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Nabla
MATM0006 · 60h

Complementos de Matemática

Números complexos e a fórmula de Euler, funções de uma variável complexa, funções analíticas e Cauchy-Riemann, funções harmônicas, integrais complexas com o teorema e a fórmula de Cauchy, séries de Taylor e de Laurent, singularidades e resíduos, solução de EDO por séries e Frobenius, séries de Fourier, transformada de Laplace e equações diferenciais parciais por separação de variáveis.

01 Números complexos: forma algébrica, conjugado e módulo

A ideia

x2=−1x^2 = -1 não tem solução real, e a matemática do século XVI decidiu não parar aí: chamou de ii um objeto com i2=−1i^2 = -1 e continuou calculando. O que parecia truque virou a ferramenta central da engenharia — impedância, fasor, resposta em frequência, estabilidade de sistema: tudo isso é conta com número complexo.

O ganho não é resolver x2=−1x^2 = -1. É que, admitido o ii, todo polinômio de grau nn passa a ter exatamente nn raízes, a exponencial passa a conter o seno e o cosseno, e integrais reais que resistem a qualquer técnica de Cálculo caem em três linhas. Esta cadeira é a colheita disso.

Forma algébricaz=x+i y,x=Re⁡(z),y=Im⁡(z),i2=−1z = x + i\,y, \qquad x = \operatorname{Re}(z), \qquad y = \operatorname{Im}(z), \qquad i^2 = -1

O plano de Argand-Gauss

Um complexo é um par ordenado (x,y)(x, y), e é por isso que ele se desenha como ponto — ou como vetor da origem até o ponto. Some como vetor, subtraia como vetor: z1+z2z_1 + z_2 é a diagonal do paralelogramo, e ∣z1−z2∣|z_1 - z_2| é a distância entre os dois pontos.

Essa última leitura é a que resolve questão de região: ∣z−z0∣=r|z - z_0| = r é a circunferência de centro z0z_0 e raio rr, ∣z−z0∣<r|z - z_0| < r é o disco aberto, e ∣z−i∣=1/2|z - i| = 1/2 — que aparece literalmente na integral 4 do 1º EE de 2025.2 — é a circunferência de centro ii e raio 12\tfrac12.

As quatro operações

Soma e produto saem de tratar ii como uma letra qualquer e trocar i2i^2 por −1-1:

(a+ib)+(c+id)=(a+c)+i (b+d)(a + ib) + (c + id) = (a + c) + i\,(b + d)(a+ib)(c+id)=(ac−bd)+i (ad+bc)(a + ib)(c + id) = (ac - bd) + i\,(ad + bc)

A divisão é a única que pede manobra: multiplique numerador e denominador pelo conjugado do denominador. O denominador vira real, porque

A identidade que faz a divisão funcionarz zˉ=(x+iy)(x−iy)=x2+y2=∣z∣2z\,\bar z = (x + iy)(x - iy) = x^2 + y^2 = |z|^2
a+ibc+id=(a+ib)(c−id)(c+id)(c−id)=(ac+bd)+i (bc−ad)c2+d2\frac{a + ib}{c + id} = \frac{(a + ib)(c - id)}{(c + id)(c - id)} = \frac{(ac + bd) + i\,(bc - ad)}{c^2 + d^2}

Propriedades que economizam conta

z1±z2‾=zˉ1±zˉ2,z1z2‾=zˉ1zˉ2,(z1z2)‾=zˉ1zˉ2\overline{z_1 \pm z_2} = \bar z_1 \pm \bar z_2, \qquad \overline{z_1 z_2} = \bar z_1 \bar z_2, \qquad \overline{\left(\frac{z_1}{z_2}\right)} = \frac{\bar z_1}{\bar z_2}Re⁡(z)=z+zˉ2,Im⁡(z)=z−zˉ2i,∣z1z2∣=∣z1∣ ∣z2∣,∣z1z2∣=∣z1∣∣z2∣\operatorname{Re}(z) = \frac{z + \bar z}{2}, \qquad \operatorname{Im}(z) = \frac{z - \bar z}{2i}, \qquad |z_1 z_2| = |z_1|\,|z_2|, \qquad \left|\frac{z_1}{z_2}\right| = \frac{|z_1|}{|z_2|}

E a desigualdade triangular, que é o mesmo fato geométrico dos vetores:

∣z1+z2∣≤∣z1∣+∣z2∣,∣z1+z2∣≥∣ ∣z1∣−∣z2∣ ∣|z_1 + z_2| \le |z_1| + |z_2|, \qquad |z_1 + z_2| \ge \big|\,|z_1| - |z_2|\,\big|

02 Forma polar, fórmula de Euler, De Moivre e raízes

A ideia

Na forma algébrica, somar é fácil e multiplicar é chato. Na forma polar é o contrário — e como esta cadeira multiplica, eleva a potências e extrai raízes o tempo todo, a forma polar é a que se usa. O motivo é uma linha de trigonometria: multiplicar dois complexos multiplica os módulos e soma os argumentos. Elevar a nn vira elevar um número real a nn e multiplicar um ângulo por nn.

Forma polar e forma exponencialz=r (cos⁡θ+isen⁡θ)=r eiθ,r=∣z∣=x2+y2,θ=arg⁡(z)z = r\,(\cos\theta + i\operatorname{sen}\theta) = r\,e^{i\theta}, \qquad r = |z| = \sqrt{x^2+y^2}, \qquad \theta = \arg(z)

Achar o argumento sem cair na armadilha do quadrante

A calculadora devolve arctan⁡(y/x)\arctan(y/x) em (−π/2,π/2)(-\pi/2, \pi/2), isto é, sempre no 1º ou no 4º quadrante. Se o ponto está no 2º ou no 3º, some π\pi ao resultado. O jeito seguro é sempre o mesmo: desenhe o ponto, depois escolha o ângulo.

Arg⁡(1+i)=π4,Arg⁡(−1+i)=3π4,Arg⁡(−i)=−π2,Arg⁡(−1)=π\operatorname{Arg}(1+i) = \frac{\pi}{4}, \qquad \operatorname{Arg}(-1+i) = \frac{3\pi}{4}, \qquad \operatorname{Arg}(-i) = -\frac{\pi}{2}, \qquad \operatorname{Arg}(-1) = \pi

Produto, quociente e De Moivre

z1z2=r1r2 ei(θ1+θ2),z1z2=r1r2 ei(θ1−θ2)z_1 z_2 = r_1 r_2\, e^{i(\theta_1+\theta_2)}, \qquad \frac{z_1}{z_2} = \frac{r_1}{r_2}\, e^{i(\theta_1-\theta_2)}
Fórmula de De Moivrezn=rn einθ=rn(cos⁡nθ+isen⁡nθ),n∈Zz^n = r^n\,e^{i n\theta} = r^n\big(\cos n\theta + i\operatorname{sen} n\theta\big), \qquad n \in \mathbb{Z}

Multiplicar por ii, por exemplo, é girar 90° sem mudar o tamanho: i=eiπ/2i = e^{i\pi/2}. É por isso que i2=eiπ=−1i^2 = e^{i\pi} = -1 — dois giros de 90° dão meia volta.

As nn raízes de um complexo

Aqui está a diferença que mais rende ponto: em R\mathbb{R}, 83\sqrt[3]{8} é um número. Em C\mathbb{C}, z3=8z^3 = 8 tem três soluções. A regra: o módulo sai da raiz real, e o argumento se divide em nn, espaçado de 2π/n2\pi/n.

As n raízes de índice nzk=rn  exp⁡ ⁣(i θ+2kπn),k=0,1,…,n−1z_k = \sqrt[n]{r}\; \exp\!\left(i\,\frac{\theta + 2k\pi}{n}\right), \qquad k = 0, 1, \dots, n-1

Geometricamente, as nn raízes são os vértices de um polígono regular de nn lados, inscrito na circunferência de raio rn\sqrt[n]{r} — o que dá uma conferência visual instantânea.

03 Exponencial, logaritmo e potências complexas

A ideia

Estender exe^x ao plano complexo custa uma decisão só — e ela é a fórmula de Euler. O preço vem depois: a exponencial complexa é periódica, e função periódica não tem inversa única. É daí que nasce tudo o que confunde nesta seção: o logaritmo complexo tem infinitos valores, e zαz^\alpha também.

Exponencial complexaez=ex+iy=ex(cos⁡y+isen⁡y),∣ez∣=ex,arg⁡ ⁣(ez)=ye^{z} = e^{x+iy} = e^{x}\big(\cos y + i \operatorname{sen} y\big), \qquad |e^z| = e^{x}, \qquad \arg\!\left(e^z\right) = y

Três consequências que caem direto em prova:

  • eze^z nunca é zero — ∣ez∣=ex>0|e^z| = e^x > 0 sempre. Logo ez=0e^z = 0 não tem solução;
  • ez1+z2=ez1ez2e^{z_1+z_2} = e^{z_1}e^{z_2}, como no caso real;
  • ez+2πi=eze^{z + 2\pi i} = e^z: a exponencial complexa é periódica de período 2πi2\pi i. Mostrar isso foi a Questão 01 do 1º EE de 2025.2 e reapareceu na final de 2026.1 — a prova é uma linha: ez+2πi=eze2πi=ez⋅1e^{z+2\pi i} = e^z e^{2\pi i} = e^z \cdot 1.

O logaritmo é multivalorado

Se ew=ze^w = z, então ww é um logaritmo de zz. Escrevendo z=reiθz = r e^{i\theta} e w=u+ivw = u + iv: eu=re^u = r e v=θ+2kπv = \theta + 2k\pi. Ou seja, há um logaritmo para cada volta.

Logaritmo complexo e o ramo principallog⁡z=ln⁡∣z∣+i(Arg⁡z+2kπ),k∈Z\log z = \ln|z| + i\big(\operatorname{Arg} z + 2k\pi\big), \qquad k \in \mathbb{Z}Log⁡z=ln⁡∣z∣+iArg⁡z,−π<Arg⁡z≤π\operatorname{Log} z = \ln|z| + i\operatorname{Arg} z, \qquad -\pi < \operatorname{Arg} z \le \pi

O corte que se faz no plano para escolher um ramo (por convenção o semieixo real negativo, onde Arg⁡\operatorname{Arg} salta de π\pi para −π-\pi) é o que a ementa chama de superfície de Riemann: em vez de cortar, imagine folhas empilhadas, uma por volta, coladas ao longo do corte. Cada folha é um ramo, e subir de folha é dar uma volta em torno da origem.

Potências complexas

Com o logaritmo na mão, zαz^\alpha se define pela identidade que já valia nos reais, ab=ebln⁡aa^b = e^{b\ln a}:

Potência de expoente complexozα=eαlog⁡z(ramo principal: zα=eαLog⁡z)z^{\alpha} = e^{\alpha \log z} \qquad\text{(ramo principal: } z^{\alpha} = e^{\alpha \operatorname{Log} z}\text{)}

Resolver ez=we^z = w

É o roteiro inverso, e ele aparece em toda prova (ez=4ie^z = 4i em 2023.2, ez=1+ie^z = 1+i na 2ª chamada). Tome logaritmo completo, não o principal, porque a questão pede todas as soluções:

ez=w⟹z=ln⁡∣w∣+i(Arg⁡w+2kπ),k∈Ze^z = w \quad\Longrightarrow\quad z = \ln|w| + i\big(\operatorname{Arg} w + 2k\pi\big), \qquad k \in \mathbb{Z}

Para ez=4ie^z = 4i: ∣4i∣=4|4i| = 4 e Arg⁡(4i)=π/2\operatorname{Arg}(4i) = \pi/2, logo z=ln⁡4+i(π2+2kπ)z = \ln 4 + i\left(\tfrac{\pi}{2} + 2k\pi\right).

04 Funções trigonométricas e hiperbólicas complexas

A ideia

Nos reais, cos⁡x\cos x vive preso entre −1-1 e 11. No plano complexo essa prisão desaparece: cos⁡z=2\cos z = 2 tem solução. O motivo é que seno e cosseno complexos não são “ondas” — são combinações de exponenciais, e a exponencial cresce sem limite na direção imaginária.

A definição vem de inverter a fórmula de Euler. De eiz=cos⁡z+isen⁡ze^{iz} = \cos z + i\operatorname{sen} z e e−iz=cos⁡z−isen⁡ze^{-iz} = \cos z - i\operatorname{sen} z, somando e subtraindo:

Seno e cosseno complexoscos⁡z=eiz+e−iz2,sen⁡z=eiz−e−iz2i\cos z = \frac{e^{iz} + e^{-iz}}{2}, \qquad \operatorname{sen} z = \frac{e^{iz} - e^{-iz}}{2i}
Seno e cosseno hiperbólicoscosh⁡z=ez+e−z2,senh⁡z=ez−e−z2\cosh z = \frac{e^{z} + e^{-z}}{2}, \qquad \operatorname{senh} z = \frac{e^{z} - e^{-z}}{2}

A ponte entre as duas famílias

Trocar zz por iziz leva uma família na outra — e é essa troca que faz o cosseno complexo estourar o intervalo [−1,1][-1,1]:

cos⁡(iz)=cosh⁡z,sen⁡(iz)=isenh⁡z,cosh⁡(iz)=cos⁡z,senh⁡(iz)=isen⁡z\cos(iz) = \cosh z, \qquad \operatorname{sen}(iz) = i\operatorname{senh} z, \qquad \cosh(iz) = \cos z, \qquad \operatorname{senh}(iz) = i\operatorname{sen} z

Separando em parte real e imaginária, com z=x+iyz = x + iy:

sen⁡z=sen⁡xcosh⁡y+icos⁡xsenh⁡y\operatorname{sen} z = \operatorname{sen} x \cosh y + i \cos x \operatorname{senh} ycos⁡z=cos⁡xcosh⁡y−isen⁡xsenh⁡y\cos z = \cos x \cosh y - i \operatorname{sen} x \operatorname{senh} y

Os zeros continuam nos mesmos lugares

Um fato que decide questão de singularidade mais adiante: apesar de tudo, os zeros não se multiplicam.

sen⁡z=0  ⟺  z=kπ,cos⁡z=0  ⟺  z=π2+kπ,k∈Z\operatorname{sen} z = 0 \iff z = k\pi, \qquad \cos z = 0 \iff z = \frac{\pi}{2} + k\pi, \qquad k \in \mathbb{Z}senh⁡z=0  ⟺  z=kπi,cosh⁡z=0  ⟺  z=π2i+kπi\operatorname{senh} z = 0 \iff z = k\pi i, \qquad \cosh z = 0 \iff z = \frac{\pi}{2}i + k\pi i

Ou seja: seno e cosseno só têm zeros reais; seno e cosseno hiperbólicos, só zeros imaginários puros. Não há outros no plano.

05 Derivada, funções analíticas e Cauchy-Riemann

A ideia

A derivada complexa tem a mesma definição da real:

f′(z0)=lim⁡Δz→0f(z0+Δz)−f(z0)Δzf'(z_0) = \lim_{\Delta z \to 0} \frac{f(z_0 + \Delta z) - f(z_0)}{\Delta z}

A diferença está escondida no Δz→0\Delta z \to 0. Na reta há dois caminhos de aproximação; no plano há infinitos, e o limite tem de dar o mesmo valor em todos. Essa exigência é brutal — e é ela que faz a análise complexa ser tão poderosa: derivável uma vez implica derivável infinitas vezes, ser dado numa curva determina a função num domínio inteiro, e assim por diante. Nada disso vale no caso real.

As equações de Cauchy-Riemann

Escreva f(z)=u(x,y)+i v(x,y)f(z) = u(x,y) + i\,v(x,y) e force o limite pelos dois caminhos mais simples: paralelo ao eixo real (Δz=Δx\Delta z = \Delta x) e paralelo ao imaginário (Δz=iΔy\Delta z = i\Delta y). Igualar os dois resultados dá o sistema:

Equações de Cauchy-Riemann∂u∂x=∂v∂y,∂u∂y=−∂v∂x\frac{\partial u}{\partial x} = \frac{\partial v}{\partial y}, \qquad \frac{\partial u}{\partial y} = -\frac{\partial v}{\partial x}

E a derivada, quando existe, sai de qualquer uma das duas formas:

f′(z)=ux+i vx=vy−i uyf'(z) = u_x + i\,v_x = v_y - i\,u_y

O que é condição necessária e o que é suficiente

Esta distinção vale ponto em questão teórica:

  • se ff é derivável em z0z_0, então as equações de Cauchy-Riemann valem ali. (necessária)
  • se uu e vv têm derivadas parciais contínuas numa vizinhança de z0z_0 e satisfazem Cauchy-Riemann ali, então ff é analítica em z0z_0. (suficiente)

Só as equações, sem a continuidade das parciais, não basta — mas em prova as funções são polinomiais, exponenciais ou racionais, e a continuidade é imediata. O que se costuma cobrar é: verifique Cauchy-Riemann e conclua.

Onde a analiticidade falha

Para função racional, o roteiro é mecânico: ff é analítica em todo ponto menos onde o denominador zera. f(z)=z100(z−1)101f(z) = \dfrac{z^{100}}{(z-1)^{101}} é analítica em C∖{1}\mathbb{C} \setminus \{1\}; f(z)=eiz(z−π)3f(z) = \dfrac{e^{iz}}{(z-\pi)^3}, em C∖{π}\mathbb{C}\setminus\{\pi\}. Localizar esses pontos e comparar com a curva de integração é o movimento das questões de integral do 1º EE — e é por isso que esta seção vem antes delas.

06 Funções harmônicas e a conjugada harmônica

A ideia

Derive ux=vyu_x = v_y em xx, derive uy=−vxu_y = -v_x em yy e some: as derivadas mistas de vv se cancelam e sobra

Equação de Laplace∇2u=∂2u∂x2+∂2u∂y2=0\nabla^2 u = \frac{\partial^2 u}{\partial x^2} + \frac{\partial^2 u}{\partial y^2} = 0

O mesmo vale para vv. Isto é, parte real e parte imaginária de função analítica são harmônicas — e a recíproca também serve: dada uma harmônica, existe uma função analítica que a tem como parte real.

Por que isso importa em engenharia: a equação de Laplace é a do potencial elétrico sem carga, a do escoamento potencial, a da condução de calor em regime permanente. Toda função analítica é, de graça, um par de soluções desses problemas — e é por esse caminho que variável complexa entra em eletromagnetismo e em mecânica dos fluidos.

O roteiro da conjugada harmônica

É a questão que mais se repete no 1º EE — 2023.2, 2025.2 e 2026.1 pedem exatamente isso. Quatro passos, sempre os mesmos:

  1. Confirme que uu é harmônica. Calcule uxxu_{xx} e uyyu_{yy} e some. Se não der zero, não existe conjugada e a questão acaba aqui;
  2. Integre vy=uxv_y = u_x em yy, tratando xx como constante. Aparece uma constante de integração que é uma função de xx: φ(x)\varphi(x);
  3. Derive o resultado em xx e compare com vx=−uyv_x = -u_y. Isso determina φ′(x)\varphi'(x);
  4. Integre φ′\varphi' e escreva f=u+ivf = u + iv, com uma constante real cc sobrando.

07 Integral de linha complexa e parametrização

A ideia

Integrar no plano complexo é integrar ao longo de uma curva, não de um intervalo. A definição é a de integral de linha: parametrize a curva, troque zz e dzdz pelo parâmetro, e caia numa integral real comum.

Integral ao longo de uma curva∫γf(z) dz=∫abf(z(t)) z′(t) dt,z(t),  t∈[a,b]\int_{\gamma} f(z)\,dz = \int_{a}^{b} f\big(z(t)\big)\,z'(t)\,dt, \qquad z(t),\; t \in [a,b]

As três parametrizações que resolvem tudo

Segmento de reta de z0z_0 a z1z_1:

z(t)=z0+t (z1−z0),t∈[0,1],dz=(z1−z0) dtz(t) = z_0 + t\,(z_1 - z_0), \qquad t \in [0,1], \qquad dz = (z_1 - z_0)\,dt

Circunferência de centro z0z_0 e raio RR, anti-horária:

z(t)=z0+R eit,t∈[0,2π],dz=iR eit dtz(t) = z_0 + R\,e^{it}, \qquad t \in [0, 2\pi], \qquad dz = i R\,e^{it}\,dt

Arco de circunferência — a mesma coisa, com tt variando só no trecho desejado.

Reconhecer a curva pela notação é meio caminho: ∣z∣=1|z| = 1 é a circunferência unitária, ∣z−i∣=1/2|z - i| = 1/2 tem centro ii e raio 12\tfrac12, e γ(t)=i+eit\gamma(t) = i + e^{it}, t∈[0,2π]t\in[0,2\pi] — que aparece na integral 3 do 1º EE de 2025.2 — é a circunferência de centro ii e raio 11, já escrita parametrizada.

Propriedades e a estimativa ML

Linearidade e aditividade valem como no caso real, e a curva pode ser quebrada em trechos. A propriedade específica do caso complexo é a desigualdade ML, usada para mostrar que uma integral tende a zero:

Estimativa ML∣∫γf(z) dz∣≤M L,M=max⁡z∈γ∣f(z)∣,L=comprimento de γ\left|\int_{\gamma} f(z)\,dz\right| \le M\,L, \qquad M = \max_{z \in \gamma}|f(z)|, \qquad L = \text{comprimento de } \gamma

08 Teorema de Cauchy-Goursat e deformação de contorno

A ideia

O teorema que organiza a unidade inteira, e cujo enunciado é curto:

Teorema de Cauchy-Goursatf analıˊtica em D simplesmente conexo⟹∮γf(z) dz=0   para toda curva fechada γ⊂Df \text{ analítica em } D \text{ simplesmente conexo} \quad\Longrightarrow\quad \oint_{\gamma} f(z)\,dz = 0 \;\text{ para toda curva fechada } \gamma \subset D

Traduzido para a prática de prova: se não há singularidade dentro da curva, a integral é zero. Nenhuma conta. E o recíproco em espírito: quando a integral não é zero, é porque há singularidade dentro — e o valor depende só dela, não da forma da curva.

Deformação de contorno: a consequência que se usa mais

Se duas curvas fechadas envolvem as mesmas singularidades, as integrais são iguais. A curva pode ser esticada, amassada ou trocada por uma circunferência mínima em torno do ponto — o valor não muda.

∮γ1f dz=∮γ2f dzse γ1 e γ2 envolvem as mesmas singularidades\oint_{\gamma_1} f\,dz = \oint_{\gamma_2} f\,dz \qquad\text{se } \gamma_1 \text{ e } \gamma_2 \text{ envolvem as mesmas singularidades}

E para uma curva que envolve várias singularidades, o teorema em domínio multiplamente conexo diz que o total é a soma das partes:

∮γf dz=∑k∮γkf dz,\oint_{\gamma} f\,dz = \sum_{k} \oint_{\gamma_k} f\,dz,

com cada γk\gamma_k uma circunferência pequena em torno de uma singularidade. É esta fórmula que, na seção 13, vira o teorema dos resíduos.

09 Fórmula integral de Cauchy e a das derivadas

A ideia

O teorema da seção anterior diz quando a integral é zero. A fórmula de Cauchy diz quanto ela vale quando não é — e o resultado é espantoso: o valor da função dentro da curva está inteiramente determinado pelos valores dela sobre a curva.

Fórmula integral de Cauchyf(z0)=12πi∮γf(z)z−z0 dz⟺∮γf(z)z−z0 dz=2πi f(z0)f(z_0) = \frac{1}{2\pi i}\oint_{\gamma} \frac{f(z)}{z - z_0}\,dz \qquad\Longleftrightarrow\qquad \oint_{\gamma} \frac{f(z)}{z - z_0}\,dz = 2\pi i\, f(z_0)

com ff analítica dentro e sobre γ\gamma, e z0z_0 dentro de γ\gamma, percorrida no sentido anti-horário.

Derivando essa identidade em relação a z0z_0, quantas vezes se queira, sai a versão que resolve denominador com potência — a mais cobrada das duas:

Fórmula das derivadasf(n)(z0)=n!2πi∮γf(z)(z−z0)n+1 dz⟺∮γf(z)(z−z0)n+1 dz=2πin! f(n)(z0)f^{(n)}(z_0) = \frac{n!}{2\pi i}\oint_{\gamma} \frac{f(z)}{(z - z_0)^{n+1}}\,dz \qquad\Longleftrightarrow\qquad \oint_{\gamma} \frac{f(z)}{(z - z_0)^{n+1}}\,dz = \frac{2\pi i}{n!}\,f^{(n)}(z_0)

O roteiro

  1. Identifique z0z_0 e nn olhando o denominador na forma (z−z0)n+1(z - z_0)^{n+1};
  2. Chame de ff tudo o que resta e confirme que essa ff é analítica dentro da curva;
  3. Derive ff nn vezes e avalie em z0z_0;
  4. Multiplique por 2πi/n!2\pi i/n!.

O erro clássico está no passo 1: contar a potência errada. Denominador (z−π)3(z-\pi)^3 dá n+1=3n+1 = 3, logo n=2n = 2 e derivada segunda.

10 Sequências, séries complexas e a série de Taylor

A ideia

Convergência de sequência complexa se reduz a duas convergências reais: zn→zz_n \to z se e só se Re⁡zn→Re⁡z\operatorname{Re} z_n \to \operatorname{Re} z e Im⁡zn→Im⁡z\operatorname{Im} z_n \to \operatorname{Im} z. O mesmo para séries. Então tudo o que se sabe de Cálculo 3 sobre séries continua valendo — testes de convergência inclusive, aplicados aos módulos.

O que é novo é o teorema de Taylor complexo, e ele é mais forte do que o real:

Série de Taylorf(z)=∑n=0∞f(n)(z0)n! (z−z0)n,∣z−z0∣<Rf(z) = \sum_{n=0}^{\infty} \frac{f^{(n)}(z_0)}{n!}\,(z - z_0)^n, \qquad |z - z_0| < R

Toda função analítica num disco é, ali, a soma da sua série de Taylor — sem exceção, sem hipótese extra. Não existe função analítica que não seja série de potências, e é por isso que “analítica” e “holomorfa” acabam sendo a mesma coisa nesta cadeira.

O raio de convergência é geométrico

Este é o ganho mais bonito da teoria complexa, e a resposta a uma pergunta que Cálculo 3 deixa no ar. Por que a série de 11+x2\dfrac{1}{1+x^2} tem raio 11, se a função é lisa em toda a reta? Porque no plano ela tem singularidades em ±i\pm i, e a distância da origem até elas é 11. A obstrução estava fora da reta.

Na prática: para achar RR, localize as singularidades e meça a distância até o centro.

f(z)=1z−2,z0=0  ⇒  R=2;f(z)=1z−2,z0=i  ⇒  R=∣i−2∣=5f(z) = \frac{1}{z-2},\quad z_0 = 0 \;\Rightarrow\; R = 2; \qquad f(z) = \frac{1}{z-2},\quad z_0 = i \;\Rightarrow\; R = |i - 2| = \sqrt5

As quatro séries que resolvem quase tudo

Vale mais reconhecê-las do que derivar nn vezes:

ez=∑n=0∞znn!(R=∞),11−z=∑n=0∞zn(R=1)e^{z} = \sum_{n=0}^{\infty} \frac{z^n}{n!} \quad (R=\infty), \qquad \frac{1}{1-z} = \sum_{n=0}^{\infty} z^n \quad (R=1)sen⁡z=∑n=0∞(−1)nz2n+1(2n+1)!,cos⁡z=∑n=0∞(−1)nz2n(2n)!(R=∞)\operatorname{sen} z = \sum_{n=0}^{\infty} \frac{(-1)^n z^{2n+1}}{(2n+1)!}, \qquad \cos z = \sum_{n=0}^{\infty} \frac{(-1)^n z^{2n}}{(2n)!} \quad (R=\infty)

A geométrica é a mais útil das quatro, porque ela é o motor de toda expansão de função racional: manipule o denominador até virar 1−(algo)1 - (\text{algo}) e substitua.

11 Série de Laurent e os anéis de convergência

A ideia

Taylor exige que o centro seja um ponto de analiticidade. Mas as questões desta cadeira giram justamente em torno das singularidades — e é para elas que serve Laurent: admite potências negativas e converge num anel, não num disco.

Série de Laurentf(z)=∑n=−∞∞an (z−z0)n=∑n=1∞a−n(z−z0)n⏟parte principal+∑n=0∞an (z−z0)n⏟parte analıˊticaf(z) = \sum_{n=-\infty}^{\infty} a_n\,(z - z_0)^n = \underbrace{\sum_{n=1}^{\infty} \frac{a_{-n}}{(z-z_0)^n}}_{\text{parte principal}} + \underbrace{\sum_{n=0}^{\infty} a_n\,(z-z_0)^n}_{\text{parte analítica}}an=12πi∮γf(z)(z−z0)n+1 dz,r<∣z−z0∣<Ra_n = \frac{1}{2\pi i}\oint_{\gamma} \frac{f(z)}{(z-z_0)^{n+1}}\,dz, \qquad r < |z - z_0| < R

Uma função, várias séries

O ponto que mais confunde: a série de Laurent depende do anel, não só do centro. A mesma função tem expansões diferentes em anéis diferentes, e a questão sempre diz qual quer — pelo anel, ou pela curva de integração.

Tome f(z)=1z(z−1)f(z) = \dfrac{1}{z(z-1)}, com centro z0=0z_0 = 0. Há dois anéis: 0<∣z∣<10 < |z| < 1 e ∣z∣>1|z| > 1.

No primeiro, expanda 1z−1=−11−z=−∑zn\dfrac{1}{z-1} = \dfrac{-1}{1-z} = -\sum z^n:

f(z)=1z⋅(−∑n=0∞zn)=−1z−1−z−z2−⋯f(z) = \frac1z \cdot \left(-\sum_{n=0}^{\infty} z^n\right) = -\frac1z - 1 - z - z^2 - \cdots

No segundo, ∣z∣>1|z| > 1 obriga a fatorar o zz para fora, porque é 1/z1/z que agora é pequeno:

1z−1=1z⋅11−1/z=∑n=0∞1zn+1⟹f(z)=1z2+1z3+⋯\frac{1}{z-1} = \frac{1}{z}\cdot\frac{1}{1 - 1/z} = \sum_{n=0}^{\infty} \frac{1}{z^{n+1}} \quad\Longrightarrow\quad f(z) = \frac{1}{z^2} + \frac{1}{z^3} + \cdots

Na prática das provas: não se calcula ana_n por integral

A fórmula integral dos coeficientes é a definição, mas ninguém a usa em prova — seria integrar para achar o que se quer para integrar. O caminho é montar a série a partir das conhecidas, exatamente como em Taylor.

12 Zeros e classificação de singularidades

A ideia

Toda a máquina dos resíduos depende de uma pergunta só: que tipo de singularidade é essa? E a resposta está na parte principal da série de Laurent — quantos termos negativos ela tem.

Os três tipos, pelo teste rápido

Não é preciso montar a série inteira para classificar. Basta o limite:

tipotesteexemplo
removívellim⁡z→z0f(z)\lim_{z\to z_0} f(z) existe e é finitosen⁡zz\dfrac{\operatorname{sen} z}{z} em z=0z=0
polo de ordem mmlim⁡z→z0(z−z0)mf(z)\lim_{z\to z_0} (z-z_0)^m f(z) existe, finito e ≠0\ne 0ez(z−1)2\dfrac{e^z}{(z-1)^2} em z=1z=1 (m=2m=2)
essencialnenhum mm funciona; lim⁡\lim não existee1/ze^{1/z} em z=0z=0

Equivalentemente, para polo: ∣f(z)∣→∞|f(z)| \to \infty quando z→z0z \to z_0. Se ∣f∣|f| vai para infinito, é polo; se se acomoda num número, é removível; se oscila sem decidir, é essencial.

A regra que faz o trabalho: zero embaixo vira polo em cima

Para função racional ou quociente de analíticas, a ordem do polo é a ordem do zero do denominador, descontada a do numerador:

f(z)=p(z)q(z),q tem zero de ordem k em z0,p tem zero de ordem jf(z) = \frac{p(z)}{q(z)}, \qquad q \text{ tem zero de ordem } k \text{ em } z_0, \qquad p \text{ tem zero de ordem } j
  • k>jk > j → polo de ordem k−jk - j;
  • k≤jk \le j → removível.

13 Teorema dos resíduos

A ideia

Junte a deformação de contorno da seção 08 com a série de Laurent da seção 11 e sai o resultado que fecha a unidade. Integrando a série termo a termo sobre uma circunferência em torno de z0z_0, todos os termos dão zero — menos o de (z−z0)−1(z-z_0)^{-1}, que dá 2πi2\pi i. Logo a integral só vê um coeficiente: o a−1a_{-1}.

Teorema dos resíduos∮γf(z) dz=2πi∑k=1nRes⁡(f,zk)\oint_{\gamma} f(z)\,dz = 2\pi i \sum_{k=1}^{n} \operatorname{Res}\big(f, z_k\big)

com γ\gamma fechada e anti-horária, e z1,…,znz_1,\dots,z_n as singularidades dentro dela.

As fórmulas de resíduo, por tipo

Polo simples:

Res⁡(f,z0)=lim⁡z→z0(z−z0) f(z)\operatorname{Res}(f, z_0) = \lim_{z\to z_0} (z - z_0)\,f(z)

Polo simples de um quociente, o caso mais comum — se f=p/qf = p/q com qq tendo zero simples em z0z_0:

Res⁡(f,z0)=p(z0)q′(z0)\operatorname{Res}(f, z_0) = \frac{p(z_0)}{q'(z_0)}

Polo de ordem mm:

Resíduo em polo de ordem mRes⁡(f,z0)=1(m−1)! lim⁡z→z0d m−1dz m−1[(z−z0)mf(z)]\operatorname{Res}(f, z_0) = \frac{1}{(m-1)!}\, \lim_{z\to z_0} \frac{d^{\,m-1}}{dz^{\,m-1}}\Big[(z-z_0)^m f(z)\Big]

Singularidade essencial: não há fórmula. Expanda em Laurent e leia o a−1a_{-1}.

14 Integrais reais calculadas por resíduos

A ideia

Aqui a cadeira paga o que prometeu. Integrais reais que nenhuma técnica de Cálculo resolve caem em três linhas quando se sai da reta, dá uma volta pelo plano complexo e usa resíduos. É a aplicação que aparece em todo 1º EE do acervo.

Tipo 1 — integral trigonométrica em [0,2π][0, 2\pi]

A que mais cai: ∫02πR(cos⁡θ,sen⁡θ) dθ\displaystyle\int_0^{2\pi} R(\cos\theta, \operatorname{sen}\theta)\,d\theta. A ideia é reconhecer que θ\theta percorrendo [0,2π][0,2\pi] é a circunferência unitária. Substituindo z=eiθz = e^{i\theta}:

A substituição que fecha o círculoz=eiθ,dθ=dziz,cos⁡θ=z+z−12,sen⁡θ=z−z−12iz = e^{i\theta}, \qquad d\theta = \frac{dz}{iz}, \qquad \cos\theta = \frac{z + z^{-1}}{2}, \qquad \operatorname{sen}\theta = \frac{z - z^{-1}}{2i}

A integral real vira ∮∣z∣=1\oint_{|z|=1} de uma função racional, e resíduos resolvem.

Tipo 2 — integral imprópria na reta toda

Para ∫−∞∞p(x)q(x) dx\displaystyle\int_{-\infty}^{\infty} \frac{p(x)}{q(x)}\,dx com deg⁡q≥deg⁡p+2\deg q \ge \deg p + 2 e qq sem raiz real: feche o contorno com um semicírculo grande no semiplano superior. A contribuição do arco vai a zero pela estimativa ML, e sobra

∫−∞∞p(x)q(x) dx=2πi∑Res⁡ nos polos do semiplano SUPERIOR\int_{-\infty}^{\infty} \frac{p(x)}{q(x)}\,dx = 2\pi i \sum \operatorname{Res}\ \text{nos polos do semiplano SUPERIOR}

Com eiaxe^{iax} no integrando (lema de Jordan), o mesmo vale para a>0a>0, e é assim que se calculam as integrais de Fourier que voltam na 2ª unidade.

15 EDO: solução geral, wronskiano e as de 1ª ordem que caem

A ideia

A 2ª unidade começa retomando equações diferenciais, e a razão é prática: as três ferramentas que vêm depois — séries de potências, Fourier e Laplace — existem para resolver EDO e EDP. Esta seção fixa o vocabulário e cobre as equações de 1ª ordem que o acervo cobra de entrada.

Boa parte do conteúdo é o de Equações Diferenciais (Cálculo 4), e nas seções daquela cadeira está o tratamento completo. Aqui fica o que Complementos usa e o que as provas desta disciplina pedem.

O wronskiano

Wronskiano de duas soluçõesW(y1,y2)(x)=∣y1y2y1′y2′∣=y1y2′−y2y1′W(y_1, y_2)(x) = \begin{vmatrix} y_1 & y_2 \\ y_1' & y_2' \end{vmatrix} = y_1 y_2' - y_2 y_1'

Para soluções de uma EDO linear homogênea num intervalo, vale o dado que resolve a questão teórica: WW é identicamente zero ou nunca zero no intervalo — não há meio caminho. Então basta testar em um ponto.

W≠0  ⟹  y1,y2 linearmente independentes  ⟹  y=c1y1+c2y2 eˊ a soluc¸a˜o geralW \ne 0 \;\Longrightarrow\; y_1, y_2 \text{ linearmente independentes} \;\Longrightarrow\; y = c_1y_1 + c_2y_2 \text{ é a solução geral}

As duas de 1ª ordem que o acervo cobra

A questão 01 do 2º EE de 2023.2 deixa escolher entre uma homogênea de grau zero e uma de Bernoulli — e dá a substituição no enunciado, o que revela o que se espera: reconhecer o tipo e aplicar a troca.

Homogênea de grau zero — quando y′=F(y/x)y' = F(y/x). Substitua y=xvy = xv, logo y′=v+xv′y' = v + xv', e a equação separa em vv e xx.

xyy′=4x2+y2  ⟹  y′=4xy+yx    (depende soˊ de y/x)x y y' = 4x^2 + y^2 \;\Longrightarrow\; y' = \frac{4x}{y} + \frac{y}{x} \;\;\text{(depende só de } y/x\text{)}

Com y=xvy = xv: v+xv′=4v+vv + xv' = \dfrac{4}{v} + v, isto é xv′=4vxv' = \dfrac4v, que separa em v dv=4 dxxv\,dv = \dfrac{4\,dx}{x} e dá v2=8ln⁡∣x∣+Cv^2 = 8\ln|x| + C, ou seja

y2=x2(8ln⁡∣x∣+C)y^2 = x^2\big(8\ln|x| + C\big)

Bernoulli — quando y′+P(x)y=Q(x) yny' + P(x)y = Q(x)\,y^n com n≠0,1n \ne 0, 1. Substitua v=y1−nv = y^{1-n} e a equação vira linear em vv.

y′−y=xy4  ⟹  n=4,v=y−3  ⟹  v′+3v=−3xy' - y = x y^4 \;\Longrightarrow\; n = 4,\quad v = y^{-3} \;\Longrightarrow\; v' + 3v = -3x

que é linear, resolve por fator integrante e3xe^{3x} e dá v=−x+13+Ce−3xv = -x + \tfrac13 + Ce^{-3x}, donde y−3=−x+13+Ce−3xy^{-3} = -x + \tfrac13 + Ce^{-3x}.

16 Funções Gama e Beta: as integrais que a prova exige

A ideia

Esta seção não está entre os 18 itens do programa. Ela está aqui porque as provas a cobram sem aviso: o 2º EE de 2023.2 pede ∫0∞(2+3x)e−x2dx\int_0^\infty (2+3x)e^{-x^2}dx e ∫01(1−x)/x dx\int_0^1 \sqrt{(1-x)/x}\,dx, a 2ª chamada pede ∫0∞x3e−x3dx\int_0^\infty x^3 e^{-x^3}dx, e a transformada de Laplace de xnx^n com nn não inteiro só se escreve com Gama. Quem não conhece a função perde essas questões inteiras.

A ideia é uma só: estender o fatorial a valores não inteiros, por uma integral.

Função GamaΓ(z)=∫0∞t z−1e−t dt,Re⁡(z)>0\Gamma(z) = \int_0^{\infty} t^{\,z-1}e^{-t}\,dt, \qquad \operatorname{Re}(z) > 0

O roteiro: toda integral desse tipo vira Gama por uma substituição

O padrão é sempre reconhecer ∫0∞tz−1e−tdt\int_0^\infty t^{z-1}e^{-t}dt depois de trocar o expoente do ee por −u-u.

A função Beta, para integrais em [0,1][0,1]

Função Beta e sua relação com GamaB(p,q)=∫01x p−1(1−x) q−1dx=Γ(p) Γ(q)Γ(p+q)B(p,q) = \int_0^1 x^{\,p-1}(1-x)^{\,q-1}dx = \frac{\Gamma(p)\,\Gamma(q)}{\Gamma(p+q)}

17 Solução de EDO por séries de potências

A ideia

Equação como y′′+xy=0y'' + xy = 0 não tem solução em funções elementares. Mas se a solução é analítica, ela é uma série de potências — e os coeficientes se descobrem substituindo a série na equação e igualando potência por potência. O método troca “resolver uma equação diferencial” por “resolver uma recorrência entre números”, e isso quase sempre dá.

A tentativa e suas derivadasy=∑n=0∞an(x−x0)n,y′=∑n=1∞n an(x−x0)n−1,y′′=∑n=2∞n(n−1) an(x−x0)n−2y = \sum_{n=0}^{\infty} a_n (x - x_0)^n, \qquad y' = \sum_{n=1}^{\infty} n\,a_n (x-x_0)^{n-1}, \qquad y'' = \sum_{n=2}^{\infty} n(n-1)\,a_n (x-x_0)^{n-2}

Ponto ordinário e ponto singular

Escreva a equação na forma padrão, com o coeficiente de y′′y'' igual a 11:

y′′+P(x) y′+Q(x) y=0y'' + P(x)\,y' + Q(x)\,y = 0
  • x0x_0 é ordinário se PP e QQ são analíticas em x0x_0;
  • é singular caso contrário — e aí o método desta seção não se aplica direto: usa-se Frobenius (seção 18).

O passo que decide é dividir pelo coeficiente de y′′y'' antes de julgar. Em 2xy′′+y′+xy=02xy'' + y' + xy = 0, a forma padrão tem P=12xP = \dfrac{1}{2x} e Q=12Q = \dfrac12: x=0x=0 é singular por causa do PP.

O roteiro

  1. Substitua a série e suas derivadas na equação;
  2. Alinhe as potências — mude o índice de cada soma para que todas fiquem em xnx^n;
  3. Iguale a zero o coeficiente de cada potência: sai a recorrência;
  4. Itere a recorrência a partir de a0a_0 e a1a_1;
  5. Separe a solução em duas séries, uma multiplicando a0a_0 e outra a1a_1.

18 Método de Frobenius e a equação indicial

A ideia

Quando x0x_0 é singular, a solução pode não ser série de potências — ela pode começar numa potência fracionária ou negativa, ou envolver logaritmo. Frobenius trata disso com uma tentativa mais larga: multiplica a série por xsx^{s} e deixa o próprio método descobrir o ss.

A tentativa de Frobeniusy=xs∑j=0∞ajxj=∑j=0∞aj x j+s,a0≠0y = x^{s}\sum_{j=0}^{\infty} a_j x^{j} = \sum_{j=0}^{\infty} a_j\,x^{\,j+s}, \qquad a_0 \ne 0

Ponto singular regular

O método só funciona se a singularidade for mansa. O teste, na forma padrão y′′+Py′+Qy=0y'' + Py' + Qy = 0:

Teste do ponto singular regularlim⁡x→x0(x−x0) P(x)elim⁡x→x0(x−x0)2 Q(x)\lim_{x\to x_0}(x-x_0)\,P(x) \qquad\text{e}\qquad \lim_{x\to x_0}(x-x_0)^2\,Q(x)

Se os dois limites existem e são finitos, x0x_0 é singular regular e Frobenius se aplica. Se algum estoura, é singular irregular e não há método elementar.

A equação indicial

Substituindo a tentativa e olhando a menor potência de xx, o coeficiente de xs−2x^{s-2} (ou xs−1x^{s-1}, conforme a equação) tem de anular. Como a0≠0a_0 \ne 0, sobra uma equação de segundo grau em ss: a indicial. Com p0=lim⁡(x−x0)Pp_0 = \lim (x-x_0)P e q0=lim⁡(x−x0)2Qq_0 = \lim (x-x_0)^2Q:

Equação indicials(s−1)+p0 s+q0=0s(s-1) + p_0\,s + q_0 = 0

As raízes s1≥s2s_1 \ge s_2 decidem o formato das duas soluções:

  • s1−s2s_1 - s_2 não inteiro → duas séries de Frobenius independentes;
  • s1=s2s_1 = s_2 → a segunda solução carrega um ln⁡x\ln x;
  • s1−s2s_1 - s_2 inteiro positivo → a segunda pode ou não carregar ln⁡x\ln x; garante-se só a de s1s_1.

19 Funções periódicas, paridade e ortogonalidade

A ideia

A série de Fourier funciona porque senos e cossenos formam uma base ortogonal — e “ortogonal” aqui é literalmente o mesmo conceito de vetores perpendiculares, com a integral no papel do produto escalar. Entendida a ortogonalidade, a fórmula dos coeficientes deixa de ser mágica: ela é a projeção de ff em cada elemento da base.

Produto interno de funções⟨f,g⟩=∫abf(x) g(x) dx\langle f, g\rangle = \int_{a}^{b} f(x)\,g(x)\,dx

Duas funções são ortogonais em [a,b][a,b] quando ⟨f,g⟩=0\langle f,g\rangle = 0.

As relações de ortogonalidade

São elas que fazem tudo funcionar. Em [−π,π][-\pi, \pi], com m,nm, n inteiros positivos:

∫−ππcos⁡(nx)cos⁡(mx) dx={0,n≠mπ,n=m∫−ππsen⁡(nx)sen⁡(mx) dx={0,n≠mπ,n=m\int_{-\pi}^{\pi}\cos(nx)\cos(mx)\,dx = \begin{cases} 0, & n \ne m\\ \pi, & n = m \end{cases} \qquad \int_{-\pi}^{\pi}\operatorname{sen}(nx)\operatorname{sen}(mx)\,dx = \begin{cases} 0, & n \ne m\\ \pi, & n = m \end{cases}∫−ππsen⁡(nx)cos⁡(mx) dx=0sempre\int_{-\pi}^{\pi}\operatorname{sen}(nx)\cos(mx)\,dx = 0 \qquad\text{sempre}

Ou seja: seno é ortogonal a cosseno sempre, e seno com seno (ou cosseno com cosseno) só sobrevive quando os índices coincidem. Multiplicar a série por cos⁡(mx)\cos(mx) e integrar mata todos os termos menos um — e é dessa faxina que sai a fórmula do coeficiente na seção 20.

Paridade, e por que ela poupa metade da conta

Três fatos que a questão 02 do 2º EE de 2025.2 cobra explicitamente:

  • par ×\times par = par, ímpar ×\times ímpar = par, par ×\times ímpar = ímpar;
  • a integral de função ímpar em intervalo simétrico é zero;
  • a integral de função par em intervalo simétrico é o dobro da metade: ∫−LL=2∫0L\int_{-L}^{L} = 2\int_0^L.

20 Série de Fourier: os coeficientes e os casos par e ímpar

A ideia

Taylor aproxima uma função perto de um ponto, usando potências. Fourier representa uma função periódica no intervalo inteiro, usando senos e cossenos. A troca de base tem um efeito prático enorme: funções com bico ou salto — onda quadrada, dente de serra, pulso — que Taylor não alcança, Fourier representa sem esforço. É por isso que é a ferramenta de sinal, de vibração e de condução de calor.

Série de Fourier em período 2Lf(x)=a02+∑n=1∞[ancos⁡nπxL+bnsen⁡nπxL]f(x) = \frac{a_0}{2} + \sum_{n=1}^{\infty}\left[a_n\cos\frac{n\pi x}{L} + b_n\operatorname{sen}\frac{n\pi x}{L}\right]an=1L∫−LLf(x)cos⁡nπxL dx,bn=1L∫−LLf(x)sen⁡nπxL dxa_n = \frac{1}{L}\int_{-L}^{L} f(x)\cos\frac{n\pi x}{L}\,dx, \qquad b_n = \frac{1}{L}\int_{-L}^{L} f(x)\operatorname{sen}\frac{n\pi x}{L}\,dx

Em período 2π2\pi (isto é, L=πL = \pi), que é o caso das provas:

an=1π∫−ππf(x)cos⁡(nx) dx,bn=1π∫−ππf(x)sen⁡(nx) dxa_n = \frac1\pi\int_{-\pi}^{\pi} f(x)\cos(nx)\,dx, \qquad b_n = \frac1\pi\int_{-\pi}^{\pi} f(x)\operatorname{sen}(nx)\,dx

Os dois casos que simplificam

f par  ⟹  bn=0,an=2L∫0Lfcos⁡nπxL dx(seˊrie de cossenos)f \text{ par} \;\Longrightarrow\; b_n = 0, \qquad a_n = \frac{2}{L}\int_0^{L} f\cos\frac{n\pi x}{L}\,dx \qquad\text{(série de cossenos)}f ıˊmpar  ⟹  an=0,bn=2L∫0Lfsen⁡nπxL dx(seˊrie de senos)f \text{ ímpar} \;\Longrightarrow\; a_n = 0, \qquad b_n = \frac{2}{L}\int_0^{L} f\operatorname{sen}\frac{n\pi x}{L}\,dx \qquad\text{(série de senos)}

21 Forma complexa da série de Fourier

A ideia

Aqui as duas unidades se encontram. Trocando seno e cosseno por exponenciais complexas — a fórmula de Euler da seção 02 — a série de Fourier vira uma soma em vez de duas, com um coeficiente em vez de dois. É a forma que se usa em engenharia, porque é dela que sai o espectro e, no limite, a transformada de Fourier.

Forma complexa da série de Fourierf(x)=∑n=−∞∞cn e inπx/L,cn=12L∫−LLf(x) e−inπx/L dxf(x) = \sum_{n=-\infty}^{\infty} c_n\,e^{\,i n\pi x/L}, \qquad c_n = \frac{1}{2L}\int_{-L}^{L} f(x)\,e^{-i n\pi x/L}\,dx

A ponte com a forma real

Substituindo cos⁡θ=eiθ+e−iθ2\cos\theta = \tfrac{e^{i\theta}+e^{-i\theta}}{2} e sen⁡θ=eiθ−e−iθ2i\operatorname{sen}\theta = \tfrac{e^{i\theta}-e^{-i\theta}}{2i} e reagrupando:

cn=an−i bn2,c−n=an+i bn2=cn‾(f real)c_n = \frac{a_n - i\,b_n}{2}, \qquad c_{-n} = \frac{a_n + i\,b_n}{2} = \overline{c_n} \quad (f \text{ real})an=cn+c−n=2Re⁡(cn),bn=i (cn−c−n)=−2Im⁡(cn)a_n = c_n + c_{-n} = 2\operatorname{Re}(c_n), \qquad b_n = i\,(c_n - c_{-n}) = -2\operatorname{Im}(c_n)

Duas leituras que caem em prova:

  • para ff real, c−n=cn‾c_{-n} = \overline{c_n} — os coeficientes vêm em pares conjugados, e o espectro é simétrico;
  • para ff par, os cnc_n são reais; para ff ímpar, são imaginários puros. É a paridade da seção 19 vista no plano complexo.

22 Convergência de Fourier, Dirichlet e Parseval

A ideia

Duas perguntas ficaram abertas na seção 20: a série converge para ff? E o que a soma dos quadrados dos coeficientes significa? A primeira é respondida por Dirichlet, a segunda por Parseval — e a de Parseval é a que resolve questão de prova, porque transforma uma série numérica difícil numa integral fácil.

Convergência pontual: o teorema de Dirichlet

Teorema de Dirichletse f eˊ seccionalmente contıˊnua com derivada seccionalmente contıˊnua, a seˊrie converge para\text{se } f \text{ é seccionalmente contínua com derivada seccionalmente contínua, a série converge para}f(x+)+f(x−)2\frac{f(x^+) + f(x^-)}{2}

Isto é: onde ff é contínua, a série dá f(x)f(x); num salto, ela dá a média dos dois lados, ignorando o valor que o enunciado atribuiu ao ponto.

Identidade de Parseval

Ela é a conservação de energia da decomposição: a energia do sinal é a soma das energias dos harmônicos.

Identidade de Parseval (período 2L)1L∫−LL[f(x)]2dx=a022+∑n=1∞(an2+bn2)\frac{1}{L}\int_{-L}^{L} \big[f(x)\big]^2 dx = \frac{a_0^2}{2} + \sum_{n=1}^{\infty}\left(a_n^2 + b_n^2\right)

Na forma complexa fica ainda mais limpa:

12L∫−LL∣f∣2 dx=∑n=−∞∞∣cn∣2\frac{1}{2L}\int_{-L}^{L}|f|^2\,dx = \sum_{n=-\infty}^{\infty}|c_n|^2

23 Transformada de Laplace e suas propriedades

A ideia

A transformada de Laplace troca o domínio do problema: uma EDO em xx vira uma equação algébrica em ss. Derivada vira multiplicação por ss, integral vira divisão por ss, e as condições iniciais entram automaticamente na conta em vez de serem impostas no fim. Resolve-se a álgebra, volta-se com a inversa, e a solução do PVI aparece pronta.

DefiniçãoL{F(x)}(s)=∫0∞e−sxF(x) dx\mathcal{L}\{F(x)\}(s) = \int_0^{\infty} e^{-sx}F(x)\,dx

A tabela mínima

L{1}=1s,L{xn}=Γ(n+1)s n+1=n!s n+1,L{eax}=1s−a\mathcal{L}\{1\} = \frac1s, \qquad \mathcal{L}\{x^{n}\} = \frac{\Gamma(n+1)}{s^{\,n+1}} = \frac{n!}{s^{\,n+1}}, \qquad \mathcal{L}\{e^{ax}\} = \frac{1}{s-a}L{cos⁡kx}=ss2+k2,L{sen⁡kx}=ks2+k2\mathcal{L}\{\cos kx\} = \frac{s}{s^2+k^2}, \qquad \mathcal{L}\{\operatorname{sen} kx\} = \frac{k}{s^2+k^2}L{cosh⁡kx}=ss2−k2,L{senh⁡kx}=ks2−k2\mathcal{L}\{\cosh kx\} = \frac{s}{s^2-k^2}, \qquad \mathcal{L}\{\operatorname{senh} kx\} = \frac{k}{s^2-k^2}

Note o Γ(n+1)\Gamma(n+1) em vez de n!n!: é a seção 16 entrando, e é o que permite transformar x1/2x^{1/2} ou x3,7x^{3{,}7}.

As propriedades que fazem o trabalho

Linearidade. L{αF+βG}=αL{F}+βL{G}\mathcal{L}\{\alpha F + \beta G\} = \alpha\mathcal{L}\{F\} + \beta\mathcal{L}\{G\}.

Transformada da derivada — a propriedade central, a que resolve PVI:

DerivadasL{F′}=s L{F}−F(0)\mathcal{L}\{F'\} = s\,\mathcal{L}\{F\} - F(0)L{F′′}=s2 L{F}−s F(0)−F′(0)\mathcal{L}\{F''\} = s^2\,\mathcal{L}\{F\} - s\,F(0) - F'(0)

Deslocamento em ss (primeiro teorema da translação):

L{eaxF(x)}=L{F}(s−a)\mathcal{L}\{e^{ax}F(x)\} = \mathcal{L}\{F\}(s-a)

É ele que dá L{xneax}=n!(s−a)n+1\mathcal{L}\{x^ne^{ax}\} = \dfrac{n!}{(s-a)^{n+1}} e L{eaxcos⁡kx}=s−a(s−a)2+k2\mathcal{L}\{e^{ax}\cos kx\} = \dfrac{s-a}{(s-a)^2+k^2}.

Derivada em ss (multiplicação por xx):

L{x F(x)}=−ddsL{F}(s)\mathcal{L}\{x\,F(x)\} = -\frac{d}{ds}\mathcal{L}\{F\}(s)

24 Inversão da transformada de Laplace

A ideia

Transformar é integrar; inverter é reconhecer. Na prática de prova, achar L−1\mathcal{L}^{-1} é manipular a expressão em ss até ela ficar igual a uma linha da tabela — e a ferramenta que faz isso é a decomposição em frações parciais.

Há uma fórmula fechada, a integral de Bromwich, que inverte por resíduos no plano complexo:

Fórmula de inversão (Bromwich-Mellin)F(x)=12πi∫σ−i∞σ+i∞esx L{F}(s) ds=∑kRes⁡[esx L{F}(s)]s=skF(x) = \frac{1}{2\pi i}\int_{\sigma - i\infty}^{\sigma + i\infty} e^{sx}\,\mathcal{L}\{F\}(s)\,ds = \sum_{k} \operatorname{Res}\Big[e^{sx}\,\mathcal{L}\{F\}(s)\Big]_{s = s_k}

Ela fecha o círculo da cadeira — a 1ª unidade serve à 2ª — mas em prova quase nunca é o caminho: frações parciais é mais rápido.

O roteiro por frações parciais

  1. Fatore o denominador em fatores lineares e quadráticos irredutíveis;
  2. Monte a decomposição com um termo por fator — e potência de fator repetido pede um termo por potência;
  3. Ache as constantes, pelo método dos valores convenientes ou igualando coeficientes;
  4. Inverta termo a termo pela tabela.

25 Teorema da convolução e aplicações

A ideia

Laplace transforma soma em soma e derivada em multiplicação por ss — mas não transforma produto em produto. O que corresponde ao produto no domínio de ss é uma operação nova no domínio de xx: a convolução.

Convolução e o teorema(F∗G)(x)=∫0xF(τ) G(x−τ) dτ(F * G)(x) = \int_0^{x} F(\tau)\,G(x-\tau)\,d\tauL{F∗G}=L{F}⋅L{G}⟺L−1{Φ Ψ}=L−1{Φ}∗L−1{Ψ}\mathcal{L}\{F * G\} = \mathcal{L}\{F\}\cdot\mathcal{L}\{G\} \qquad\Longleftrightarrow\qquad \mathcal{L}^{-1}\{\Phi\,\Psi\} = \mathcal{L}^{-1}\{\Phi\} * \mathcal{L}^{-1}\{\Psi\}

Para que serve, em prova

Primeiro uso: inverter um produto sem frações parciais. Quando a expressão em ss já vem fatorada em duas transformadas conhecidas, a convolução dá a inversa direto.

Segundo uso: a resposta de um sistema. Se um sistema linear tem função de transferência H(s)H(s) e entrada u(x)u(x), a saída é y=h∗uy = h * u, com h=L−1{H}h = \mathcal{L}^{-1}\{H\} a resposta ao impulso. É a forma que a engenharia usa: caracterizado o hh, a saída para qualquer entrada é uma convolução.

Terceiro uso: equações integrais. Uma equação do tipo

y(x)=f(x)+∫0xk(x−τ) y(τ) dτy(x) = f(x) + \int_0^x k(x-\tau)\,y(\tau)\,d\tau

tem a integral em forma de convolução. Transformando, ela vira algébrica:

Y=L{f}+L{k} Y⟹Y=L{f}1−L{k}Y = \mathcal{L}\{f\} + \mathcal{L}\{k\}\,Y \qquad\Longrightarrow\qquad Y = \frac{\mathcal{L}\{f\}}{1 - \mathcal{L}\{k\}}

26 Equações diferenciais parciais: exemplos e classificação

A ideia

Numa EDO, a incógnita depende de uma variável. Numa EDP, depende de duas ou mais — tipicamente posição e tempo — e as derivadas são parciais. Quase toda física de meio contínuo é uma EDP: temperatura ao longo de uma barra, deslocamento de uma corda, potencial numa placa.

E a solução geral deixa de ser uma família com nn constantes: passa a envolver funções arbitrárias, que só as condições de contorno e iniciais fixam. É por isso que uma EDP vem sempre acompanhada delas.

As três EDP da cadeira

Calor (difusão), onda e Laplaceut=k uxx(calor: 1ª ordem no tempo)u_t = k\,u_{xx} \qquad\text{(calor: 1ª ordem no tempo)}utt=c2 uxx(onda: 2ª ordem no tempo)u_{tt} = c^2\,u_{xx} \qquad\text{(onda: 2ª ordem no tempo)}uxx+uyy=0(Laplace: regime permanente)u_{xx} + u_{yy} = 0 \qquad\text{(Laplace: regime permanente)}

E a de Poisson, que é Laplace com fonte: uxx+uyy=f(x,y)u_{xx} + u_{yy} = f(x,y).

Note o reencontro: a equação de Laplace é exatamente ∇2u=0\nabla^2 u = 0 da seção 06 — a das funções harmônicas. Toda parte real de função analítica resolve o problema de Laplace, e é por isso que variável complexa e EDP estão na mesma disciplina.

Classificação das lineares de 2ª ordem

Para Auxx+Buxy+Cuyy+⋯=0A u_{xx} + B u_{xy} + C u_{yy} + \cdots = 0, o discriminante B2−4ACB^2 - 4AC classifica:

B2−4ACB^2-4ACtipoprotótipocomportamento
<0< 0elípticaLaplaceequilíbrio, sem tempo; solução suave
=0= 0parabólicacalordifusão; suaviza com o tempo
>0> 0hiperbólicaondapropagação com velocidade finita

Os três tipos de condição de contorno

O nome vem da 1ª unidade da disciplina de transferência de calor, mas a classificação é da matemática, e a prova de 2026.1 usa a segunda:

  • Dirichlet — prescreve o valor: u(0,t)=0u(0,t) = 0. Barra com extremidade a temperatura fixa;
  • Neumann — prescreve a derivada: ux(0,t)=0u_x(0,t) = 0. Extremidade isolada, sem fluxo;
  • Robin (ou mista) — combina os dois: ux+h u=0u_x + h\,u = 0. Extremidade trocando com o ambiente.

27 Separação de variáveis: calor, onda e Laplace

A ideia

O método de Fourier, que fecha a disciplina. A aposta é procurar a solução na forma de um produto:

u(x,t)=X(x) T(t)u(x,t) = X(x)\,T(t)

Substituída na EDP, ela se parte em duas EDO — uma em xx, outra em tt — ligadas por uma constante. Cada EDO se resolve com o que a cadeira já tem, as condições de contorno selecionam quais soluções sobrevivem, e a condição inicial é atendida somando todas elas: é aí que a série de Fourier entra, e é por isso que ela vem antes.

O roteiro, em cinco passos

  1. Separe. Ponha u=XTu = XT na EDP e arrume tudo de um lado em xx e do outro em tt. Como as variáveis são independentes, os dois lados são a mesma constante −λ-\lambda;
  2. Resolva o problema em xx com as condições de contorno. Só certos λ\lambda admitem solução não nula: são os autovalores;
  3. Resolva a EDO em tt com cada λn\lambda_n;
  4. Some: u=∑ncnXn(x)Tn(t)u = \sum_n c_n X_n(x)T_n(t) — a soma resolve a EDP porque ela é linear e homogênea;
  5. Imponha a condição inicial e ache os cnc_n pelas fórmulas de Fourier — é a ortogonalidade que os isola.