Passo 1 — ler as condições de contorno. ux(0,t)=ux(L,t)=0 é condição de Neumann: o que se prescreve é o fluxo, não a temperatura. Fluxo nulo nas pontas significa extremidades isoladas — nada de calor entra ou sai.
Este é o primeiro “detalhe não trivial” que o enunciado cobra: com Neumann a solução sai em cossenos, e não em senos. Quem escreve senos por hábito perde a questão inteira.
Passo 2 — separar variáveis. Procure u=X(x)T(t):
XT′=kX′′T⟹kTT′=XX′′=−λOs dois lados dependem de variáveis independentes, logo ambos são a mesma constante, que se chama −λ por conveniência de sinal.
Passo 3 — o problema em x, e os três casos de λ. A equação é X′′+λX=0, com X′(0)=X′(L)=0. Analisar os três casos é o segundo detalhe que a questão pede:
λ<0. Escrevendo λ=−μ2, a solução é X=Acosh(μx)+Bsenh(μx). De X′(0)=0 vem B=0; de X′(L)=Aμsenh(μL)=0, com senh(μL)=0, vem A=0. Só a solução nula — descartado.
λ=0. Então X′′=0 e X=A+Bx. De X′=B=0 nas duas pontas, sobra X=A constante, que satisfaz as duas condições. Este caso conta — e é a diferença essencial em relação a Dirichlet, onde ele seria descartado.
λ>0. Com λ=μ2: X=Acos(μx)+Bsen(μx), e X′=−Aμsen(μx)+Bμcos(μx).
X′(0)=Bμ=0⟹B=0X′(L)=−Aμsen(μL)=0⟹sen(μL)=0⟹μ=Lnπλn=(Lnπ)2,Xn(x)=cosLnπx,n=1,2,3,…Somando o caso λ=0, a família de autofunções é cos(nπx/L) com n=0,1,2,…
Passo 4 — o problema em t. Para cada λn:
T′=−kλnT⟹Tn(t)=exp[−k(Lnπ)2t]Note que n=0 dá T0=1: o modo constante não decai.
Passo 5 — somar e impor a condição inicial. A equação é linear e homogênea, então a soma de soluções é solução:
u(x,t)=2a0+n=1∑∞ancos(Lnπx)exp[−k(Lnπ)2t]Em t=0:
u(x,0)=2a0+n=1∑∞ancosLnπx=f(x)que é exatamente a série de Fourier de cossenos de f em [0,L]. Pela ortogonalidade,
an=L2∫0Lf(x)cosLnπxdx,n=0,1,2,…Os detalhes não triviais, reunidos — é isso que o enunciado pede por escrito:
1. O modo n=0 existe e não decai. Todos os outros carregam e−k(nπ/L)2t e morrem. Então
t→∞limu(x,t)=2a0=L1∫0Lf(x)dxque é a temperatura média do perfil inicial. Fisicamente inevitável: a barra está isolada, o calor não escapa, e ele só se redistribui até ficar uniforme. Se a condição fosse Dirichlet (u=0 nas pontas), a barra esfriaria até zero.
2. Os detalhes finos somem primeiro. O expoente cresce com n2: o harmônico n=10 decai cem vezes mais rápido que o n=1. Qualquer irregularidade do perfil inicial é suavizada quase imediatamente, e é por isso que a equação do calor é chamada de suavizadora — comportamento típico de EDP parabólica.
3. Conferência da condição de contorno. Cada termo tem ∂x∂cos(Lnπx)=−Lnπsen(Lnπx), que se anula em x=0 e em x=L ✔ — a solução respeita Neumann termo a termo, como tinha de ser.