=L1∫−LLf(x)senLnπxdx
Em período 2π (isto é, L=π), que é o caso das provas:
f par⟹bn=0,an=L2∫0LfcosLnπxdx(seˊrie de cossenos)fıˊmpar⟹an=0,bn=L2∫0LfsenLnπxdx(seˊrie de senos)
21 Forma complexa da série de Fourier
A ideia
Aqui as duas unidades se encontram. Trocando seno e cosseno por exponenciais complexas — a fórmula de Euler da seção 02 — a série de Fourier vira uma soma em vez de duas, com um coeficiente em vez de dois. É a forma que se usa em engenharia, porque é dela que sai o espectro e, no limite, a transformada de Fourier.
Forma complexa da série de Fourierf(x)=n=−∞∑∞cneinπx/L,cn=2L1∫−LLf(x)e−inπx/Ldx
A ponte com a forma real
Substituindo cosθ=2eiθ+e−iθ e senθ=2ieiθ−e−iθ e reagrupando:
para freal, c−n=cn — os coeficientes vêm em pares conjugados, e o espectro é simétrico;
para fpar, os cn são reais; para fímpar, são imaginários puros. É a paridade da seção 19 vista no plano complexo.
22 Convergência de Fourier, Dirichlet e Parseval
A ideia
Duas perguntas ficaram abertas na seção 20: a série converge paraf? E o que a soma dos quadrados dos coeficientes significa? A primeira é respondida por Dirichlet, a segunda por Parseval — e a de Parseval é a que resolve questão de prova, porque transforma uma série numérica difícil numa integral fácil.
Convergência pontual: o teorema de Dirichlet
Teorema de Dirichletse feˊ seccionalmente contıˊnua com derivada seccionalmente contıˊnua, a seˊrie converge para2f(x+)+f(x−)
Isto é: onde f é contínua, a série dá f(x); num salto, ela dá a média dos dois lados, ignorando o valor que o enunciado atribuiu ao ponto.
Identidade de Parseval
Ela é a conservação de energia da decomposição: a energia do sinal é a soma das energias dos harmônicos.
Identidade de Parseval (período 2L)L1∫−LL[f(x)]2dx=2a02+n=1∑∞(an2+bn2)
Na forma complexa fica ainda mais limpa:
2L1∫−LL∣f∣2dx=n=−∞∑∞∣cn∣2
23 Transformada de Laplace e suas propriedades
A ideia
A transformada de Laplace troca o domínio do problema: uma EDO em x vira uma equação algébrica em s. Derivada vira multiplicação por s, integral vira divisão por s, e as condições iniciais entram automaticamente na conta em vez de serem impostas no fim. Resolve-se a álgebra, volta-se com a inversa, e a solução do PVI aparece pronta.
Deslocamento em s (primeiro teorema da translação):
L{eaxF(x)}=L{F}(s−a)
É ele que dá L{xneax}=(s−a)n+1n! e L{eaxcoskx}=(s−a)2+k2s−a.
Derivada em s (multiplicação por x):
L{xF(x)}=−dsdL{F}(s)
24 Inversão da transformada de Laplace
A ideia
Transformar é integrar; inverter é reconhecer. Na prática de prova, achar L−1 é manipular a expressão em s até ela ficar igual a uma linha da tabela — e a ferramenta que faz isso é a decomposição em frações parciais.
Há uma fórmula fechada, a integral de Bromwich, que inverte por resíduos no plano complexo:
Fórmula de inversão (Bromwich-Mellin)F(x)=2πi1∫σ−i∞σ+i∞esxL{F}(s)ds=k∑Res[esxL{F}(s)]s=sk
Ela fecha o círculo da cadeira — a 1ª unidade serve à 2ª — mas em prova quase nunca é o caminho: frações parciais é mais rápido.
O roteiro por frações parciais
Fatore o denominador em fatores lineares e quadráticos irredutíveis;
Monte a decomposição com um termo por fator — e potência de fator repetido pede um termo por potência;
Ache as constantes, pelo método dos valores convenientes ou igualando coeficientes;
Inverta termo a termo pela tabela.
25 Teorema da convolução e aplicações
A ideia
Laplace transforma soma em soma e derivada em multiplicação por s — mas não transforma produto em produto. O que corresponde ao produto no domínio de s é uma operação nova no domínio de x: a convolução.
Convolução e o teorema(F∗G)(x)=∫0xF(τ)G(x−τ)dτL{F∗G}=L{F}⋅L{G}⟺L−1{ΦΨ}=L−1{Φ}∗L−1{Ψ}
Para que serve, em prova
Primeiro uso: inverter um produto sem frações parciais. Quando a expressão em s já vem fatorada em duas transformadas conhecidas, a convolução dá a inversa direto.
Segundo uso: a resposta de um sistema. Se um sistema linear tem função de transferência H(s) e entrada u(x), a saída é y=h∗u, com h=L−1{H} a resposta ao impulso. É a forma que a engenharia usa: caracterizado o h, a saída para qualquer entrada é uma convolução.
Terceiro uso: equações integrais. Uma equação do tipo
y(x)=f(x)+∫0xk(x−τ)y(τ)dτ
tem a integral em forma de convolução. Transformando, ela vira algébrica:
Y=L{f}+L{k}Y⟹Y=1−L{k}L{f}
26 Equações diferenciais parciais: exemplos e classificação
A ideia
Numa EDO, a incógnita depende de uma variável. Numa EDP, depende de duas ou mais — tipicamente posição e tempo — e as derivadas são parciais. Quase toda física de meio contínuo é uma EDP: temperatura ao longo de uma barra, deslocamento de uma corda, potencial numa placa.
E a solução geral deixa de ser uma família com n constantes: passa a envolver funções arbitrárias, que só as condições de contorno e iniciais fixam. É por isso que uma EDP vem sempre acompanhada delas.
As três EDP da cadeira
Calor (difusão), onda e Laplaceut=kuxx(calor: 1ª ordem no tempo)utt=c2uxx(onda: 2ª ordem no tempo)uxx+uyy=0(Laplace: regime permanente)
E a de Poisson, que é Laplace com fonte: uxx+uyy=f(x,y).
Note o reencontro: a equação de Laplace é exatamente ∇2u=0 da seção 06 — a das funções harmônicas. Toda parte real de função analítica resolve o problema de Laplace, e é por isso que variável complexa e EDP estão na mesma disciplina.
Classificação das lineares de 2ª ordem
Para Auxx+Buxy+Cuyy+⋯=0, o discriminanteB2−4AC classifica:
B2−4AC
tipo
protótipo
comportamento
<0
elíptica
Laplace
equilíbrio, sem tempo; solução suave
=0
parabólica
calor
difusão; suaviza com o tempo
>0
hiperbólica
onda
propagação com velocidade finita
Os três tipos de condição de contorno
O nome vem da 1ª unidade da disciplina de transferência de calor, mas a classificação é da matemática, e a prova de 2026.1 usa a segunda:
Dirichlet — prescreve o valor: u(0,t)=0. Barra com extremidade a temperatura fixa;
Neumann — prescreve a derivada: ux(0,t)=0. Extremidade isolada, sem fluxo;
Robin (ou mista) — combina os dois: ux+hu=0. Extremidade trocando com o ambiente.
27 Separação de variáveis: calor, onda e Laplace
A ideia
O método de Fourier, que fecha a disciplina. A aposta é procurar a solução na forma de um produto:
u(x,t)=X(x)T(t)
Substituída na EDP, ela se parte em duas EDO — uma em x, outra em t — ligadas por uma constante. Cada EDO se resolve com o que a cadeira já tem, as condições de contorno selecionam quais soluções sobrevivem, e a condição inicial é atendida somando todas elas: é aí que a série de Fourier entra, e é por isso que ela vem antes.
O roteiro, em cinco passos
Separe. Ponha u=XT na EDP e arrume tudo de um lado em x e do outro em t. Como as variáveis são independentes, os dois lados são a mesma constante −λ;
Resolva o problema em x com as condições de contorno. Só certos λ admitem solução não nula: são os autovalores;
Resolva a EDO em t com cada λn;
Some: u=∑ncnXn(x)Tn(t) — a soma resolve a EDP porque ela é linear e homogênea;
Imponha a condição inicial e ache os cn pelas fórmulas de Fourier — é a ortogonalidade que os isola.