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Nabla
MAT05 · 60h

Cálculo Diferencial e Integral Vetorial (Cálculo 3)

Funções de várias variáveis, limites, derivadas parciais, máximos e mínimos, integrais múltiplas, integrais de linha e de superfície, e os teoremas de Green, Gauss e Stokes.

01 Funções de várias variáveis

A ideia. No Cálculo 1 a função era uma “máquina” que recebia um número e devolvia outro: y=f(x)y = f(x), e o gráfico era uma curva no plano. Agora a máquina recebe dois números (um ponto do plano) e devolve um: z=f(x,y)z = f(x,y). O gráfico vira uma superfície flutuando sobre o plano xyxy — pense num terreno com morros e vales, em que a altura do terreno sobre o ponto (x,y)(x,y) é o valor f(x,y)f(x,y). Toda a 1ª unidade é aprender a “enxergar” e medir esse terreno: onde ele sobe, onde desce, onde tem pico.

Domínio

Determinar o domínio é a primeira pergunta clássica de prova. As restrições mais comuns:

  • Raiz de índice par: o radicando deve ser 0\geq 0;
  • Denominador: deve ser 0\neq 0;
  • Logaritmo: o argumento deve ser >0\gt 0;
  • arcsin\arcsin e arccos\arccos: argumento em [1,1][-1, 1].

Curvas e superfícies de nível

A curva de nível kk é o conjunto dos pontos do domínio onde f(x,y)=kf(x,y) = k. É a “fatia horizontal” do gráfico projetada no plano xyxy — exatamente como as curvas de altitude de um mapa topográfico. Para f(x,y,z)f(x,y,z), o análogo é a superfície de nível f(x,y,z)=kf(x,y,z)=k.

xzz = 3z = 2z = 1z = x² + y² (a “tigela”)

Cada plano horizontal z=kz = k corta a superfície num círculo…

xyk=1k=2k=3

… e a projeção desses cortes no plano xyxy é o mapa de curvas de nível: círculos x2+y2=kx^2+y^2 = k.

Superfícies quádricas que você precisa reconhecer

  • Paraboloide elíptico: z=x2+y2z = x^2 + y^2 (uma “tigela”);
  • Paraboloide hiperbólico (sela): z=x2y2z = x^2 - y^2;
  • Esfera: x2+y2+z2=R2x^2 + y^2 + z^2 = R^2;
  • Elipsoide: x2a2+y2b2+z2c2=1\frac{x^2}{a^2}+\frac{y^2}{b^2}+\frac{z^2}{c^2}=1;
  • Cone: z2=x2+y2z^2 = x^2 + y^2;
  • Cilindro: x2+y2=R2x^2 + y^2 = R^2 (livre em zz).

02 Limites e continuidade

A ideia. No Cálculo 1, para chegar num ponto da reta só existem dois lados: pela esquerda e pela direita. No plano, você pode chegar em (a,b)(a,b) por infinitos caminhos — pelos eixos, por retas inclinadas, por parábolas, por espirais. Dizemos que lim(x,y)(a,b)f(x,y)=L\displaystyle\lim_{(x,y)\to(a,b)} f(x,y) = L quando f(x,y)f(x,y) fica arbitrariamente próximo de LL por qualquer caminho de aproximação. Se dois caminhos derem valores diferentes, o limite não existe — e essa é a jogada nº 1 das provas.

xy(a,b)por y = 0por x = 0por y = mxpor y = x²

O limite só existe se todos os caminhos levarem ao mesmo valor. Basta um par discordante para o limite não existir.

Como mostrar que o limite NÃO existe

Basta exibir dois caminhos que levem a valores diferentes. Caminhos usuais: eixos (y=0y=0 ou x=0x=0), retas y=mxy = mx, parábolas y=x2y = x^2.

Exemplo clássico (cai direto em prova)lim(x,y)(0,0)x2y2x2+y2:por y=0x2x2=1;por x=0y2y2=1.\lim_{(x,y)\to(0,0)} \frac{x^2 - y^2}{x^2 + y^2}: \quad \text{por } y=0 \Rightarrow \frac{x^2}{x^2} = 1; \quad \text{por } x=0 \Rightarrow \frac{-y^2}{y^2} = -1.

Valores diferentes \Rightarrow o limite não existe.

Como mostrar que o limite EXISTE

  • Coordenadas polares: troque x=rcosθx = r\cos\theta, y=rsinθy = r\sin\theta; então (x,y)(0,0)(x,y)\to(0,0) equivale a r0r \to 0. Se o resultado não depender de θ\theta, o limite existe;
  • Teorema do confronto (sanduíche): encontre gg com fg|f| \leq g e g0g \to 0. Desigualdades úteis: xx2+y2|x| \leq \sqrt{x^2+y^2},   x2x2+y2\;x^2 \leq x^2+y^2,   xy12(x2+y2)\;|xy| \leq \tfrac{1}{2}(x^2+y^2);
  • Limite fundamental: limu0sinuu=1\displaystyle\lim_{u\to 0}\frac{\sin u}{u} = 1 e limu01cosuu=0\displaystyle\lim_{u\to 0}\frac{1-\cos u}{u} = 0, com u=x2+y2u = x^2+y^2 por exemplo.
Exemplo com limite fundamental (1º EE 2023.2)lim(x,y)(0,0)1cos(x2+y2)2x2+2y2  =u=x2+y2  12limu01cosuu=120=0.\lim_{(x,y)\to(0,0)} \frac{1-\cos(x^2+y^2)}{2x^2+2y^2} \;\overset{u = x^2+y^2}{=}\; \frac{1}{2}\lim_{u\to 0}\frac{1-\cos u}{u} = \frac{1}{2}\cdot 0 = 0.

Uma função é contínua em (a,b)(a,b) quando o limite existe e é igual a f(a,b)f(a,b). Polinômios são contínuos em todo o plano; quocientes são contínuos onde o denominador não zera.

03 Derivadas parciais

A ideia. Imagine que você está parado num ponto do “terreno” z=f(x,y)z = f(x,y) e quer saber a inclinação. Inclinação em qual direção? A derivada parcial fxf_x responde: “se eu andar só na direção do eixo xx, quanto o terreno sobe?”. É como cortar a superfície com um plano vertical paralelo ao eixo xx e medir a inclinação da curva que sobra. A parcial fyf_y faz o mesmo na direção yy.

Definiçãofx(a,b)=limh0f(a+h,b)f(a,b)h,fy(a,b)=limh0f(a,b+h)f(a,b)h\frac{\partial f}{\partial x}(a,b) = \lim_{h \to 0} \frac{f(a+h,\,b) - f(a,b)}{h}, \qquad \frac{\partial f}{\partial y}(a,b) = \lim_{h \to 0} \frac{f(a,\,b+h) - f(a,b)}{h}

Na prática: para achar fxf_x, derive normalmente em xx fingindo que yy é um número, e vice-versa.

Derivadas de ordem superior e Teorema de Clairaut/Schwarz

Podemos derivar de novo: fxxf_{xx}, fyyf_{yy}, fxyf_{xy}, fyxf_{yx}. Se as derivadas mistas forem contínuas, então

fxy=fyxf_{xy} = f_{yx}

Regra da cadeia

Se z=f(x,y)z = f(x,y) com x=x(t)x = x(t) e y=y(t)y = y(t):

dzdt=fxdxdt+fydydt\frac{dz}{dt} = \frac{\partial f}{\partial x}\frac{dx}{dt} + \frac{\partial f}{\partial y}\frac{dy}{dt}

Se xx e yy dependem de duas variáveis u,vu,v, aplica-se o mesmo esquema para z/u\partial z/\partial u e z/v\partial z/\partial v: soma-se uma parcela por “caminho” de dependência.

zxyt∂z/∂x∂z/∂ydx/dtdy/dt

Desça da raiz zz até tt por cada caminho, multiplicando as derivadas do caminho, e some os caminhos: dzdt=zxdxdt+zydydt\frac{dz}{dt} = \frac{\partial z}{\partial x}\frac{dx}{dt} + \frac{\partial z}{\partial y}\frac{dy}{dt}.

Derivação implícita

Se F(x,y,z)=0F(x,y,z) = 0 define zz implicitamente:

zx=FxFz,zy=FyFz\frac{\partial z}{\partial x} = -\frac{F_x}{F_z}, \qquad \frac{\partial z}{\partial y} = -\frac{F_y}{F_z}

04 Diferenciabilidade, gradiente e derivada direcional

A ideia. As parciais fxf_x e fyf_y medem a inclinação em duas direções fixas. Mas e se eu quiser andar em qualquer direção? O gradiente resolve tudo de uma vez: é um vetor que, em cada ponto, aponta para onde o terreno sobe mais rápido — como uma bússola do “caminho mais íngreme”. Com ele, a inclinação em qualquer direção vira um simples produto escalar.

Gradiente

O gradiente empacota todas as derivadas parciais num vetor:

f=(fx,  fy,  fz)\nabla f = \left(\frac{\partial f}{\partial x},\; \frac{\partial f}{\partial y},\; \frac{\partial f}{\partial z}\right)

Propriedades geométricas fundamentais (caem em questões conceituais):

  • f\nabla f aponta na direção de máximo crescimento de ff; a taxa máxima é f\lVert\nabla f\rVert;
  • f-\nabla f aponta na direção de máximo decrescimento;
  • f\nabla f é perpendicular às curvas/superfícies de nível.
k=3k=2k=1P∇fûθ

f\nabla f é perpendicular às curvas de nível e aponta para os valores maiores. A derivada direcional é a “sombra” de f\nabla f na direção u^\hat u: Du^f=fcosθD_{\hat u}f = \lVert\nabla f\rVert\cos\theta.

Derivada direcional

Taxa de variação de ff na direção de um vetor unitário u^\hat{u}:

Du^f(P)=f(P)u^,u^=uuD_{\hat u} f(P) = \nabla f(P) \cdot \hat{u}, \qquad \hat u = \frac{\vec u}{\lVert \vec u \rVert}

Plano tangente e reta normal

Para uma superfície dada como gráfico z=f(x,y)z = f(x,y), no ponto (x0,y0,z0)(x_0, y_0, z_0):

Plano tangente (gráfico)zz0=fx(x0,y0)(xx0)+fy(x0,y0)(yy0)z - z_0 = f_x(x_0,y_0)\,(x - x_0) + f_y(x_0,y_0)\,(y - y_0)

Para uma superfície de nível F(x,y,z)=kF(x,y,z) = k, o vetor normal é F(P)\nabla F(P) e o plano tangente é:

Plano tangente (superfície de nível)Fx(P)(xx0)+Fy(P)(yy0)+Fz(P)(zz0)=0F_x(P)(x-x_0) + F_y(P)(y-y_0) + F_z(P)(z-z_0) = 0

Diferenciabilidade e linearização

Ser diferenciável significa que o plano tangente aproxima bem a função perto do ponto. A aproximação linear é:

f(x,y)f(a,b)+fx(a,b)(xa)+fy(a,b)(yb)f(x,y) \approx f(a,b) + f_x(a,b)(x-a) + f_y(a,b)(y-b)

Se as derivadas parciais existem e são contínuas numa vizinhança do ponto, então ff é diferenciável ali (condição suficiente).

05 Máximos e mínimos. Hessiana

A ideia. No topo de um morro ou no fundo de um vale, o terreno fica momentaneamente “plano”: nenhuma direção sobe. Matematicamente, o gradiente zera. Mas atenção: existe um terceiro personagem que não existia no Cálculo 1 — a sela (como uma sela de cavalo ou um passo de montanha): o ponto é plano, mas sobe numa direção e desce na outra. O teste da Hessiana serve exatamente para distinguir esses três casos.

Pontos críticos

PP é ponto crítico quando o gradiente zera (ou não existe):

f(P)=0    {fx=0fy=0\nabla f(P) = \vec 0 \iff \begin{cases} f_x = 0 \\ f_y = 0 \end{cases}

Resolva o sistema com cuidado — cada solução (x,y)(x,y) é um candidato a máximo, mínimo ou sela.

Classificação: teste da segunda derivada (Hessiana)

Determinante HessianoD(x,y)=det(fxxfxyfxyfyy)=fxxfyy(fxy)2D(x,y) = \det\begin{pmatrix} f_{xx} & f_{xy} \\ f_{xy} & f_{yy} \end{pmatrix} = f_{xx}\,f_{yy} - (f_{xy})^2
  • D>0D \gt 0 e fxx>0f_{xx} \gt 0 \Rightarrow mínimo local;
  • D>0D \gt 0 e fxx<0f_{xx} \lt 0 \Rightarrow máximo local;
  • D<0D \lt 0 \Rightarrow ponto de sela;
  • D=0D = 0 \Rightarrow o teste é inconclusivo (analise diretamente a função).
mínD > 0: curvas fechadas (poço ou pico)

Perto de máximo/mínimo, as curvas de nível são “anéis” fechados em torno do ponto.

selaD < 0: curvas em “X” (sobe num eixo, desce no outro)

Perto de uma sela, as curvas de nível formam hipérboles: ff cresce numa direção e decresce na outra.

Máximos e mínimos globais em regiões fechadas

Pelo Teorema de Weierstrass, uma função contínua em região fechada e limitada atinge máximo e mínimo globais. Roteiro:

  1. Ache os pontos críticos no interior;
  2. Analise a função na fronteira (parametrize ou use Lagrange);
  3. Compare todos os valores obtidos: o maior é o máximo global e o menor, o mínimo global.

06 Multiplicadores de Lagrange

A ideia. Agora você não pode mais andar livremente pelo terreno: está preso a uma trilha (a restrição g(x,y)=kg(x,y)=k) e quer achar o ponto mais alto da trilha. Pense nas curvas de nível de ff como as linhas de altitude do mapa: enquanto a trilha ainda cruza curvas de nível, dá para subir mais. O ponto ótimo é onde a trilha apenas tangencia uma curva de nível — e curvas tangentes têm normais paralelas, ou seja, fg\nabla f \parallel \nabla g. O λ\lambda é só o fator de proporcionalidade entre os dois gradientes.

Sistema de Lagrange{f=λgg(x,y)=k    {fx=λgxfy=λgyg(x,y)=k\begin{cases} \nabla f = \lambda \nabla g \\ g(x,y) = k \end{cases} \iff \begin{cases} f_x = \lambda\, g_x \\ f_y = \lambda\, g_y \\ g(x,y) = k \end{cases}
f = 1f = 2f = 3 (ótimo)f = 4g(x,y) = k (a trilha)P*∇f∇g

No ponto ótimo PP^*, a curva de nível de ff tangencia a restrição: f\nabla f e g\nabla g ficam paralelos (f=λg\nabla f = \lambda\nabla g).

Resolvido o sistema, avalie ff em cada solução: o maior valor é o máximo e o menor, o mínimo (a restrição sendo fechada e limitada).

Com duas restrições g=k1g = k_1 e h=k2h = k_2, o sistema vira f=λg+μh\nabla f = \lambda \nabla g + \mu \nabla h junto com as duas restrições.

07 Integrais múltiplas: domínios, áreas e volumes

A ideia. A integral simples somava “fatias” de área sob uma curva. A integral dupla soma “colunas”: divida a região DD do plano em quadradinhos dAdA, sobre cada um erga uma coluna de altura f(x,y)f(x,y), e some o volume de todas. O trabalho de prova quase nunca está no integrando — está em descrever a região corretamente (os limites de integração) e em escolher o sistema de coordenadas que deixa a região simples.

Integral dupla

DfdA\iint_D f\, dA soma os valores de ff sobre a região DD. Se f0f \geq 0, é o volume sob o gráfico; se f=1f = 1, é a área de DD. Pelo Teorema de Fubini, calcula-se como integral iterada:

Região tipo I (entre duas curvas em y)DfdA=abg1(x)g2(x)f(x,y)  dydx\iint_D f\,dA = \int_a^b \int_{g_1(x)}^{g_2(x)} f(x,y)\; dy\, dx
xyg₁(x)g₂(x)abpara x fixo, y vai de g₁(x) a g₂(x)

Região tipo I: xx varre de aa a bb e, em cada fatia vertical, yy sobe da curva de baixo à de cima. Desenhar a região é 80% da questão.

Região tipo II (entre duas curvas em x)DfdA=cdh1(y)h2(y)f(x,y)  dxdy\iint_D f\,dA = \int_c^d \int_{h_1(y)}^{h_2(y)} f(x,y)\; dx\, dy

Coordenadas polares

Para regiões circulares/anulares ou integrandos com x2+y2x^2 + y^2:

Mudança polar (não esqueça o Jacobiano r!)x=rcosθ,y=rsinθ,dA=rdrdθ,x2+y2=r2x = r\cos\theta, \quad y = r\sin\theta, \quad dA = r\, dr\, d\theta, \quad x^2 + y^2 = r^2
xydA ≈ (r dθ)(dr)rθ

O “retângulo polar” tem lados drdr (radial) e rdθr\,d\theta (arco) — daí dA=rdrdθdA = r\,dr\,d\theta. Quanto mais longe da origem, maior o arco: esse é o papel do Jacobiano.

Integral tripla

EfdV\iiint_E f\, dV com f=1f = 1 dá o volume de EE. Duas mudanças de variáveis essenciais:

Cilíndricas (simetria em torno do eixo z)x=rcosθ,y=rsinθ,z=z,dV=r  dzdrdθx = r\cos\theta,\quad y = r\sin\theta,\quad z = z, \qquad dV = r\; dz\, dr\, d\theta
Esféricas (esferas e cones)x=ρsinϕcosθ,y=ρsinϕsinθ,z=ρcosϕ,dV=ρ2sinϕ  dρdϕdθx = \rho\sin\phi\cos\theta,\quad y = \rho\sin\phi\sin\theta,\quad z = \rho\cos\phi, \qquad dV = \rho^2 \sin\phi\; d\rho\, d\phi\, d\theta
zxyPρφθ

ϕ\phi “desce” do eixo zz até o raio ρ\rho; θ\theta gira no plano xyxy. O cone z=x2+y2z = \sqrt{x^2+y^2} é simplesmente ϕ=π/4\phi = \pi/4.

Aplicações

  • Massa: m=DδdAm = \iint_D \delta\, dA (ou tripla com dVdV), onde δ\delta é a densidade;
  • Centro de massa: xˉ=1mxδdA\bar x = \frac{1}{m}\iint x\,\delta\, dA,   yˉ=1myδdA\;\bar y = \frac{1}{m}\iint y\,\delta\, dA;
  • Valor médio de ff em DD: 1A(D)DfdA\frac{1}{A(D)}\iint_D f\, dA.

08 Curvas no espaço. Triedro de Frenet

A ideia. Pense numa partícula (ou numa formiga) viajando pelo espaço: em cada instante tt ela está numa posição r(t)\vec r(t). A trajetória é a curva; a derivada r(t)\vec r\,'(t) é a velocidade (sempre tangente ao caminho); e o comprimento do caminho é a integral da rapidez. O triedro de Frenet é o “GPS local” da formiga: para onde vou (T^\hat T), para onde a curva está virando (N^\hat N) e o eixo em torno do qual ela gira (B^\hat B).

Uma curva é descrita por uma função vetorial r(t)=(x(t),y(t),z(t))\vec r(t) = (x(t),\, y(t),\, z(t)). O vetor r(t)\vec r\,'(t) é tangente à curva (velocidade) e r(t)\lVert \vec r\,'(t)\rVert é a rapidez.

Comprimento de arcoL=abr(t)dt=abx(t)2+y(t)2+z(t)2  dtL = \int_a^b \lVert \vec r\,'(t) \rVert\, dt = \int_a^b \sqrt{x'(t)^2 + y'(t)^2 + z'(t)^2}\; dt

Triedro de Frenet

Em cada ponto da curva definimos três vetores unitários ortogonais:

CT̂ (tangente)N̂ (normal)B̂ = T̂ × N̂

T^\hat T aponta para onde a curva vai; N^\hat N aponta para dentro da “curva” (a concavidade); B^\hat B completa o trio, perpendicular aos dois.

T^=rr  (tangente),N^=T^T^  (normal principal),B^=T^×N^  (binormal)\hat T = \frac{\vec r\,'}{\lVert \vec r\,' \rVert} \;(\text{tangente}), \qquad \hat N = \frac{\hat T'}{\lVert \hat T' \rVert} \;(\text{normal principal}), \qquad \hat B = \hat T \times \hat N \;(\text{binormal})
Curvaturaκ=T^(t)r(t)=r×rr3\kappa = \frac{\lVert \hat T'(t) \rVert}{\lVert \vec r\,'(t) \rVert} = \frac{\lVert \vec r\,' \times \vec r\,'' \rVert}{\lVert \vec r\,' \rVert^3}

A curvatura mede o quanto a curva “dobra”: uma reta tem κ=0\kappa = 0 e um círculo de raio RR tem κ=1/R\kappa = 1/R. A parametrização pelo comprimento de arco ss é aquela em que se percorre a curva com rapidez 1; nela, κ=T^(s)\kappa = \lVert \hat T'(s)\rVert diretamente.

09 Integrais de linha e campos conservativos

A ideia. Um campo vetorial F\vec F é como um “vento” que sopra em cada ponto do plano/espaço. A integral de linha vetorial responde: se eu empurrar uma partícula ao longo da curva CC, quanto o vento me ajuda ou atrapalha? Em cada pedacinho do caminho, só conta a componente de F\vec F na direção do movimento — por isso o produto escalar Fdr\vec F\cdot d\vec r. O resultado é o trabalho realizado pelo campo.

Integral de linha escalar (em relação ao comprimento de arco)

Cf  ds=abf(r(t))r(t)  dt\int_C f\; ds = \int_a^b f(\vec r(t))\, \lVert \vec r\,'(t) \rVert\; dt

Interpretação: massa de um arame com densidade ff, ou área de uma “cerca” de altura ff sobre a curva.

Integral de linha vetorial (trabalho)

W=CFdr=abF(r(t))r(t)  dt=CPdx+QdyW = \int_C \vec F \cdot d\vec r = \int_a^b \vec F(\vec r(t)) \cdot \vec r\,'(t)\; dt = \int_C P\,dx + Q\,dy
ABdr (tangente)F

Em cada ponto do caminho, Fdr\vec F\cdot d\vec r mede o quanto o campo “empurra” no sentido do movimento. Somando tudo, sai o trabalho WW.

Roteiro de cálculo direto: (1) parametrize a curva; (2) substitua na F\vec F; (3) faça o produto escalar com r(t)\vec r\,'(t); (4) integre em tt. Inverter a orientação da curva troca o sinal.

Campos conservativos e o Teorema Fundamental

F\vec F é conservativo quando existe função potencial φ\varphi com φ=F\nabla \varphi = \vec F. Teste em 2D (região simplesmente conexa):

Teste de conservatividadeF=(P,Q) conservativo    Qx=Py\vec F = (P,\,Q) \text{ conservativo} \iff \frac{\partial Q}{\partial x} = \frac{\partial P}{\partial y}
Teorema Fundamental das integrais de linhaCφdr=φ(B)φ(A)\int_C \nabla\varphi \cdot d\vec r = \varphi(B) - \varphi(A)

Consequências: a integral de um campo conservativo não depende do caminho, só dos extremos; em qualquer curva fechada, vale zero.

ABC₁C₂∫C₁ F·dr = ∫C₂ F·dr = φ(B) − φ(A)

Campo conservativo: tanto faz o caminho — só os extremos importam. Numa curva fechada (A=BA = B), o trabalho é zero.

Como achar o potencial: integre PP em xx obtendo φ=Pdx+g(y)\varphi = \int P\,dx + g(y); derive em yy, iguale a QQ e descubra g(y)g(y).

10 Teorema de Green

A ideia. Dar a volta completa numa curva fechada calculando Fdr\oint \vec F\cdot d\vec r pode ser trabalhoso (parametrizar cada trecho…). O Teorema de Green oferece uma troca: em vez de somar o campo ao longo da borda, some uma quantidade (QxPyQ_x - P_y, o “giro local” do campo) dentro da região. Borda ↔ interior: essa é a essência dos três grandes teoremas da unidade.

Teorema de GreenCPdx+Qdy=D(QxPy)dA\oint_C P\,dx + Q\,dy = \iint_D \left( \frac{\partial Q}{\partial x} - \frac{\partial P}{\partial y} \right) dA
D∬ (Q_x − P_y) dAC (anti-horário)

A circulação ao longo da borda CC (anti-horária: a região fica à sua esquerda) é igual à soma do “giro local” dentro de DD.

Condições: CC fechada, simples, orientada positivamente; PP e QQ com derivadas contínuas em DD (cuidado com singularidades dentro da região, como a origem em campos com x2+y2x^2+y^2 no denominador).

Aplicação: área via integral de linha

A(D)=Cxdy=Cydx=12CxdyydxA(D) = \oint_C x\, dy = -\oint_C y\, dx = \frac{1}{2} \oint_C x\,dy - y\,dx

11 Superfícies parametrizadas e integrais de superfície

A ideia. Uma curva precisa de um parâmetro (tt) para ser varrida; uma superfície precisa de dois (uu e vv) — como as coordenadas de um mapa que cobre uma folha amassada no espaço. Fixando vv e variando uu, você anda numa “linha de grade”; o vetor tangente a ela é ru\vec r_u. Idem para rv\vec r_v. Esses dois tangentes geram o plano tangente à superfície, e o produto vetorial deles dá o vetor normal (perpendicular à superfície). O tamanho desse produto vetorial é a área do paralelogramo formado pelos dois passinhos — ou seja, o “pedacinho de área” dSdS.

Normal e elemento de árean=ru×rv,dS=ru×rv  dudv\vec n = \vec r_u \times \vec r_v, \qquad dS = \lVert \vec r_u \times \vec r_v \rVert\; du\, dv
Sr_ur_vn = r_u × r_v

Os tangentes ru\vec r_u e rv\vec r_v geram o plano tangente; seu produto vetorial é a normal n\vec n, e o tamanho dele é o pedacinho de área dSdS.

Integral de superfície escalar

Sf  dS=Df(r(u,v))ru×rv  dudv\iint_S f\; dS = \iint_D f(\vec r(u,v))\, \lVert \vec r_u \times \vec r_v \rVert\; du\, dv

Interpretação: massa de uma chapa fina de densidade ff, ou (com f=1f=1) a própria área da superfície. Caso a superfície seja um gráfico z=g(x,y)z = g(x,y), a conta simplifica:

dS=1+gx2+gy2    dAA(S)=D1+gx2+gy2dAdS = \sqrt{1 + g_x^2 + g_y^2}\;\; dA \qquad\Rightarrow\qquad A(S) = \iint_D \sqrt{1+g_x^2+g_y^2}\, dA

Integral de superfície vetorial (fluxo)

Φ=SFdS=DF(ru×rv)  dudv\Phi = \iint_S \vec F \cdot d\vec S = \iint_D \vec F \cdot (\vec r_u \times \vec r_v)\; du\, dv

O fluxo mede “quanto do campo atravessa a superfície” — como a vazão de água passando por uma rede. Só conta a parte de F\vec F alinhada com a normal (por isso o produto escalar com n\vec n). A orientação (para onde aponta n\vec n) muda o sinal — leia sempre se o enunciado pede normal exterior ou “para cima”.

12 Operador nabla: divergente e rotacional

A ideia. Pense no campo F\vec F como o escoamento de um fluido: em cada ponto há um vetor dizendo para onde e com que força a água se move. Duas perguntas naturais surgem. “Nesse ponto, está saindo mais água do que entrando (uma torneira) ou o contrário (um ralo)?” — quem responde é o divergente, um número. “Nesse ponto, o fluido tende a girar como um redemoinho?” — quem responde é o rotacional, um vetor que aponta no eixo do giro. O operador \nabla (“nabla”) é só um jeito compacto de escrever as duas coisas: divergente é \nabla num “produto escalar” e rotacional é \nabla num “produto vetorial”.

O operador nabla=(x, y, z)\nabla = \left(\frac{\partial}{\partial x},\ \frac{\partial}{\partial y},\ \frac{\partial}{\partial z}\right)
Divergente (dá escalar): "produto escalar" com nabladivF=F=Px+Qy+Rz\operatorname{div} \vec F = \nabla \cdot \vec F = \frac{\partial P}{\partial x} + \frac{\partial Q}{\partial y} + \frac{\partial R}{\partial z}
Rotacional (dá vetor): "produto vetorial" com nablarotF=×F=i^j^k^xyzPQR=(RyQz,    PzRx,    QxPy)\operatorname{rot} \vec F = \nabla \times \vec F = \begin{vmatrix} \hat i & \hat j & \hat k \\ \partial_x & \partial_y & \partial_z \\ P & Q & R \end{vmatrix} = \left( R_y - Q_z,\;\; P_z - R_x,\;\; Q_x - P_y \right)
div > 0 (fonte)rot ≠ 0 (giro)eixo

Divergente mede o quanto o campo “jorra” de um ponto (fonte) ou some nele (ralo). Rotacional mede o giro local; o vetor aponta no eixo da rotação (regra da mão direita).

Interpretações físicas: o divergente mede expansão/compressão local (fontes e sumidouros); o rotacional mede a tendência de rotação local do campo.

Identidades importantes

  • ×(φ)=0\nabla \times (\nabla \varphi) = \vec 0 — gradientes não giram (campo conservativo \Rightarrow rotacional nulo);
  • (×F)=0\nabla \cdot (\nabla \times \vec F) = 0 — rotacionais não têm divergência;
  • Em 3D (domínio simplesmente conexo): F\vec F conservativo     ×F=0\iff \nabla \times \vec F = \vec 0.

13 Teorema da divergência (Gauss)

A ideia. Imagine uma superfície fechada — uma casca, tipo um balão — mergulhada num escoamento. Quer saber a vazão líquida que sai por toda a casca (o fluxo). Uma opção é somar o campo ponto a ponto na superfície (trabalhoso). O Teorema de Gauss oferece a troca: essa vazão total pela casca é igual à soma de todas as “torneiras e ralos” (o divergente) espalhados pelo sólido de dentro. Faz sentido físico: se dentro do balão só há fontes jorrando água, tudo isso tem que sair pela casca. É a mesma filosofia de Green (borda ↔ interior), só que agora casca 2D ↔ sólido 3D.

Teorema de GaussSFdS=EF    dV(S fechada, normal exterior)\iint_S \vec F \cdot d\vec S = \iiint_E \nabla \cdot \vec F\;\; dV \qquad (S \text{ fechada, normal exterior})
S (casca fechada)E: ∭ ∇·F dV

Toda a “água” produzida pelas fontes dentro de EE (bolinhas) precisa sair pela casca SS: fluxo pela superfície = divergente somado no volume.

Roteiro: (1) verifique que SS é fechada (se não for, feche com uma “tampa” e desconte o fluxo dela); (2) calcule F\nabla\cdot\vec F; (3) escolha coordenadas adequadas (cilíndricas/esféricas) para a tripla; (4) confira a orientação: o teorema exige normal exterior.

14 Teorema de Stokes

A ideia. É o Green “levantado do plano para o espaço”. Você tem uma curva fechada CC no espaço e quer a circulação CFdr\oint_C\vec F\cdot d\vec r (o quanto o campo “gira” ao longo dela). Stokes diz: em vez de percorrer a borda, escolha qualquer superfície SS que tenha CC como contorno (uma “tampa” apoiada na curva) e some o rotacional através dela. O detalhe libertador: como o resultado só depende da borda, você pode trocar uma superfície feia (paraboloide, hemisfério) por um disco plano de mesma borda — e a conta desmorona.

Teorema de StokesCFdr=S(×F)dS\oint_C \vec F \cdot d\vec r = \iint_S (\nabla \times \vec F) \cdot d\vec S
S (tampa)C (borda)n (mão direita)

A circulação ao longo de CC é igual ao fluxo do rotacional por qualquer superfície SS apoiada em CC. Dedos no sentido de CC, polegar aponta n\vec n.

A orientação segue a regra da mão direita: com os dedos no sentido de percurso de CC, o polegar dá o sentido da normal de SS.

Duas jogadas estratégicas que as provas adoram:

  • Trocar a integral de linha por fluxo do rotacional quando a curva é ruim de parametrizar mas o rotacional é simples;
  • Trocar a superfície: como o resultado só depende da borda CC, você pode substituir uma superfície complicada (paraboloide, hemisfério) pelo disco plano de mesma borda — a conta despenca de dificuldade.

Resumo dos três grandes teoremas

CPdx+Qdy=D(QxPy)dAGreen: curvaregia˜o planaCFdr=S(×F)dSStokes: bordasuperfıˊcieSFdS=EFdVGauss: casca fechadasoˊlido\underbrace{\oint_C P\,dx + Q\,dy = \iint_D (Q_x - P_y)\, dA}_{\text{Green: curva} \to \text{região plana}} \qquad \underbrace{\oint_C \vec F \cdot d\vec r = \iint_S (\nabla\times\vec F)\cdot d\vec S}_{\text{Stokes: borda} \to \text{superfície}} \qquad \underbrace{\iint_S \vec F \cdot d\vec S = \iiint_E \nabla\cdot\vec F\, dV}_{\text{Gauss: casca fechada} \to \text{sólido}}