Cálculo Diferencial e Integral Vetorial (Cálculo 3)
Funções de várias variáveis, limites, derivadas parciais, máximos e mínimos, integrais múltiplas, integrais de linha e de superfície, e os teoremas de Green, Gauss e Stokes.
01 Funções de várias variáveis
A ideia. No Cálculo 1 a função era uma “máquina” que recebia um número e devolvia outro: y=f(x), e o gráfico era uma curva no plano. Agora a máquina recebe dois números (um ponto do plano) e devolve um: z=f(x,y). O gráfico vira uma superfície flutuando sobre o plano xy — pense num terreno com morros e vales, em que a altura do terreno sobre o ponto (x,y) é o valor f(x,y). Toda a 1ª unidade é aprender a “enxergar” e medir esse terreno: onde ele sobe, onde desce, onde tem pico.
Domínio
Determinar o domínio é a primeira pergunta clássica de prova. As restrições mais comuns:
Raiz de índice par: o radicando deve ser ≥0;
Denominador: deve ser =0;
Logaritmo: o argumento deve ser >0;
arcsin e arccos: argumento em [−1,1].
Curvas e superfícies de nível
A curva de nívelk é o conjunto dos pontos do domínio onde f(x,y)=k. É a “fatia horizontal” do gráfico projetada no plano xy — exatamente como as curvas de altitude de um mapa topográfico. Para f(x,y,z), o análogo é a superfície de nívelf(x,y,z)=k.
Cada plano horizontal z=k corta a superfície num círculo…
… e a projeção desses cortes no plano xy é o mapa de curvas de nível: círculos x2+y2=k.
Superfícies quádricas que você precisa reconhecer
Paraboloide elíptico:z=x2+y2 (uma “tigela”);
Paraboloide hiperbólico (sela):z=x2−y2;
Esfera:x2+y2+z2=R2;
Elipsoide:a2x2+b2y2+c2z2=1;
Cone:z2=x2+y2;
Cilindro:x2+y2=R2 (livre em z).
02 Limites e continuidade
A ideia. No Cálculo 1, para chegar num ponto da reta só existem dois lados: pela esquerda e pela direita. No plano, você pode chegar em (a,b) por infinitos caminhos — pelos eixos, por retas inclinadas, por parábolas, por espirais. Dizemos que (x,y)→(a,b)limf(x,y)=L quando f(x,y) fica arbitrariamente próximo de Lpor qualquer caminho de aproximação. Se dois caminhos derem valores diferentes, o limite não existe — e essa é a jogada nº 1 das provas.
O limite só existe se todos os caminhos levarem ao mesmo valor. Basta um par discordante para o limite não existir.
Como mostrar que o limite NÃO existe
Basta exibir dois caminhos que levem a valores diferentes. Caminhos usuais: eixos (y=0 ou x=0), retas y=mx, parábolas y=x2.
Exemplo clássico (cai direto em prova)(x,y)→(0,0)limx2+y2x2−y2:por y=0⇒x2x2=1;por x=0⇒y2−y2=−1.
Valores diferentes ⇒ o limite não existe.
Como mostrar que o limite EXISTE
Coordenadas polares: troque x=rcosθ, y=rsinθ; então (x,y)→(0,0) equivale a r→0. Se o resultado não depender de θ, o limite existe;
Teorema do confronto (sanduíche): encontre g com ∣f∣≤g e g→0. Desigualdades úteis: ∣x∣≤x2+y2, x2≤x2+y2, ∣xy∣≤21(x2+y2);
Limite fundamental:u→0limusinu=1 e u→0limu1−cosu=0, com u=x2+y2 por exemplo.
Exemplo com limite fundamental (1º EE 2023.2)(x,y)→(0,0)lim2x2+2y21−cos(x2+y2)=u=x2+y221u→0limu1−cosu=21⋅0=0.
Uma função é contínua em (a,b) quando o limite existe e é igual a f(a,b). Polinômios são contínuos em todo o plano; quocientes são contínuos onde o denominador não zera.
03 Derivadas parciais
A ideia. Imagine que você está parado num ponto do “terreno” z=f(x,y) e quer saber a inclinação. Inclinação em qual direção? A derivada parcial fx responde: “se eu andar só na direção do eixo x, quanto o terreno sobe?”. É como cortar a superfície com um plano vertical paralelo ao eixo x e medir a inclinação da curva que sobra. A parcial fy faz o mesmo na direção y.
Na prática: para achar fx, derive normalmente em x fingindo que y é um número, e vice-versa.
Derivadas de ordem superior e Teorema de Clairaut/Schwarz
Podemos derivar de novo: fxx, fyy, fxy, fyx. Se as derivadas mistas forem contínuas, então
fxy=fyx
Regra da cadeia
Se z=f(x,y) com x=x(t) e y=y(t):
dtdz=∂x∂fdtdx+∂y∂fdtdy
Se x e y dependem de duas variáveis u,v, aplica-se o mesmo esquema para ∂z/∂u e ∂z/∂v: soma-se uma parcela por “caminho” de dependência.
Desça da raiz z até t por cada caminho, multiplicando as derivadas do caminho, e some os caminhos: dtdz=∂x∂zdtdx+∂y∂zdtdy.
Derivação implícita
Se F(x,y,z)=0 define z implicitamente:
∂x∂z=−FzFx,∂y∂z=−FzFy
04 Diferenciabilidade, gradiente e derivada direcional
A ideia. As parciais fx e fy medem a inclinação em duas direções fixas. Mas e se eu quiser andar em qualquer direção? O gradiente resolve tudo de uma vez: é um vetor que, em cada ponto, aponta para onde o terreno sobe mais rápido — como uma bússola do “caminho mais íngreme”. Com ele, a inclinação em qualquer direção vira um simples produto escalar.
Gradiente
O gradiente empacota todas as derivadas parciais num vetor:
∇f=(∂x∂f,∂y∂f,∂z∂f)
Propriedades geométricas fundamentais (caem em questões conceituais):
∇f aponta na direção de máximo crescimento de f; a taxa máxima é ∥∇f∥;
−∇f aponta na direção de máximo decrescimento;
∇f é perpendicular às curvas/superfícies de nível.
∇f é perpendicular às curvas de nível e aponta para os valores maiores. A derivada direcional é a “sombra” de ∇f na direção u^: Du^f=∥∇f∥cosθ.
Derivada direcional
Taxa de variação de f na direção de um vetor unitáriou^:
Du^f(P)=∇f(P)⋅u^,u^=∥u∥u
Plano tangente e reta normal
Para uma superfície dada como gráfico z=f(x,y), no ponto (x0,y0,z0):
Plano tangente (gráfico)z−z0=fx(x0,y0)(x−x0)+fy(x0,y0)(y−y0)
Para uma superfície de nível F(x,y,z)=k, o vetor normal é ∇F(P) e o plano tangente é:
Plano tangente (superfície de nível)Fx(P)(x−x0)+Fy(P)(y−y0)+Fz(P)(z−z0)=0
Diferenciabilidade e linearização
Ser diferenciável significa que o plano tangente aproxima bem a função perto do ponto. A aproximação linear é:
f(x,y)≈f(a,b)+fx(a,b)(x−a)+fy(a,b)(y−b)
Se as derivadas parciais existem e são contínuas numa vizinhança do ponto, então f é diferenciável ali (condição suficiente).
05 Máximos e mínimos. Hessiana
A ideia. No topo de um morro ou no fundo de um vale, o terreno fica momentaneamente “plano”: nenhuma direção sobe. Matematicamente, o gradiente zera. Mas atenção: existe um terceiro personagem que não existia no Cálculo 1 — a sela (como uma sela de cavalo ou um passo de montanha): o ponto é plano, mas sobe numa direção e desce na outra. O teste da Hessiana serve exatamente para distinguir esses três casos.
Pontos críticos
P é ponto crítico quando o gradiente zera (ou não existe):
∇f(P)=0⟺{fx=0fy=0
Resolva o sistema com cuidado — cada solução (x,y) é um candidato a máximo, mínimo ou sela.
Classificação: teste da segunda derivada (Hessiana)
D=0⇒ o teste é inconclusivo (analise diretamente a função).
Perto de máximo/mínimo, as curvas de nível são “anéis” fechados em torno do ponto.
Perto de uma sela, as curvas de nível formam hipérboles: f cresce numa direção e decresce na outra.
Máximos e mínimos globais em regiões fechadas
Pelo Teorema de Weierstrass, uma função contínua em região fechada e limitada atinge máximo e mínimo globais. Roteiro:
Ache os pontos críticos no interior;
Analise a função na fronteira (parametrize ou use Lagrange);
Compare todos os valores obtidos: o maior é o máximo global e o menor, o mínimo global.
06 Multiplicadores de Lagrange
A ideia. Agora você não pode mais andar livremente pelo terreno: está preso a uma trilha (a restrição g(x,y)=k) e quer achar o ponto mais alto da trilha. Pense nas curvas de nível de f como as linhas de altitude do mapa: enquanto a trilha ainda cruza curvas de nível, dá para subir mais. O ponto ótimo é onde a trilha apenas tangencia uma curva de nível — e curvas tangentes têm normais paralelas, ou seja, ∇f∥∇g. O λ é só o fator de proporcionalidade entre os dois gradientes.
Sistema de Lagrange{∇f=λ∇gg(x,y)=k⟺⎩⎨⎧fx=λgxfy=λgyg(x,y)=k
No ponto ótimo P∗, a curva de nível de f tangencia a restrição: ∇f e ∇g ficam paralelos (∇f=λ∇g).
Resolvido o sistema, avalie f em cada solução: o maior valor é o máximo e o menor, o mínimo (a restrição sendo fechada e limitada).
Com duas restrições g=k1 e h=k2, o sistema vira ∇f=λ∇g+μ∇h junto com as duas restrições.
07 Integrais múltiplas: domínios, áreas e volumes
A ideia. A integral simples somava “fatias” de área sob uma curva. A integral dupla soma “colunas”: divida a região D do plano em quadradinhos dA, sobre cada um erga uma coluna de altura f(x,y), e some o volume de todas. O trabalho de prova quase nunca está no integrando — está em descrever a região corretamente (os limites de integração) e em escolher o sistema de coordenadas que deixa a região simples.
Integral dupla
∬DfdA soma os valores de f sobre a região D. Se f≥0, é o volume sob o gráfico; se f=1, é a área de D. Pelo Teorema de Fubini, calcula-se como integral iterada:
Região tipo I (entre duas curvas em y)∬DfdA=∫ab∫g1(x)g2(x)f(x,y)dydx
Região tipo I: x varre de a a b e, em cada fatia vertical, y sobe da curva de baixo à de cima. Desenhar a região é 80% da questão.
Região tipo II (entre duas curvas em x)∬DfdA=∫cd∫h1(y)h2(y)f(x,y)dxdy
Coordenadas polares
Para regiões circulares/anulares ou integrandos com x2+y2:
Mudança polar (não esqueça o Jacobiano r!)x=rcosθ,y=rsinθ,dA=rdrdθ,x2+y2=r2
O “retângulo polar” tem lados dr (radial) e rdθ (arco) — daí dA=rdrdθ. Quanto mais longe da origem, maior o arco: esse é o papel do Jacobiano.
Integral tripla
∭EfdV com f=1 dá o volume de E. Duas mudanças de variáveis essenciais:
Cilíndricas (simetria em torno do eixo z)x=rcosθ,y=rsinθ,z=z,dV=rdzdrdθ
Esféricas (esferas e cones)x=ρsinϕcosθ,y=ρsinϕsinθ,z=ρcosϕ,dV=ρ2sinϕdρdϕdθ
ϕ “desce” do eixo z até o raio ρ; θ gira no plano xy. O cone z=x2+y2 é simplesmente ϕ=π/4.
Aplicações
Massa: m=∬DδdA (ou tripla com dV), onde δ é a densidade;
Centro de massa: xˉ=m1∬xδdA, yˉ=m1∬yδdA;
Valor médio de f em D: A(D)1∬DfdA.
08 Curvas no espaço. Triedro de Frenet
A ideia. Pense numa partícula (ou numa formiga) viajando pelo espaço: em cada instante t ela está numa posição r(t). A trajetória é a curva; a derivada r′(t) é a velocidade (sempre tangente ao caminho); e o comprimento do caminho é a integral da rapidez. O triedro de Frenet é o “GPS local” da formiga: para onde vou (T^), para onde a curva está virando (N^) e o eixo em torno do qual ela gira (B^).
Uma curva é descrita por uma função vetorial r(t)=(x(t),y(t),z(t)). O vetor r′(t) é tangente à curva (velocidade) e ∥r′(t)∥ é a rapidez.
Comprimento de arcoL=∫ab∥r′(t)∥dt=∫abx′(t)2+y′(t)2+z′(t)2dt
Triedro de Frenet
Em cada ponto da curva definimos três vetores unitários ortogonais:
T^ aponta para onde a curva vai; N^ aponta para dentro da “curva” (a concavidade); B^ completa o trio, perpendicular aos dois.
A curvatura mede o quanto a curva “dobra”: uma reta tem κ=0 e um círculo de raio R tem κ=1/R. A parametrização pelo comprimento de arcos é aquela em que se percorre a curva com rapidez 1; nela, κ=∥T^′(s)∥ diretamente.
09 Integrais de linha e campos conservativos
A ideia. Um campo vetorialF é como um “vento” que sopra em cada ponto do plano/espaço. A integral de linha vetorial responde: se eu empurrar uma partícula ao longo da curva C, quanto o vento me ajuda ou atrapalha? Em cada pedacinho do caminho, só conta a componente de Fna direção do movimento — por isso o produto escalar F⋅dr. O resultado é o trabalho realizado pelo campo.
Integral de linha escalar (em relação ao comprimento de arco)
∫Cfds=∫abf(r(t))∥r′(t)∥dt
Interpretação: massa de um arame com densidade f, ou área de uma “cerca” de altura f sobre a curva.
Integral de linha vetorial (trabalho)
W=∫CF⋅dr=∫abF(r(t))⋅r′(t)dt=∫CPdx+Qdy
Em cada ponto do caminho, F⋅dr mede o quanto o campo “empurra” no sentido do movimento. Somando tudo, sai o trabalho W.
Roteiro de cálculo direto: (1) parametrize a curva; (2) substitua na F; (3) faça o produto escalar com r′(t); (4) integre em t. Inverter a orientação da curva troca o sinal.
Campos conservativos e o Teorema Fundamental
F é conservativo quando existe função potencial φ com ∇φ=F. Teste em 2D (região simplesmente conexa):
Teste de conservatividadeF=(P,Q) conservativo⟺∂x∂Q=∂y∂P
Teorema Fundamental das integrais de linha∫C∇φ⋅dr=φ(B)−φ(A)
Consequências: a integral de um campo conservativo não depende do caminho, só dos extremos; em qualquer curva fechada, vale zero.
Campo conservativo: tanto faz o caminho — só os extremos importam. Numa curva fechada (A=B), o trabalho é zero.
Como achar o potencial: integre P em x obtendo φ=∫Pdx+g(y); derive em y, iguale a Q e descubra g(y).
10 Teorema de Green
A ideia. Dar a volta completa numa curva fechada calculando ∮F⋅dr pode ser trabalhoso (parametrizar cada trecho…). O Teorema de Green oferece uma troca: em vez de somar o campo ao longo da borda, some uma quantidade (Qx−Py, o “giro local” do campo) dentro da região. Borda ↔ interior: essa é a essência dos três grandes teoremas da unidade.
Teorema de Green∮CPdx+Qdy=∬D(∂x∂Q−∂y∂P)dA
A circulação ao longo da borda C (anti-horária: a região fica à sua esquerda) é igual à soma do “giro local” dentro de D.
Condições: C fechada, simples, orientada positivamente; P e Q com derivadas contínuas em D (cuidado com singularidades dentro da região, como a origem em campos com x2+y2 no denominador).
Aplicação: área via integral de linha
A(D)=∮Cxdy=−∮Cydx=21∮Cxdy−ydx
11 Superfícies parametrizadas e integrais de superfície
A ideia. Uma curva precisa de um parâmetro (t) para ser varrida; uma superfície precisa de dois (u e v) — como as coordenadas de um mapa que cobre uma folha amassada no espaço. Fixando v e variando u, você anda numa “linha de grade”; o vetor tangente a ela é ru. Idem para rv. Esses dois tangentes geram o plano tangente à superfície, e o produto vetorial deles dá o vetor normal (perpendicular à superfície). O tamanho desse produto vetorial é a área do paralelogramo formado pelos dois passinhos — ou seja, o “pedacinho de área” dS.
Normal e elemento de árean=ru×rv,dS=∥ru×rv∥dudv
Os tangentes ru e rv geram o plano tangente; seu produto vetorial é a normal n, e o tamanho dele é o pedacinho de área dS.
Integral de superfície escalar
∬SfdS=∬Df(r(u,v))∥ru×rv∥dudv
Interpretação: massa de uma chapa fina de densidade f, ou (com f=1) a própria área da superfície. Caso a superfície seja um gráfico z=g(x,y), a conta simplifica:
dS=1+gx2+gy2dA⇒A(S)=∬D1+gx2+gy2dA
Integral de superfície vetorial (fluxo)
Φ=∬SF⋅dS=∬DF⋅(ru×rv)dudv
O fluxo mede “quanto do campo atravessa a superfície” — como a vazão de água passando por uma rede. Só conta a parte de Falinhada com a normal (por isso o produto escalar com n). A orientação (para onde aponta n) muda o sinal — leia sempre se o enunciado pede normal exterior ou “para cima”.
12 Operador nabla: divergente e rotacional
A ideia. Pense no campo F como o escoamento de um fluido: em cada ponto há um vetor dizendo para onde e com que força a água se move. Duas perguntas naturais surgem. “Nesse ponto, está saindo mais água do que entrando (uma torneira) ou o contrário (um ralo)?” — quem responde é o divergente, um número. “Nesse ponto, o fluido tende a girar como um redemoinho?” — quem responde é o rotacional, um vetor que aponta no eixo do giro. O operador ∇ (“nabla”) é só um jeito compacto de escrever as duas coisas: divergente é ∇ num “produto escalar” e rotacional é ∇ num “produto vetorial”.
O operador nabla∇=(∂x∂,∂y∂,∂z∂)
Divergente (dá escalar): "produto escalar" com nabladivF=∇⋅F=∂x∂P+∂y∂Q+∂z∂R
Rotacional (dá vetor): "produto vetorial" com nablarotF=∇×F=i^∂xPj^∂yQk^∂zR=(Ry−Qz,Pz−Rx,Qx−Py)
Divergente mede o quanto o campo “jorra” de um ponto (fonte) ou some nele (ralo). Rotacional mede o giro local; o vetor aponta no eixo da rotação (regra da mão direita).
Interpretações físicas: o divergente mede expansão/compressão local (fontes e sumidouros); o rotacional mede a tendência de rotação local do campo.
Identidades importantes
∇×(∇φ)=0 — gradientes não giram (campo conservativo ⇒ rotacional nulo);
∇⋅(∇×F)=0 — rotacionais não têm divergência;
Em 3D (domínio simplesmente conexo): F conservativo ⟺∇×F=0.
13 Teorema da divergência (Gauss)
A ideia. Imagine uma superfície fechada — uma casca, tipo um balão — mergulhada num escoamento. Quer saber a vazão líquida que sai por toda a casca (o fluxo). Uma opção é somar o campo ponto a ponto na superfície (trabalhoso). O Teorema de Gauss oferece a troca: essa vazão total pela casca é igual à soma de todas as “torneiras e ralos” (o divergente) espalhados pelo sólido de dentro. Faz sentido físico: se dentro do balão só há fontes jorrando água, tudo isso tem que sair pela casca. É a mesma filosofia de Green (borda ↔ interior), só que agora casca 2D ↔ sólido 3D.
Teorema de Gauss∬SF⋅dS=∭E∇⋅FdV(S fechada, normal exterior)
Toda a “água” produzida pelas fontes dentro de E (bolinhas) precisa sair pela casca S: fluxo pela superfície = divergente somado no volume.
Roteiro: (1) verifique que S é fechada (se não for, feche com uma “tampa” e desconte o fluxo dela); (2) calcule ∇⋅F; (3) escolha coordenadas adequadas (cilíndricas/esféricas) para a tripla; (4) confira a orientação: o teorema exige normal exterior.
14 Teorema de Stokes
A ideia. É o Green “levantado do plano para o espaço”. Você tem uma curva fechada C no espaço e quer a circulação ∮CF⋅dr (o quanto o campo “gira” ao longo dela). Stokes diz: em vez de percorrer a borda, escolha qualquer superfície S que tenha C como contorno (uma “tampa” apoiada na curva) e some o rotacional através dela. O detalhe libertador: como o resultado só depende da borda, você pode trocar uma superfície feia (paraboloide, hemisfério) por um disco plano de mesma borda — e a conta desmorona.
Teorema de Stokes∮CF⋅dr=∬S(∇×F)⋅dS
A circulação ao longo de C é igual ao fluxo do rotacional por qualquer superfície S apoiada em C. Dedos no sentido de C, polegar aponta n.
A orientação segue a regra da mão direita: com os dedos no sentido de percurso de C, o polegar dá o sentido da normal de S.
Duas jogadas estratégicas que as provas adoram:
Trocar a integral de linha por fluxo do rotacional quando a curva é ruim de parametrizar mas o rotacional é simples;
Trocar a superfície: como o resultado só depende da borda C, você pode substituir uma superfície complicada (paraboloide, hemisfério) pelo disco plano de mesma borda — a conta despenca de dificuldade.