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Nabla
FÍSICA 3 · 60h

Fundamentos do Eletromagnetismo

Carga e campo elétrico, Lei de Gauss, potencial, capacitância, circuitos CC, campos magnéticos, Biot-Savart e Ampère, indução, circuitos RL/RLC e Equações de Maxwell.

01 Carga elétrica e Lei de Coulomb

A ideia

Tudo no eletromagnetismo começa com uma pergunta simples: por que as coisas se atraem ou se repelem eletricamente? A resposta é a carga elétrica — uma propriedade da matéria, assim como a massa. A diferença é que existe só um tipo de massa, mas existem dois tipos de carga: positiva (prótons) e negativa (elétrons). A regra do jogo:

  • Cargas de mesmo sinal se repelem;
  • Cargas de sinais opostos se atraem.
+q+qFF

Mesmo sinal: forças de repulsão (para fora).

+q−qFF

Sinais opostos: forças de atração (uma para a outra).

Três propriedades que caem em prova

  • Quantização: a carga não vem em qualquer valor — é sempre um múltiplo inteiro da carga do elétron: q=neq = n\,e, com e=1,6×1019Ce = 1{,}6\times 10^{-19}\,\mathrm{C}. Não existe “meia carga elementar”;
  • Conservação: carga não se cria nem se destrói — ao atritar um balão no cabelo, a carga apenas passa de um para o outro;
  • Condutores × isolantes: nos condutores (metais) os elétrons se movem livremente; nos isolantes/dielétricos (borracha, vidro), não. Num condutor em equilíbrio eletrostático, todo o excesso de carga vai para a superfície e o campo elétrico dentro dele é zero.

A Lei de Coulomb — o “quanto” da força

Lei de CoulombF=k0q1q2d2F = k_0 \frac{|q_1||q_2|}{d^2}

Leia a fórmula assim: a força cresce com o produto das cargas e cai com o quadrado da distância — dobrou a distância, a força cai para 1/4. O sinal das cargas não entra na conta do módulo; ele só decide se é atração ou repulsão (por isso o módulo q|q|). A força atua na linha reta que une as duas cargas.

E com mais de duas cargas? Vale o princípio da superposição: a força total sobre uma carga é a soma vetorial das forças que cada outra carga faz sobre ela, calculadas uma a uma como se as demais não existissem.

02 Campo elétrico

A ideia

A Lei de Coulomb exige duas cargas. Mas e se eu quiser descrever a influência de uma carga sozinha no espaço ao redor dela? Essa é a ideia de campo elétrico: uma carga qq modifica o espaço à sua volta, criando em cada ponto um “vetor de instrução” E\vec E que diz qual força uma carga de prova sentiria se fosse colocada ali. Pense no campo como um mapa de forças preenchendo o espaço.

Definição de campo e campo de uma carga pontualE=Fq0E=k0qr2F=qE\vec E = \frac{\vec F}{q_0} \qquad\qquad E = k_0\frac{|q|}{r^2} \qquad\qquad \vec F = q\,\vec E

Sentido do campo: carga positiva cria campo apontando para fora (afastando-se dela); carga negativa, para dentro. As linhas de campo desenham esse mapa: saem das positivas, chegam nas negativas, nunca se cruzam, e onde estão mais juntas o campo é mais intenso.

+

Carga positiva: linhas saem (campo para fora).

Carga negativa: linhas chegam (campo para dentro).

Superposição: o problema clássico das duas cargas

Campo também soma vetorialmente. O exemplo mais cobrado em prova: duas cargas positivas iguais no eixo yy, e queremos o campo num ponto PP do eixo perpendicular. Cada carga gera seu E1\vec E_1 e E2\vec E_2 apontando para longe de si; as componentes verticais são opostas e se cancelam, e as horizontais se somam:

yz+q+qd/2PE₁E₂E res

As componentes em yy se cancelam por simetria; sobra E=2E1cosθE = 2E_1\cos\theta ao longo do eixo.

Distribuições contínuas de carga

Quando a carga está espalhada num fio, anel ou placa, não dá para somar carga por carga — a soma vira uma integral: divida o objeto em pedacinhos dqdq, escreva dE=k0dq/r2dE = k_0\,dq/r^2 e integre (a simetria elimina componentes). Para descrever “quanta carga tem em cada pedaço”, usamos as densidades:

Densidades de cargaλ=qL  (linear),σ=qA  (superficial),ρ=qV  (volumeˊtrica)\lambda = \frac{q}{L} \;(\text{linear}), \qquad \sigma = \frac{q}{A} \;(\text{superficial}), \qquad \rho = \frac{q}{V} \;(\text{volumétrica})
Resultados clássicos (decorar!)Anel (eixo): E=k0qz(z2+R2)3/2Fio infinito: E=λ2πϵ0rPlano infinito: E=σ2ϵ0\text{Anel (eixo): } E = \frac{k_0 q z}{(z^2+R^2)^{3/2}} \qquad \text{Fio infinito: } E = \frac{\lambda}{2\pi\epsilon_0 r} \qquad \text{Plano infinito: } E = \frac{\sigma}{2\epsilon_0}

O dipolo elétrico (par +q+q, q-q separado por dd) tem momento p=qdp = qd e, num campo externo, sofre torque τ=p×E\vec\tau = \vec p \times \vec E que tende a alinhá-lo ao campo.

03 Lei de Gauss

A ideia

Calcular campo por integração direta (seção anterior) pode ser trabalhoso. A Lei de Gauss é o atalho: quando o problema tem simetria (esfera, cilindro, plano), ela entrega o campo em três linhas. A ferramenta central é o fluxo elétrico ΦE\Phi_E — imagine as linhas de campo como “água escoando”: o fluxo mede quantas linhas atravessam uma superfície.

Lei de GaussΦE=SEdA=qintϵ0\Phi_E = \oint_S \vec E \cdot d\vec A = \frac{q_{int}}{\epsilon_0}

Em palavras: o fluxo total que sai de uma superfície fechada só depende da carga que está dentro dela — não importa a forma da superfície nem onde a carga está lá dentro.

Como usar para calcular campo

A estratégia: escolha uma superfície gaussiana imaginária que copie a simetria do problema, de modo que EE seja constante sobre ela e o produto escalar fique simples. Aí EdA=E(aˊrea)\oint \vec E\cdot d\vec A = E\cdot(\text{área}) e é só isolar EE:

  • Simetria esférica (carga pontual, esfera): gaussiana = esfera de raio rrE4πr2=qint/ϵ0E \cdot 4\pi r^2 = q_{int}/\epsilon_0;
  • Simetria cilíndrica (fio, cilindro longo): gaussiana = cilindro de raio rr e comprimento LLE2πrL=qint/ϵ0E \cdot 2\pi r L = q_{int}/\epsilon_0;
  • Simetria planar (placa infinita): gaussiana = caixinha (“pillbox”) atravessando a placa → E2A=σA/ϵ0E \cdot 2A = \sigma A/\epsilon_0.
Rrcarga QgaussianaE

A gaussiana (tracejada) copia a simetria: EE tem o mesmo valor em todos os pontos dela.

rER∝ r (dentro)∝ 1/r² (fora)

O gráfico “montanha”: máximo na superfície r=Rr = R.

Esfera isolante uniformemente carregada (raio R, carga Q)Edentro(r)=k0QrR3    (rR)Efora(r)=k0Qr2    (rR)E_{dentro}(r) = \frac{k_0 Q\, r}{R^3} \;\; (r \le R) \qquad\qquad E_{fora}(r) = \frac{k_0 Q}{r^2} \;\;(r \ge R)

Por que dentro só vale rr? Porque a gaussiana de raio r<Rr \lt R só envolve a fração da carga proporcional ao volume: qint=Qr3/R3q_{int} = Q\,r^3/R^3. Fora, envolve QQ inteira e a esfera se comporta como carga pontual.

Condutor em equilíbrio (campo na superfície)Edentro=0Esuperfıˊcie=σϵ0E_{dentro} = 0 \qquad\qquad E_{superfície} = \frac{\sigma}{\epsilon_0}

04 Potencial elétrico

A ideia

Força e campo são vetores — somar vetores dá trabalho. O potencial elétrico VV descreve a mesma física pelo lado da energia, e energia é um escalar (um número com sinal, sem direção). A analogia boa é altitude: assim como uma bola desce a ladeira do ponto alto para o baixo, uma carga positiva “desce” do potencial alto para o baixo. O campo E\vec E é a “inclinação da ladeira”: aponta na direção em que VV cai mais rápido.

Relação entre potencial e campoΔV=VBVA=ABEde, no sentido inverso,E=V=(Vx,Vy,Vz)\Delta V = V_B - V_A = -\int_A^B \vec E \cdot d\vec \ell \qquad\text{e, no sentido inverso,}\qquad \vec E = -\nabla V = -\left(\frac{\partial V}{\partial x}, \frac{\partial V}{\partial y}, \frac{\partial V}{\partial z}\right)
Potencial de carga pontual (referência no infinito)V=k0qrVtotal=ik0qiri    (soma escalar, com sinal!)V = \frac{k_0\, q}{r} \qquad\qquad V_{total} = \sum_i \frac{k_0 q_i}{r_i} \;\;(\text{soma escalar, com sinal!})

Repare na diferença para o campo: aqui é rr (não r2r^2) e a soma de várias cargas é soma comum de números — carga negativa entra com sinal negativo, e pronto. Por isso, sempre que a questão permitir, resolva pela via do potencial.

+V₁V₂V₃E

Equipotenciais (tracejadas, V1>V2>V3V_1 \gt V_2 \gt V_3): E\vec E é sempre perpendicular a elas, apontando do maior para o menor potencial.

Trabalho e energia potencial

U=k0q1q2dWcampo=ΔU=q(VAVB)U = \frac{k_0 q_1 q_2}{d} \qquad W_{campo} = -\Delta U = q\,(V_A - V_B)

Para um sistema de várias cargas, UtotalU_{total} é a soma de k0qiqj/dijk_0 q_i q_j / d_{ij} sobre todos os pares. Se uma carga é trazida do infinito em equilíbrio (velocidade constante), o trabalho do agente externo é Wext=qVfinalW_{ext} = q\,V_{final} e o do campo é Wcampo=qVfinalW_{campo} = -q\,V_{final}.

Superfícies equipotenciais são perpendiculares às linhas de campo; mover carga sobre uma equipotencial não custa trabalho. Num condutor em equilíbrio, todo o volume é um equipotencial.

05 Capacitância

A ideia

Um capacitor é um “tanque de carga”: dois condutores separados (as placas), um com +q+q e o outro com q-q, mantendo entre si uma diferença de potencial VV. A capacitância CC mede o tamanho desse tanque — quanta carga ele guarda por volt aplicado. Ela só depende da geometria (formato, área, distância) e do material entre as placas, nunca de qq ou VV individualmente.

+q−qE uniformedárea A

Placas paralelas: campo praticamente uniforme entre elas, V=EdV = E\,d.

Capacitância e geometrias clássicasC=qV    [F]Cplacas=ϵ0AdCesf=4πϵ0abbaCcil=2πϵ0Lln(b/a)C = \frac{q}{V} \;\;[\mathrm{F}] \qquad\qquad C_{placas} = \frac{\epsilon_0 A}{d} \qquad C_{esf} = 4\pi\epsilon_0\frac{ab}{b-a} \qquad C_{cil} = \frac{2\pi\epsilon_0 L}{\ln(b/a)}

Associações

Paralelo (mesma d.d.p.): Ceq=C1+C2+Seˊrie (mesma carga): 1Ceq=1C1+1C2+\text{Paralelo (mesma d.d.p.): } C_{eq} = C_1 + C_2 + \cdots \qquad\quad \text{Série (mesma carga): } \frac{1}{C_{eq}} = \frac{1}{C_1} + \frac{1}{C_2} + \cdots

Energia armazenada e dielétricos

U=q22C=12CV2=12qVu=ϵ0E22  (densidade de energia do campo)U = \frac{q^2}{2C} = \frac{1}{2}CV^2 = \frac{1}{2}qV \qquad\qquad u = \frac{\epsilon_0 E^2}{2} \;(\text{densidade de energia do campo})

Inserir um dielétrico (isolante) de constante κ\kappa multiplica a capacitância: C=κC0C = \kappa\, C_0. O detalhe que decide a questão é o que fica constante:

  • Capacitor desconectado da bateria: qq constante → V=q/CV = q/C cai;
  • Capacitor conectado à bateria: VV constante → q=CVq = CV aumenta.

06 Corrente e resistência elétrica

A ideia

Até aqui as cargas estavam paradas (eletrostática). Agora elas fluem: a corrente elétrica é a vazão de carga num fio, como litros por segundo numa mangueira. E todo material real oferece uma resistência a esse fluxo — os elétrons “trombam” na rede do material e dissipam energia (por isso fio esquenta).

Corrente e densidade de correntei=dqdt  [A]J=iA=nevdi = \frac{dq}{dt}\;[\mathrm{A}] \qquad\qquad J = \frac{i}{A} = n\,e\,v_d
iLárea Aρ domaterial

Fio mais longo resiste mais (RLR \propto L); fio mais grosso resiste menos (R1/AR \propto 1/A).

Lei de Ohm, resistência e resistividadeV=RiR=ρLAρ(T)=ρ0[1+α(TT0)]V = R\,i \qquad\qquad R = \rho\frac{L}{A} \qquad\qquad \rho(T) = \rho_0[1 + \alpha(T - T_0)]

Potência elétrica

P=Vi=Ri2=V2RP = V\,i = R\,i^2 = \frac{V^2}{R}

07 Circuitos de corrente contínua

A ideia

Um circuito é um caminho fechado por onde a corrente circula, empurrada por uma fonte de força eletromotriz ε\varepsilon (a “bomba d’água” do circuito — uma bateria, por exemplo). Resolver um circuito é descobrir a corrente e a tensão em cada elemento. As ferramentas: associação de resistores e as duas Leis de Kirchhoff.

Associação de resistores

Seˊrie: Req=R1+R2+Paralelo: 1Req=1R1+1R2+\text{Série: } R_{eq} = R_1 + R_2 + \cdots \qquad\qquad \text{Paralelo: } \frac{1}{R_{eq}} = \frac{1}{R_1} + \frac{1}{R_2} + \cdots
R₁R₂mesma i

Série: mesma corrente; as tensões se dividem.

R₁R₂mesma V

Paralelo: mesma tensão; as correntes se dividem.

Leis de Kirchhoff

  • Lei dos nós: a soma das correntes que entram num nó é igual à soma das que saem — a carga não some nem se acumula (conservação de carga);
  • Lei das malhas: dando uma volta completa em qualquer malha fechada, a soma das variações de potencial é zero — voltar ao mesmo ponto é voltar ao mesmo potencial (conservação de energia).

Convenções ao percorrer a malha: atravessar resistor no sentido da corrente Ri\Rightarrow -Ri (potencial cai); contra a corrente +Ri\Rightarrow +Ri; atravessar fonte do terminal − para o + +ε\Rightarrow +\varepsilon.

Circuito RC

Ligue um resistor e um capacitor em série com uma fonte: o capacitor não carrega instantaneamente — a carga sobe numa curva exponencial cujo “relógio” é a constante de tempo τ=RC\tau = RC:

Carga e descarga do capacitor (constante de tempo τ = RC)q(t)=Cε(1et/RC)    (carga)q(t)=q0et/RC    (descarga)q(t) = C\varepsilon\left(1 - e^{-t/RC}\right) \;\;(\text{carga}) \qquad\qquad q(t) = q_0\, e^{-t/RC} \;\;(\text{descarga})

Os dois extremos que resolvem quase toda questão conceitual: no instante inicial o capacitor descarregado age como fio (curto-circuito); após muito tempo, age como chave aberta (corrente zero no seu ramo).

08 Campos magnéticos e força magnética

A ideia

O campo magnético B\vec B é o “primo” do campo elétrico, mas com uma personalidade bem diferente: ele só faz força em carga em movimento, e essa força é sempre perpendicular à velocidade e ao próprio campo (é um produto vetorial). Aqui a visão espacial é tudo — por isso as provas usam os símbolos (vetor saindo do papel, como a ponta de uma flecha vindo em você) e (vetor entrando no papel, como o rabo da flecha).

Força magnética sobre carga e sobre correnteF=qv×BF=iL×B(F=qvBsinθ,    F=BiLsinθ)\vec F = q\,\vec v \times \vec B \qquad\qquad \vec F = i\,\vec L \times \vec B \qquad (F = qvB\sin\theta,\;\; F = BiL\sin\theta)
B ⊗+vF

B\vec B entrando (⊗), v\vec v para a direita → F=qv×B\vec F = q\vec v\times\vec B para cima (carga +).

+vFrB ⊙ (saindo)

Força sempre ⊥ à velocidade → trajetória circular de raio r=mv/qBr = mv/|q|B.

Como a força é sempre perpendicular ao movimento, ela não realiza trabalho: não muda o módulo da velocidade, só a direção. Resultado: a partícula descreve um círculo.

Movimento circular no campor=mvqBω=qBm  (frequeˆncia de cıˊclotron, independe de v)r = \frac{mv}{|q|B} \qquad\qquad \omega = \frac{|q|B}{m} \;(\text{frequência de cíclotron, independe de } v)

Espira de corrente: torque e momento de dipolo

μ=NiAτ=μ×BU=μB\mu = N\,i\,A \qquad\qquad \vec\tau = \vec\mu \times \vec B \qquad\qquad U = -\vec\mu\cdot\vec B

O efeito Hall permite medir o sinal e a densidade dos portadores: o campo empurra portadores para um lado da fita, criando a tensão Hall VH=Bi/(net)V_H = B i /(n e t).

09 Fontes de campo magnético: Biot-Savart e Ampère

A ideia

Se campo magnético faz força em corrente, quem cria campo magnético? Resposta: a própria corrente. Todo fio percorrido por corrente gera ao seu redor um campo B\vec B que circula em anéis em torno do fio. O sentido vem da regra da mão direita: polegar no sentido da corrente, os dedos se curvam no sentido de B\vec B.

i ⊙B

Corrente saindo da página (⊙): B\vec B gira anti-horário.

i ⊗B

Corrente entrando na página (⊗): B\vec B gira horário.

Lei de Biot-Savart

É a “Lei de Coulomb do magnetismo”: diz o campo que cada pedacinho de fio gera, para depois integrar:

dB=μ0i4πds×r^r2,μ0=4π×107  Tm/Ad\vec B = \frac{\mu_0\, i}{4\pi} \frac{d\vec s \times \hat r}{r^2}, \qquad \mu_0 = 4\pi\times10^{-7}\;\mathrm{T\,m/A}

Roteiro da demonstração pedida na 2ª EE 2025.2 (fio finito/infinito): escreva ds×r^=dxsinθ|d\vec s \times \hat r| = dx\sin\theta, use r2=x2+a2r^2 = x^2 + a^2 e sinθ=a/x2+a2\sin\theta = a/\sqrt{x^2+a^2}, e integre com dx(x2+a2)3/2=xa2x2+a2\displaystyle\int\frac{dx}{(x^2+a^2)^{3/2}} = \frac{x}{a^2\sqrt{x^2+a^2}}.

Resultados que valem ouroFio infinito: B=μ0i2πaCentro de espira: B=μ0i2RArco de aˆngulo ϕ:B=μ0iϕ4πR\text{Fio infinito: } B = \frac{\mu_0 i}{2\pi a} \qquad \text{Centro de espira: } B = \frac{\mu_0 i}{2R} \qquad \text{Arco de ângulo } \phi: B = \frac{\mu_0 i \phi}{4\pi R}

Força entre fios paralelos

Junte as duas ideias: o fio 1 cria campo onde está o fio 2, e esse campo faz força na corrente do fio 2:

FL=μ0i1i22πdcorrentes no mesmo sentido se ATRAEM; opostas se repelem\frac{F}{L} = \frac{\mu_0\, i_1 i_2}{2\pi d} \qquad \text{correntes no mesmo sentido se ATRAEM; opostas se repelem}

Lei de Ampère

É a “Lei de Gauss do magnetismo”: em problemas com simetria cilíndrica, a circulação de B\vec B ao longo de uma curva fechada (a amperiana) só depende da corrente que passa por dentro dela:

Bd=μ0ienv\oint \vec B \cdot d\vec \ell = \mu_0\, i_{env}

Para fio grosso de raio aa com corrente uniforme (questão clássica), a amperiana interna só envolve a fração de corrente proporcional à área:

Bdentro(r)=μ0i0r2πa2    (ra)Bfora(r)=μ0i02πr    (ra)B_{dentro}(r) = \frac{\mu_0 i_0\, r}{2\pi a^2} \;\;(r \le a) \qquad\qquad B_{fora}(r) = \frac{\mu_0 i_0}{2\pi r} \;\;(r \ge a)
rBa∝ r (dentro)∝ 1/r (fora)

Mesma “montanha” da esfera de Gauss, com máximo em r=ar = a.

10 Indução: Lei de Faraday e Lei de Lenz

A ideia

Até agora: carga cria E\vec E, corrente cria B\vec B. Faraday descobriu o caminho de volta: campo magnético VARIANDO cria corrente. Se o fluxo magnético que atravessa uma espira mudar com o tempo — porque BB mudou, a área mudou, ou a espira girou — aparece nela uma força eletromotriz induzida E\mathcal{E}, como se uma bateria invisível tivesse sido ligada. É o princípio do gerador, do transformador e do carregador sem fio.

Fluxo magnético e Lei de FaradayΦB=BdAE=dΦBdt(com N espiras: E=NdΦBdt)\Phi_B = \int \vec B \cdot d\vec A \qquad\qquad \mathcal{E} = -\frac{d\Phi_B}{dt} \qquad (\text{com } N \text{ espiras: } \mathcal{E} = -N\frac{d\Phi_B}{dt})

Se B\vec B é uniforme e faz ângulo θ\theta com a normal da espira: ΦB=BAcosθ\Phi_B = B\,A\cos\theta. Três jeitos de variar o fluxo = três tipos de questão: mudar B(t)B(t), mudar a área (barra deslizando) ou girar a espira (gerador).

Lei de Lenz (o sinal de menos)

A natureza “não gosta” de variação de fluxo: a corrente induzida circula no sentido que cria um campo oposto à variação — se o fluxo está caindo, ela tenta “segurá-lo”; se está crescendo, ela tenta “frear”. Receita visual: (1) qual o sentido de B\vec B na espira? (2) o fluxo está aumentando ou diminuindo? (3) a corrente induzida cria campo para compensar — sentido pela mão direita.

i induzidaB ⊗ diminuindoi horária “segura” o fluxo

BB entrando e diminuindo → a corrente induzida gira no sentido horário para repor o fluxo que está sumindo.

vB ⊗ℓ = distância entre trilhos

Barra deslizando: a área do circuito cresce → fem E=Bv\mathcal{E} = B\ell v.

Fem de movimento e campo elétrico induzido

E=Bv    (barra deslizando)Ed=dΦBdt  (E induzido, na˜o conservativo)\mathcal{E} = B\ell v \;\;(\text{barra deslizando}) \qquad\qquad \oint \vec E \cdot d\vec\ell = -\frac{d\Phi_B}{dt} \;(\text{E induzido, não conservativo})

11 Indutância e circuitos RL

A ideia

Uma bobina percorrida por corrente cria campo que atravessa ela mesma. Se a corrente varia, o fluxo próprio varia — e, por Faraday, a bobina induz fem em si mesma, sempre se opondo à mudança. Esse “efeito inércia” da corrente é a autoindutância LL: o indutor é para a corrente o que a massa é para a velocidade — resiste a variações bruscas.

Indutância e fem auto-induzidaL=NΦBi  [H]EL=LdidtLsolenoide=μ0n2AL = \frac{N\Phi_B}{i}\;[\mathrm{H}] \qquad\qquad \mathcal{E}_L = -L\frac{di}{dt} \qquad\qquad L_{solenoide} = \mu_0 n^2 A \ell

Circuito RL

Ligue fonte + resistor + indutor em série: a corrente não salta para o valor final — ela cresce suavemente, freada pelo indutor, com constante de tempo τL=L/R\tau_L = L/R:

Crescimento e decaimento da corrente (τ = L/R)i(t)=εR(1et/τL)i(t)=i0et/τLτL=LRi(t) = \frac{\varepsilon}{R}\left(1 - e^{-t/\tau_L}\right) \qquad\qquad i(t) = i_0\, e^{-t/\tau_L} \qquad \tau_L = \frac{L}{R}
εRLi(t)

Circuito RL série.

tii final = ε/Rτ = L/R63%

Em t=τt = \tau a corrente já atingiu ~63% do valor final.

Os dois extremos para resolver questões conceituais: em t=0t = 0 o indutor bloqueia a variação e age como chave aberta (corrente nula, toda a fem cai nele: VL=εV_L = \varepsilon). Após muito tempo, age como fio e i=ε/Ri = \varepsilon/R. Compare com o capacitor — é o comportamento invertido.

Energia no indutor e no campo magnético

UL=12Li2uB=B22μ0  (densidade de energia)U_L = \frac{1}{2}L\,i^2 \qquad\qquad u_B = \frac{B^2}{2\mu_0} \;(\text{densidade de energia})

Indutância mútua: E2=Mdi1/dt\mathcal{E}_2 = -M\, di_1/dt — a variação de corrente numa bobina induz fem na vizinha (princípio do transformador).

12 Oscilações LC/RLC e corrente alternada

Oscilador LC — a ideia

Ligue um capacitor carregado num indutor: o capacitor descarrega pelo indutor, que devolve a energia carregando o capacitor ao contrário, e assim por diante. A energia fica balançando entre o campo elétrico do capacitor (q2/2Cq^2/2C) e o campo magnético do indutor (Li2/2Li^2/2) — é o análogo elétrico exato do massa-mola: qq faz papel de posição, ii de velocidade, LL de massa e 1/C1/C de constante da mola.

q(t)=Qcos(ω0t+ϕ),ω0=1LCq(t) = Q\cos(\omega_0 t + \phi), \qquad \omega_0 = \frac{1}{\sqrt{LC}}

Com resistência (RLC), parte da energia vira calor a cada ciclo e a oscilação é amortecida: q(t)=QeRt/2Lcos(ωt+ϕ)q(t) = Q\,e^{-Rt/2L}\cos(\omega' t + \phi).

Corrente alternada: reatâncias e impedância

Agora force o circuito RLC com uma fonte senoidal de frequência ωd\omega_d. A fonte impõe uma tensão que varia no tempo — é justamente a expressão que aparece nos enunciados de prova:

Tensão da fonte alternadaE(t)=Emsin(ωdt)ωd=2πf\mathcal{E}(t) = \mathcal{E}_m\,\sin(\omega_d t) \qquad \omega_d = 2\pi f

Cada elemento “atrapalha” a corrente de um jeito: o resistor dissipa, o indutor odeia frequências altas (XLX_L cresce com ω\omega), o capacitor odeia frequências baixas (XCX_C cresce quando ω\omega cai). O efeito conjunto é a impedância ZZ — a “resistência generalizada” do circuito:

XL=ωdLXC=1ωdCZ=R2+(XLXC)2I=EmZX_L = \omega_d L \qquad X_C = \frac{1}{\omega_d C} \qquad Z = \sqrt{R^2 + (X_L - X_C)^2} \qquad I = \frac{\mathcal{E}_m}{Z}
Tensão em cada elemento (amplitudes)VR=IRVL=IXLVC=IXCEm=VR2+(VLVC)2V_R = I R \qquad V_L = I X_L \qquad V_C = I X_C \qquad \mathcal{E}_m = \sqrt{V_R^2 + (V_L - V_C)^2}
Fase e potência médiatanϕ=XLXCRi(t)=Isin(ωdtϕ)cosϕ=RZ\tan\phi = \frac{X_L - X_C}{R} \qquad\quad i(t) = I\sin(\omega_d t - \phi) \qquad\quad \cos\phi = \frac{R}{Z}Pmed=Irms2R=I22R=12EmIcosϕ,Irms=I2,Erms=Em2P_{med} = I_{rms}^2 R = \frac{I^2}{2}R = \frac{1}{2}\mathcal{E}_m I\cos\phi, \qquad I_{rms} = \frac{I}{\sqrt2}, \quad \mathcal{E}_{rms} = \frac{\mathcal{E}_m}{\sqrt2}

Ressonância

Quando ωd=ω0=1/LC\omega_d = \omega_0 = 1/\sqrt{LC}: XL=XCX_L = X_C e as reatâncias se cancelam. A impedância vira Z=RZ = R (mínima), a corrente é máxima e ϕ=0\phi = 0 (circuito puramente resistivo). É o mesmo fenômeno de empurrar um balanço na frequência certa.

ω_dIω₀I máx = ε/R

Ressonância: pico de corrente em ωd=ω0=1/LC\omega_d = \omega_0 = 1/\sqrt{LC}.

13 Equações de Maxwell

A ideia

Chegou a hora de juntar tudo. As quatro Equações de Maxwell são o “resumo executivo” da cadeira inteira — cada uma é um capítulo que você já estudou:

Forma integralEdA=qintϵ0BdA=0\oint \vec E \cdot d\vec A = \frac{q_{int}}{\epsilon_0} \qquad\qquad \oint \vec B \cdot d\vec A = 0Ed=dΦBdtBd=μ0ienv+μ0ϵ0dΦEdt\oint \vec E \cdot d\vec\ell = -\frac{d\Phi_B}{dt} \qquad\qquad \oint \vec B \cdot d\vec\ell = \mu_0\, i_{env} + \mu_0\epsilon_0 \frac{d\Phi_E}{dt}
  1. Gauss (E): cargas criam campo elétrico divergente — é a seção 03;
  2. Gauss (B): o fluxo de B\vec B por qualquer superfície fechada é zero — não existem monopolos magnéticos; as linhas de B\vec B sempre se fecham em anéis;
  3. Faraday: fluxo magnético variável induz campo elétrico circulante — é a seção 10;
  4. Ampère–Maxwell: correntes E fluxo elétrico variável criam campo magnético. O termo novo id=ϵ0dΦE/dti_d = \epsilon_0\, d\Phi_E/dt é a corrente de deslocamento — a correção de Maxwell, que explica o campo magnético entre as placas de um capacitor carregando (onde não passa corrente de verdade, mas o campo E\vec E está variando).

Ondas eletromagnéticas

Combine Faraday com Ampère–Maxwell: B\vec B variando cria E\vec E, que variando cria B\vec B… essa realimentação se propaga sozinha pelo espaço como onda eletromagnética — luz, rádio, wi-fi:

cE (vertical)B (horizontal, ⊥ a E)

EB\vec E \perp \vec B, ambos perpendiculares à direção de propagação, com E=cBE = cB.

A velocidade sai das próprias constantes do eletromagnetismo: c=1/μ0ϵ03×108c = 1/\sqrt{\mu_0\epsilon_0} \approx 3\times10^8 m/s — foi assim que Maxwell descobriu que luz é onda eletromagnética.